Revista do Brasil/Número 18/Volume 5/Pollice Verso

POLLICE VERSO

Dos dezeseis filhos do coronel Ignacio Gama, cedo revelou o caçula singulares aptidões para medico. Pelo menos assim julgára o pae como quer que o visse na horta, interessadissimo em destripar um passarinho agonisante.

— Descobri a vocação do Nico, — disse o arguto sujeito á mulher — dá um optimo esculapio. Inda agorinha estava lá fóra dissecando um sanhaço vivo.

Hão de duvidar os naturalistas estremes que o homem dissesse dissecar. Um coronel indigena falar assim, com esse rigor, é cousa inadmittida pelos meticulosos, que abalisam o genero inteiro pela meia duzia d'azemolas agaloadas do seu conhecimento.

Pois disse. Este coronel Gama abria excepção á regra; tinha suas luzes, lia seu jornal, devorára em moço o Rocambole, as Memorias de um medico, e acompanhava os detalhes da camara, com grande admiração pelo Ruy Barbosa, o Barbosa Lima, o Nilo e outros. Vinha-lhe disso um certo apuro na linguagem, destoante do achavascado ambiente glossico da fazenda, onde morava.

Quem nada percebeu foi Dona Joaquininha, a avaliar pelo ar emparvecido que deu á cara.

— Dissecando, explicou superiormente o marido, quer dizer destripando.

Destripar, dada a sua boa vontade paterna em descobrir no menino pendores cirurgicos, equivalia a dissecar. Tomem nota os diccionaristas que têm flhos.

— E você dexou-o commetter semelhante "malvadeza"? exclamou a excellente senhora compadecida da avesinha.

— Lá vens tu com as tuas pieguices!... Deixal-o brincar. E' da idade. Eu em pequeno fazia peiores, e nem porisso virei nenhum ogre.

Outra vez! Ogre! Que querem? O homem nascera rebuscado. Este ogre devia ser reminiscencia do Ogre da Corsega, Napoleão de nome. Perdoem-lhe, á guiza de compensação á parcimonia da esposa, cujo vocabulario era dos mais restrictos.

Dona Joaquininha fechou a cara, e quando o pequeno facinora entrou do quintal, pediu-lhe contas da perversidade, asperamente. O coronel, que nesse momento lia, na rede, as folhas recemchegadas, houve por bem interromper a ingestão de um discurso flammante sobre o Amapá, para acudir em apoio do fedelho.

— Uma vez que será medico, não vejo mal em ir-se familiarisando com a anatomia...

— A anatomia está ali, rematou a encolerisada mãe, apontando a vara de marmello occulta no desvão da porta; eu que saiba que o Senhor me continua com judíarias aos pobres animaesinhos, que te disseco o lombo com aquella anatomia, ouviu, seu carniceiro?

O menino raspou-se; o coronel retomou resignado o fio do discurso; e o caso do sanhaço ficou pr ahi.

Mas não ficou por ali a malvadez do Nico. Acautelava-se agora. Era ás escondidas que apanhava moscas e "depennava-as", brinquedo muito curioso, consistente em arrancar-lhes todas as pernas e azas, para gozar o soffrimento dos corpinhos inertes. Aos grillos cortava as saltadeiras, e ria-se de ver os mutilados caminharem como qualquer bichinho de somenos. Gatos e cães farejavam-n'o de longe. Fora elle quem derrubára o misero Brinquinho, da Emiliana, aggregada, e era quem descadeirava a todos os gatos da fazenda.

Isso, longe. Em casa era um anjinho. E assim, anjo internamente, e demonio extra-muros, cresceu até á mudança de voz. Entrou nessa occasião para um collegio, e deste passou ao Rio, matriculado em medicina.

O emprego que lá deu aos seis annos do curso, soube-o elle, os amigos, e as amigas. Os paes sempre viveram empulhados, crentes de que o filho era uma aguia a plumar-se, futuro Torres Homem de Itaóca, onde, vendida a fazenda, então moravam. Nesta cidade tinham em mente encarreirar o menino, para desbanque dos quatro caducos esculapios locaes, uns onagros, dizia o coronel, cuja veterinaria rebaixava os itaóquenses á categoria de cavallos.

Pelas férias o doutorando apparecia por lá, e cada vez "voltava outro", mais desempennado, com tiques de carioca, ss sibilantes, roupas caras, e uns palavriados technicos de embasbacar. Quando se formou, e veiu de vez, estava já definitivo, nos seus 24 annos. Não se lhe descreve aqui a cara porque retratos por meio de palavras têm a propriedade de fazer imaginar feições ás vezes oppostas ás descriptas. Dir-se-á unicamente que era um rapaz espigado, entre louro e castanho, bonito mas antipathico, — com o olhar do Emilio Chione, dizia a Sinhasinha Lopes, menina sabiàssima em cinemas. No queixo trazia barba de medico francez, andó, parece, coisa que muito accrescenta á sciencia medica do seu proprietario. Doentes ha que entre um doutor barbudo, e um glabro, ambos desconhecidos, pegam sem tir-te no pelludo, convictos de que pegam no melhor.

O Dr. Ignacinho, entretanto, aborrecia aquelle meio acanhado, "onde não tinha campo".

— Isto por aqui, escrevia a um collega do Rio, é um puro degredo. Clinica escassa e mal pagante, sem margem para grandes lances, e inda assim repartida por quatro curandeiros que se dizem medicos, perfeitas vaccas de Hyppocrates, estragadoras da pepineira, com as suas consultinhas de cinco mil réis. O cirurgião da terra é um Doyen de 60 annos, emerito extractor de bichos de pé, e cortador de verrugas com fios de linha. Dá iodeto a todo o mundo, e tem a imbecilidade de arrotar scepticismo, dizendo que o que cura é a Natureza. Estes rabulas é que estragam o negocio, etc.

Negocio, pepineira, grandes lances, — está aqui a psychologia do moço medico. Queria panno verde para as boladas gordas...

— Além disso, continuava, é-me insupportavel a ausencia da Yvonne e de vocês. Não ha em Itaóca mulheres, nem gente com quem uma pessoa palestre. Uma pocilga! As boas pandegas do nosso tempo, hein?

Esta Yvonne, estes amigos, estas pandegas foram o melhor do seu curso. Com mão diurna e nocturna manuseou-os, a estes tratadistas da anatomia, da physiologia e da calaçaria e agora roiam-no saudades.

Yvonne voltára á patria, deixando por cá a meia duzia de amantes exclusivos que depennára, a morrerem de saudades dos seus encantos. Antes de ir-se deu a cada parvo uma estrellinha do ceu, para, a tantas horas, encontrarem-se nella os amorosos olhares. Os seis idiotas todas as noites ferravam o olho, um no Taureau, (ella distribuiu as contellações em francez) outro na Ecrevisse, outro na Chevelure de Berenice, o quarto no Bélier, o quinto em Antarés, e o derradeiro na Epi de la Vierge. A marota de lá morria de rir nos braços dum apache, contando-lhe a historia comica dos seis parvos brasileiros e das seis estrellas respectivas. E liam juntos, elle e ella, as seis cartas recebidas por cada vapor, nas quaes os protestos amorosos em temperatura de ebulição faziam perdoar a ingrammatilidade do francez antarctico. E respondiam de collaboração em carta circular onde só variava o nome da estrella e o endereço. Promptas todas as copias, o apache abria o canhenho da Yvonne, e dictava:

— Mr. Gomes, le Taureu; Mr. Silva, l´Epi de la Vierge; Mr. Souza, le Bélier...

E Yvonne ia collocando as estrellas, a rir. Esta circular era o que havia de terno. Queixava-se ella, a rapariga, de saudades — essa palavra tão poetica que fôra aprender no Brasil, o bello paiz das palmeiras, do ceu azul, e do amor... Acoimava-os de ingratos, consolados já para novos amores, emquanto ella, a pobresinha, solitaria e triste "comme la jurity", na casa humilde dos velhos paes consumia os dias em rememorar o doce passado e os serões a fitar a estrella...

Eis explicada a razão pela qual, em noites limpidas, o Dr. Ignacinho ficava-se pensativo á janella, de olho posto na chevelure de Berenice. A cabelleira de Berenice era a sua constellação... E tambem se explica o segredo dumas cartas que lhe entregava o correio, carimbadas de França, sobre a figurinha da Semeadora.

O sonho do moço era enriquecer ás rapidas, para reatar a gostosura do idyllio interrompido.

— Paris!... Paris!... balbuciava a meia voz, nos momentos de devaneio, semi-cerrando os olhos, no antegozo do paraiso.

Sonhava-se lá, riquinho, com a Yvonne pelo braço, flanando no Bois, tal qual nos romances; e a realisação d'este sonho era o alvo de todos os seus passos. Jurára á amiga ir ter com ella, logo que a prosperidade lhe abastasse meios.

Entretanto o tempo corria, e nenhuma piabanha de vulto lhe cahia na rede. Tardava a bolada...

Em francez senegalesco, Ignacio chorincou epistolarmente, no collo da diva, nestes termos:

— Não adoece por cá nenhum rico; não ha "margem para grandes lances"; o pae está velho mas ainda rijo, além de que somos dezeseis herdeiros! Não sei quando poderei estreitar-te nos braços, ó minha...

Aqui vinham tres ou quatro comparações a fio, qual mais poetica, relembrativas do estro de Salomão quando cantava a Sulamita.

Entre os medicos antigos de Itaóca, o Dr. Ignacinho gozava pessimo renome, se um renome pessimo é coisa de gozo.

— E' uma bestinha, dizia um; eu fico pasmado mas é de sairem da faculdade cavalgaduras daquelle porte! E' medico no diploma, na barbicha e no annel do dedo. Fóra d'ahi, que cavallo!

— E que topete! accrescentava outro. Presumido, petulante e pomadista como não ha segundo. Não diz humores, ou syphilis: é mal luetico. Que pedante! Eu o que quero é pilhal-o, n'uma conferencia, para escachar...

O pae, já viuvo por essa epoca, esse babava-se d'orgulho. Filho medico, e inda por cima destabocado e bem petulante como aquelle... Era de moer d'inveja aos mais. Enlevava-o sobretudo o seu modo alcandorado de exprimir-se. Revia-se no filho, o coronel...

— A terminologia inteira da sciencia allopatha, coisas em grego e latim, circumvolve ali n'aquella cabecinha, disse uma vez ao vigario, que olhou de revez, por cima dos oculos, áquelle circumvolve, lindo, mas inapropositado.

E assim corria o tempo entre diatribes das duas sciencias, a moça e a velha, com entremeios dos bellos vocabulos que o coronel nunca perdia de embrechar no phraseado.

Entrementes, adoeceu, o majorMendanha, capitalista aposentado com tresentas apolicesfederaes de conto, o Rockfeller de Itaóca. Deu-lhe uma subita afflicção, uma canceira, e a mulher alvoroçou-se.

— Não é nada, isto passa.

— Passará ou não; o melhor é chamar um medico.

— Qual, medico! Isto é nada.

Não era tão nada assim, como elle pretendia. Aggravou-se-lhe á noite o mal estar, e o velho cedeu ás instancias da esposa. Chamar a qual delles, porém ?

— Pois o Moura, disse a mulher, para quem o da sua confiança era este Moura.

— Deus me livre, retrucou o marido. Aquillo é homem mal azarado. Não foi elle quem tratou o Zeca, o Peixoto, o Jeronymo? E não esticaram a canella todos os tres?

— O Dr. Fortunato, então...

— O Fortunato! Já você esqueceu o que me elle fez por occasião do jury, aquelle tranca? Cobrar por um attestado falso! Não me pilha mais um vintem, o maroto.

No Dr. Elesbão não se falou; era adversario político.

— Chama-se o Galeno...

— E' tão burrego o Galeno... gemeu o doente com cara desconsolada. Andou annos a tratar o Faria do Hotel como diabetico, e já o dava por morto, quando um curandeiro da roça o poz sanissimo com um côco da Bahia comido em jejum. Os biabetes do homem eram solitaria... Só se vier o filho do Ignacio.

Aqui foi a mulher quem reluctou.

— Eu, a falar a verdade, prefiro a ruindade do Galeno, a má sorte do Moura, e até o Elesbão...

— Esse, nunca!! interrompeu o velho n'um assomo de rancor politico.

— ...do que a antipathia do tal doutorzinho. Os outros, ao menos, têm a experiencia da vida, ao passo que este...

— Este o quê?

— Este, Mendanha, é moço bonito que o que quer é dinheiro e pandega, você não vê?

— Qual! embirrinchou o teimoso, sempre ha de saber um pouco mais que os velhos; aprendeu coisas novas. No caso da Nhazinha Leandro, não a poz boa n'um apice?

— Tambem que doença!... Prisão de ventre...

— Seja prisão ou soltura, o caso foi que a curou. Mande chamar o menino.

— Olhe, olhe! depois não se arrependa!...

— Mande, mande chamal-o, e já, que não me estou sentindo bem.

Ignacinho veiu. Interrogou detidamente o major, tomou-lhe o pulso, auscultou-o com o semblante carregado, e disse, depois de longa pausa:

— Não diagnostico por emquanto, porque não sou leviano como "certos" por ahi. Sem auscultação esthetoscopica nada posso dizer. Voltarei mais tarde.

— Vê? disse Mendanha á esposa, logo que o moço partiu. Se fosse o Moura, ou qualquer dos taes, já ali da porta vinha berrando que era isto, mais aquillo. Este é consciencioso. Quer fazer uma auscultação, quê?

— Stereoscopica, parece.

— Seja o que for. Quer fazer a coisa pelo direito, é o que é.

O moço voltou logo depois, e com grande cerimonial applicou o esthetoscopio no peito magro do doente. Vincou de novo a physionomia das rugas da concentração, e por fim concluiu com imponente solemnidade:

— E' uma pericardite aguda, aggravada por uma phlegmasia hepatico-renal.

O doente arregalou o olho. Nunca imaginára que dentro delle surgissem doenças tão bonitas, embora incomprehensiveis.

— E é grave, doutor? perguntou a mulher apprehensiva.

— E', e não é, respondeu o sacerdote; seria grave se, modestia á parte, em vez de me chamarem, chamassem um desses matasanos que por ahi rabulejam. Para mim, não. Tive no Rio, na clinica hospitalar, numerosos casos mais graves, e a nenhum perdi. Fique descançada que porei o seu marido são dentro de um mez.

— Deus o ouça! rematou a mulher, já reconciliada com a "antipathia", acompanhando-o até á porta.

— Então? perguntou-lhe o doente; fiz ou não fiz bem em chamal-o?

— Parece. Deus queira tenhamos acertado, porque isto de medicos é sorte.

— Não é tanto assim, redarguiu o velho, os que sabem conhecem-se por meia duzia de palavras, e este moço, ou muito me engano, ou sabe o que diz. Fosse o Fortunato...

E riu-se, ao imaginar as doencinhas caseiras que o Fortunato descobriria nelle.

A doença do Major Mendanha ninguem sabe qual fôra. O lindo diagnostico do Dr. Ignacinho não passava de mera sonoridade pelintra. Bacorejava ao moço que o velho tinha o coração fraco, e qualquer maromba pelo figado. Palpite. Isto, porque lhe doia a elle aqui no "vasio"; aquillo, por ser natural em organismo já combalido pela idade. Confessal-o com esta semceremonia, porém, seria fazer clinica á moda Fortunato, e desmoralisar-se. Além do mais, quem sabe não estaria ali o sonhado lance? Prolongar a doença... Engordar a maquia...

Ignacio não enxergava em Mendanha o doente, senão uma bolada maior ou menor, conforme a habilidade do seu jogo.

A saude do cliente importava-lhe tanto como as estrellas do ceu, excepção feita á cabelleira de Berenice. Como desadorasse a medicina, não vendo nella mais que um meio rapido de enriquecer, nem sequer o interessava o "caso clinico" em si como a muitos. Queria dinheiro, porque o dinheiro dar-lhe-ia Paris, com Yvonne de lambugem. Ora, o major tinha 300 apolices... Dependia, pois, da sua artimanha malabarisar aquelle figado, aquelle coração, aquellas palavras gregas, e n'um prestidigitar manhoso reduzir tudo a uns tantos contos de réis bem soantes.

A carta desse mez disse á Yvonne:

— Os negocios melhoraram. Estou mettido em uma empreza que se me afigura rendosa. Sahindo tudo a contento, tenho esperança de inda este anno beijar-te sob a luz da terna confluente dos nossos olhares...

O velho peiorou com a medicação. Injecções hypodermicas, capsulas, pilulas, poções, não houve therapeutica que se não experimentasse nelle, desastrosamente.

— E' mais grave o caso do que eu suppunha, disse o doutor á mulher, e os escrupulos do meu sacerdocio aconselham-me a pedir uma conferencia medica; os collegas da terra são o que a Sra. sabe; entretanto, submetto-me a ouvil-os. Se a familia quer...

— Não, doutor, Mendanha não quer ouvir falar nos seus collegas; só tem confiança no doutor Ignacio Gama.

— Nesse caso...

— Ignacinho voltou para a casa esfregando as mãos. Estava só em campo, com todos os ventos favoraveis.

Mau grado seu, na semana seguinte, inesperadamente, o major apresentou melhoras. Sarava, o patife! A Ignacio palpitou que com mais uma quinzena d'aquella arribação o homem se punha de pé. Fez os calculos: trinta visitas, trinta injecções, e tal e tal: tres contos. Uma miseria. Se morresse, já o caso mudava de figura, podería exigir vinte ou trinta contos.

O costume dos tempos era fazerem-se os máus medicos herdeiros dos clientes. Serviços pagos ahi com centenas de mil réis em caso de cura, em caso de morte reputam-se por contos. Se reluctavam no pagamento os interessados, a questão subia aos tribunaes, com base no arbitramento. Os arbitros, officiaes do mesmo officio, sustentavam o pedido — por colleguismo, dizendo em latim: Hodie mihi, cras tibi, cuja traducção medica é: prepare-se você para fazer o mesmo, que eu tambem tenho em vista a minha cartada.

Ignacio ponderou tudo isto. Mediu prós e contras. Consultou accordãos. E de tal modo absorvido andou com o problema que, á noite, na janella, deixava-se ficar até altas horas, mergulhado em scismas, sem erguer os olhos para a Berenice estellar.

O que a sua cabeça pensou ninguem o saberá nunca. As ideias têm para escondel-as a caixa craneana, o couro cabelluda, a grenha; isso por cima; pela frente, têm a mentira do olhar e a hypocrisia da bocca. Assim entrincheiradas, ellas, já de si immateriaes, ficam inexpugnaveis á argucia alheia. E vae nisso a pouca de felicidade existente neste mundo sub-lunar. Fosse possivel ler nos cerebros, claro como se lê no papel, e a humanidade crispar-se-ia de horror ante si propria...

Positivo como era o Ignacinho, suppomos que metteu em equação o problema das duas vidas.

1.a hypothese.

Cura do Major — 3 contos

3 contos — Itaóca, pasmaceira, etc...

2.a hypothese

Morte do Major — 30 contos

30 contos — Paris, Yvonne, Bois...

Depois desta solida mathematica, esta anavalhante philosophia: A morte é um preconceito. Não ha morte. Tudo é vida. Morrer é a transição de um estado para outro. Quem morre, transforma-se. Continua a viver inorganicamente, transmutado em gazes e saes, ou organicamente, feito Lucilias, Necrophoras e uma centena de outras vidinhas esvoaçantes. Que importa para a harmonia universal das coisas esta ou aquella forma? Tudo é vida. Tudo mata para viver. A grande questão é poder matar!... Eu preciso e quero viver a minha vida. Ha obices no caminho? Afasto-os! Tão simples...

Fiquemos por aqui. Estes soliloquios mentaes são apavorantes quando descarnados da abençoada polpa da hypocrisia.

Hypocrisia! que cascão precioso és tu! e como te injuriam... os hypocritas!...

Fiquemos por aqui.

Não ha tempo para malbaratar com o amoralismo, porque o Major Mendanha peiorou subitamente e lá agonisa. Morreu. O attestado d'obito baptisou a causa-mortis de phlegmatite aguda com nephrite elipsoidal. Podia baptisal-a de embolia estourada, nó cego na tripa, tuberculose mesenterica, estupor granuloso peristaltico, ou qualquer outro dos cem mil modos de morrer á grega. Morreu, e está dito tudo.

Morreu, e o Dr. Ignacinho apresentou em inventario uma conta de chegar: 35 contos de réis.

Os herdeiros impugnaram o pagamento. Move-se a traquitana desengonçada que chamam a Justiça, com maiuscula, inda se não descobriu porque. Moe-se o palavriado tabellionesco. Saem das estantes carunchosos trabucos romanos.

Procede-se ao arbitramento.

Os arbitros são Fortunato e Moura, os quaes disseram entre si:

— Que grande velhaco! Mata o homem e inda por cima quer ficar-se herdeiro! O tratamento, alto e malo, não vale cem mil réis. Que valha duzentos. Que valha um conto! Ou tres! Mas trinta e cinco, é ser ladrão.

No laudo, entretanto, acharam relativamente (esqueceram dizer relativo ao que) modico o pedido.

A Justiça enguliu aquelle papel, manipulou-o com os outros ingredientes da praxe, e ao cabo partejou um monstrosinho chamado sentença, o qual obrigava o espolio a alliviar-se de 35 contos em proveito do medico, mais as custas da esvurmadela forense.

Ignacinho embolsou os cobres, e reconciliou-se com os dois collegas, que afinal não eram as azemolas que elle suppunha.

— Collegas, o passado, passado; agora, para a vida e para a morte.

— Pois está visto, disse Fortunato. Tolo foi você de abrir lucta com os que ajudam o negocio. O colleguismo: eis a nossa grande força!...

— Tem razão, tem razão. Criançada minha, illusões, farofas que a idade cura.

Que mais? Que vôou a Paris? Está claro. Vôou, e lá está, sob o pallio da grenha astral, com a Yvonne, a passear no Bois.

Ao pae escreveu:

— Isto é que é vida! Que cidade! Que povo! Que civilisação! Vou diariamente á Sorbonne ouvir as lições do grande Doyen, e opéro em tres hospitaes. Voltarei não sei quando. Fico por cá durante os 35 contos, ou mais se o pae entender de auxiliar-me neste aperfeiçoamento de estudos.

A Sorbonna! A Sorbonna deve ser algum "paraiso" em Montmartre, onde compartilha com o apache da Yvonne o dia da rapariga.

Doyen está claro que é a propria rapariga.

E os tres hospitaes? Ora! são os tres cabarets mais a geito.

Não obstante o pae scismou naquillo cheio d'orgulho, embora pezaroso: que pena não estar viva a Joaquininha para ver em que alturas andava o Nico, o Nico do sanhaço estripado... Em Paris!... Na Sorbonna!... Discipulo querido do Doyen, o grande, o immenso Doyen!...

Mostrou a carta aos medicos reconciliados.

— Isso de hospitaes, gemeu Fortunato, é uma mina. Dá nome. Para botar nos annuncios é de primeirissima.

— E o Doyen, hein? murmurou baboso o embevecido pae. Não ha como a gente apropinquar-se das celebridades...

— E' isso mesmo, concluiu o Moura, relanceando um olhar a Fortunato, n'um commentario mudo áquelle mirifico apropinquamento. E os dois enxugaram, á uma, os copos da cerveja commemorativa, mandada abrir pelo bemaventurado Coronel.

— E a Consciencia? perguntará com indignação algum megatherio, ledor de Hugo e Sue, contemporaneo do remorso, do dedo de Deus e outras antigualhas fosseis.

— Dorme o somno do archaismo no fundo dos diccionarios, responde com o seu riso metallico o nosso prezado amigo Mephistopheles, de dentro de um "Fausto", de qualquer edição. E o megatherio embucha.

MONTEIRO LOBATO

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