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Uma Família Ingleza por Júlio Dinis
Capítulo 6


AO DESPERTAR DE CARLOS

Jenny ficou ainda por muito tempo immovel junto da porta, onde se despedira do pae. O olhar corria-lhe pelos objectos que a rodeiavam; o pensamento porém não acompanhava o olhar.

Aquellas feições, em que se podia reconhecer, mysteriosamente, combinada á candura de uma creança não sei que severidade, toda maternal, tomavam agora um ar de preoccupação e melancolia, uma d'essas sombras, que as ideias graves parece projectarem no semblante de quem não aprendeu a dissimulal-as.

Jenny presentia haver chegado uma nova occasião de ser necessario intervir com a sua influencia pacificadora e angelica para dissipar a nuvem, embora tenue, que assomava no horizonte domestico.

Exercera já de um dos lados essa influencia, conseguira adoçar as disposições acerbas de Mr. Richard para com o filho; faltava-lhe porém o resto, estava ainda incompleta a obra; era preciso ensaial-a sobre Carlos tambem.

E Jenny, que bem conhecia o irmão, tinha fé em que o não tentaria debalde.

Rompia porisso um raio de confiança por entre as sombras d'aquella preoccupação.

Foi n'este estado de espirito que chamou André para que fosse acordar o irmão.

André era o mais antigo criado da casa, especie de mordomo jubilado, que servia Mr. Whitestone desde o seu estabelecimento no Porto e trouxera já ao collo os dois filhos do inglez.

—Vá,—disse Jenny—diga a Charles que eu o espero na bibliotheca.

Carlos dormia tranquillamente, quando o velho André lhe entrou no quarto. A respiração profunda, pausada e regular denunciava um somno, livre de pesadelos e de sonhos importunos.

O criado, depois de escutar algum tempo aquelle som, unico que, com o do bater da pendula vizinha, se percebia no quarto, caminhou com precaução, bem escusada a quem vinha para despertar, até uma das janellas, que entreabriu.

Espalhou-se então no aposento uma meia claridade, coada através das longas cortinas que, soltas das abraçadeiras douradas, rojavam pelo tapete.

Pôde então o velho observar a completa desordem que ia n'aquella sala.

Estes raios de luz, menos felizes do que os evocados pelo fiat lux do Genesis, póde dizer-se que vieram ainda illuminar um cháos; pois difficilmente se encontraria mais apropriada expressão para designar o aspecto do aposento, a cuja vista se dissolveu em sorrisos toda a sisuda gravidade, desenhada nos labios e nas feições do mordomo.

A scena, de facto, escapa á mais esmiuçadora descripção.

Parecia que todos os objectos, alli contidos, haviam, durante a noite, entrado em dança phantastica, de tal sorte os surprendera o dia, deslocados da natural situação.

As cadeiras, amontoadas em desordem no meio da sala, haviam usurpado as attribuições dos guarda-roupas; estes, abertos de par em par, patenteavam o interior desordenado e quasi vazio, como após um saque de cidade conquistada.

Nas mesas, nos sofás, em voltaires, no chão, por toda a parte emfim, menos nos logares competentes, via-se casacos, coletes, calças, mantas de differentes côres e feitios. O pavimento achava-se literalmente alastrado de objectos de impossivel enumeração; aqui, umas luvas, calçadas pela primeira vez na vespera e já postas de lado como inuteis; alli, alguns ramos de flores desfolhadas e murchas, cuja posse, procurada talvez com incansavel insistencia, trouxe depressa após si o abandono e o esquecimento; n'outros pontos, charutos meio consumidos, os fragmentos de uma preciosa jarra de porcelana da India, um livro, que commettera o delicto de não excitar a curiosidade, uma cadeira derrubada com o fardo que lhe pesou sobre o espaldar; cartas, collarinhos, retratos, lenços, chicotes. As esporas no logar do relogio; este pousado na beira do marmore do fogão; sobre o leito, um dominó de setim; pendente á cabeceira, o jornal da vespera e um longo cachimbo com tubo de gutta-percha; aos pés polvorinho de caça, o robe-de-chambre de damasco e o teliz da horsa favorita; no velador, um tinteiro de prata, transformado em cinzeiro de charutos; um chapéo pendurado na chave da porta; o candieiro no chão, alguns livros e mappas geographicos quasi debaixo da cama. Um abat-jour de cartão envernizado com figuras extravagantes, representando chins em posições todas chinezamente ridiculas, servia de barrete ao busto de Shakespeare, cujo pescoço estava além d'isso diplomaticamente enfeitado com uma gravata de baile; defronte, Byron, coberto com chapéo de feltro de abas largas, o qual lhe pendia galhardamente sobre a orelha esquerda, parecia fitar com petulancia o seu illustre conterraneo; no outro angulo, era aquella figura séria e bondosa de sir Walter Scott, com não sei que ares de acanhado debaixo do barrete turco, que a guerra da Crimeia pozera então á moda; e finalmente um quarto busto occultava, sob mascara de setim preto, a expressão de candura e de soffredora tristeza do cantor dos combates dos anjos e demonios, o sublime Milton.

Dir-se-hia que estes grandes personagens da litteratura ingleza, obedecendo á voz do carnaval, haviam surgido da sepultura, para virem celebrar tambem entre si, com as suas cabeças pallidas, a mais estranha mascarada.

No meio de toda esta confusão, um enorme terra-nova, de ventas leoninas e corpulencia de touro, languidamente recostado nas molles almofadas do sofá luxuoso, pousava as patas musculosas e pelludas sobre um magnifico album de gravuras, com a mais absoluta irreverencia pela preciosidade, que assim lhe servia de cabeceira e de estrado.

Imagine-se o resto.

André, o methodico André, sorria e abanava a cabeça no meio de tanta desordem. Demorou-se alguns instantes a examinar todo aquelle desarranjo, que bem simulava os vestigios de recente lucta; depois caminhou para o leito, afastou vagarosamente, de má vontade ainda, as cortinas brancas, que o resguardavam, e curvando a cabeça, fitou os olhos na fronte espaçosa e liza de Carlos, sem que se resolvesse a acordal-o de dormir tão tranquillo.

Carlos tinha a physionomia sympathica e expressiva. O melhor do typo saxonio encontrava-se alli. Os cabellos louros, curtos e naturalmente annelados, deixavam-lhe livre a fronte ampla, de bossas proeminentes, e cujos angulos se prolongavam por sobre as temporas; as côres eram do alvo delicado, proprio dos typos septentrionaes; o nariz de perfil, em que não entrava o elemento da mais desvanecida curva; os labios, algum tanto grossos e levemente encrespados n'um sorriso, entre ironico e affectuoso, prompto a caracterisar-se com facilidade igual n'um ou n'outro d'estes sentidos; as palpebras longas, salientes e nas quaes, em curvas azuladas, transparecia uma rede de pequenas veias, e em torno ás orbitas o circulo de côr desmaiadamente rôxa, vestigio de longas noites de agitadas vigilias; taes eram os traços principaes d'aquella physionomia aberta e attrahente, que, em alguns d'elles, offerecia o que quer que era de Byron. Os olhos, n'aquelle momento velados, possuiam fogo correspondente á vivacidade do espirito que os animava; as feições, paralysadas agora pelo somno, gosavam em vigilia de mobilidade extrema e eloquente, outro ponto de analogia com as do poeta inglez, segundo a crença dos seus biographos.

André acabou emfim por o chamar, mas com voz, que parecia de quem desejava não ser escutado.

—Snr. Carlos—disse elle.

Apesar de pronunciada em tom baixo, e quasi a mêdo, bastou esta palavra para o despertar.

Abriu immediatamente os olhos, fitou-os no criado e, estendendo os braços n'aquelle quasi involuntario movimento, com que todas as manhãs despedaçamos as ultimas cadeias com que nos algema o somno, deixou-lh'os cair em volta do pescoço, como para apoiar-se, dizendo ainda com voz mal distincta:

—Bons dias, André. Que horas são?

—Meio dia.

Foi a resposta que obteve, acompanhada de significativo sorriso.

—Save us!—exclamou Carlos, imitando a despenseira ingleza, de quem era esta a phrase habitual, e ao mesmo tempo voltou os olhos para o relogio fronteiro, o qual, como em resposta a esta mimica interrogatoria, bateu doze lentas e sonoras pancadas.

—Pois não me parecia—continuou Carlos, ao acabar de contal-as.—Ia até estranhar-te a madrugada, sabes tu? E… e… o pae?

—Saíu já.

—E… e que disse?

André encolheu os hombros, respondendo:

—Nada.

Era a maneira de exprimir que alguma cousa dissera.

Carlos comprehendeu isto mesmo, mas não perguntou mais nada.

—Toca a pôr a pé, que são horas!—dizia o André, occupando-se a levantar alguns dos objectos que via pelo chão.

—Deshumano, cruel, que me recordas?—respondeu-lhe Carlos em tom de recitação tragica.

—Vamos, vamos, preguiçoso.

Carlos abriu ainda outra vez a bôca em gesto quasi sentimental de despedida ao somno que se afastava; afagou com a mão o colossal terra-nova, que veio pousar-lhe a cabeça nos joelhos, e abriu ao acaso o livro que encontrou á mão, um romance de Dickens, do qual leu algumas linhas distrahido.

—Então?—insistiu o André, vendo-o pouco disposto a levantar-se—Fica ahi?

—Vae-me buscar o almoço, homem. Traze-me só café. Parece-me que inda agora terminei aquelle turbulento jantar de hontem.

—Então quer almoçar aqui?

—E julgo que é uma resolução muito louvavel.

—Mas…

—Mas o quê?… Que objecções lhe pões? Falla.

—É que miss Jenny espera-o na bibliotheca.

Carlos de um salto sentou-se na cama.

—Ó pateta! e inda agora me vens com isso? Depressa—chega-me d'ahi esse robe-de-chambre.—Isso não… não vês que é um dominó?… Anda… avia-te… Aquelle lenço… O outro… Bem… Vae… Dize a Jenny que n'um momento estou com ella.

E depois de proceder com a maior celeridade áquelle ligeiro toilette de manhã, Carlos entrou na bibliotheca, onde Jenny o esperava.

Era n'esta bibliotheca que muitas vezes os dois irmãos se entregavam a leituras communs, restos de habitos adquiridos na infancia, quando pelos mesmos livros estudavam, formando um gracioso grupo de cabeças louras, objecto das contemplações apaixonadas e das bençãos cordiaes de Mr. Richard Whitestone.

—Bom dia, Charles—disse Jenny, estendendo-lhe a mão, que elle apertou affectuosamente.

—Fiz-te esperar muito, filha? Perdôa-me; mas aquelle pateta não soube dizer-me logo que tu…

—Desculpa mandar-te acordar, mas…

—Fizeste bem; senão, dormiria até á noite.

—Vieste hontem muito tarde, Charles—disse Jenny, abaixando-se disfarçadamente para acariciar o terra-nova, que se lhe deitára aos pés.

—Pois ouviste-me?

—Ouvi.

—Então acordei-te, Jenny? Não foi por falta de cautela, porém… sempre sou um desastrado!

—Não, não acordaste. Eu não tinha adormecido ainda.

—Não tinhas adormecido! Ás quatro horas! Estiveste doente, Jenny?

—Não, mas…

Carlos olhou para a irmã com uns modos, que procurou tornar severos.

—Querem ver que foi por minha causa?… Então que te tenho eu dito, Jenny? Fico de mal comtigo se tornas a ter essas canceiras por mim, a ponto de…

—Não, não foi por canceira, é que…

—É que tu és uma teimosa e o que merecias…

—Não se trata agora d'isso. Dize-me: vens hoje mais cêdo?

—Hoje! Á terça-feira de entrudo! Ó Jenny! Deixa ao menos passar o carnaval, deixa já agora acabar esta maldita época, e depois… depois verás que hei de ficar muitas noites em casa ao pé de ti e de… Tens-te enfastiado muito aqui só, não tens, pobre pequena?

—Ora, não fallo por mim; mas… é que… isso faz-te doente por certo, Charles. Esses jantares tão longos… Essas noites tão mal dormidas… —A mim?! A mim nada me faz mal, filha; lá por isso…

—E depois… Olha, Charles, ha devéras tanto tempo já que te não vemos comnosco, á noite… Não é por mim que fallo, repito; mas o pae… bem sabes, antigos habitos… gosta de nos ver reunidos todos… a certas horas. Coitado! Não digo sempre, mas… ás vezes, de quando em quando, se te não custasse…

—Pois sim, Jenny, pois sim. Deixa voltar o verão, que eu prometto… prometto que, muitas vezes até, hei de fazer o que dizes. Mas as noites de inverno! As noites de inverno, não obstante tudo quanto imaginou aquelle bom Thomson nas suas Estações, são tão longas para se passarem em casa!

—As de estio… depois… já sei… has de achal-as tão formosas que…

—Não—replicou Carlos, sorrindo;—então depois de eu te prometter havia de… Mas, olha cá, Jenny, tu és muito boa, e já sei que me vaes até ralhar por o que eu vou dizer; mas deves concordar em que de facto é pouco agradavel, para um rapaz da minha idade pelo menos, a maneira por que o pae costuma passar aqui as suas soirées. Aquelle eterno Times, aquelle Times sem fim aterra-me, Jenny. A Biblia é um livro que respeito e admiro, mas tremo um pouco das paraphrases dos nossos reverendos lettrados; confesso que tremo. O Tristam Shandy do Sterne já o sei de cor; no Tom Jones de Fielding, quando o não tivesse ainda lido, não haveria já capitulo de que não fosse bem informado, á força de o ouvir citar; e, a fallar verdade, ter de passar uma noite a escutar, mais uma vez, os commentarios a um e outro, com que fatalmente nos flagella o inesgotavel enthusiasmo paterno… a fallar verdade!

—Charles!—disse Jenny, em tom reprehensivo.

—E para cumulo dos males—proseguiu Carlos—estar sempre debaixo da permanente ameaça de uma visita do spleen de Mr. Morlays ou da, não menos para temer, jovialidade de Mr. Brains, Heraclito, e Democrito, inglezes que o sabor nacional tornou mais difficeis de digerir ainda, do que os proprios philosophos gregos. Ahi está o que me faz procurar aquelles logares onde, como diz Thomson: «sussurra um publico, possuido de todos os assumptos, e animado de mixtos discursos».

Jenny não pôde deixar de sorrir ás reflexões do irmão; mas, como para diminuir o effeito d'esta fraqueza, apressou-se a dizer-lhe:

—Pois sim, Charles; mas nem hontem! Hontem, na verdade!… no dia dos teus annos!…

—Então que queres, menina? Não me lembrei de tal, realmente. Acredita. Reputo tão pouco motivo para festas o facto do meu nascimento! —Mas os que te estimam formam melhor opinião d'esse dia. Nem lhes queres dar o prazer de t'o affirmarem?

—Daria se… se me lembrasse.

—O pae destinava-te uma surpreza. Coitado! Fez-me pena a maneira por que elle me encarregou, ainda ha pouco, de te entregar este relogio—disse Jenny, passando para as mãos do irmão o presente de Mr. Richard.

—Devéras?! Pois elle… Pobre pae! Vês? E eu que lhe roubei esse prazer! Ai Jenny, esta minha cabeça! Tu inda ao menos sabes o que me vae no coração, não é assim?

—Sei, Charles, sei.

—Mas os outros…

—Todos te fazem justiça, só tu é que…

—Mas repara, Jenny, é um relogio magnifico este; pois não é?! Bem; não ha que ver, snr. Carlos; é preciso que pela sua parte faça alguma cousa tambem. Está dito; não esperarei pelo verão. O carnaval está a expirar; acabando elle … penitenciar-me-hei na quaresma.

—O carnaval! Muito divertidos devem ser esses bailes de mascaras, para assim te attrahirem, Charles!

—Enganas-te, Jenny; são insipidos, mas… Tu não pódes talvez entender isto, que não obstante é exacto… são insipidos, mas irresistiveis ao mesmo tempo.

—Ora!

—Acredita-me. Rara é a noite em que me não encho de tédio, em que não morro de semsaboria no meio d'aquelle infernal tumulto, e então, se de lá me lembro de ti, do socego dos teus serões, do silencio das tuas noites, do teu bonito quarto côr de violeta, pergunto a mim mesmo, Jenny, por que me conservo longe d'alli, o que me afasta das portas d'esse paraizo, voluntariamente perdido por este louco, que nem merece ser teu irmão. Sinto vontade então de soltar uma lamentação como a de Eva por errar n'um mundo, que ao pé do teu, Jenny, é tambem obscuro e selvagem; por estar a respirar n'um ar bem menos puro.—Não é assim que diz o Milton?—E comtudo não tenho nenhum archangelico poder a impôr-me a expatriação. Vês?

—Estás a gracejar, Charles?

—Acredita que não. Outros te poderiam dizer o mesmo se…

—E é isso que te conservou por lá, ainda hoje, até ás quatro horas da manhã?

—Hoje? Ah, mas… perdão, Jenny; tudo tem suas excepções. A noite de hontem, por exemplo, não me deixou desagradavel memoria de si; devo confessal-o.

—Então?

—Então… é que eu tenho que te contar, e se tiveres a paciencia de me escutar e prometteres não me ralhar muito…

—Ah! pois temos culpas?

—Eu sei? Desconfio tanto de mim, que já me não atrevo a affirmar que procedesse bem. Mas tu o dirás.

Jenny sorriu.

—Ouçamos—disse ella, preparando o almoço, que um criado acabava de trazer para a sala.