Abrir menu principal
Uma Família Ingleza por Júlio Dinis
Capítulo XXII


EDUCAÇÃO COMMERCIAL

Manoel Quentino foi constrangido pela força das circumstancias a conservar-se de cama, nos dias seguintes a este.

Impozera-lh'o o facultativo, que lhe assistira; pedira-lh'o Cecilia, e exigira-lh'o Carlos e o proprio Mr. Richard Whitestone, que viera, pela manhã, visitar o guarda-livros.

Esta necessidade de abstenção de exercício era o que mais affligia Manoel Quentino. Figurava-se-lhe que os negocios commerciaes caminhariam desordenados sem a sua cooperação; mortificava-o a ideia do cháos em que o escriptorio cairia, se por muito tempo a doença se prolongasse.

—Valha-me Deus! Como ha de ser isto agora?—dizia elle, devéras aterrado com a ideia, quando na presença de Cecilia e de Carlos, que demorára a sua visita, mais do que Mr. Richard, tomava a custo um caldo adietado, unico alimento que lhe permittia a arte medica.

—Que canceira lhe está a dar essa ninharia!—disse Carlos, procurando desvanecer aquelles cuidados—Socegue; a sua doença será de pouco tempo; a casa Whitestone não se perde com essa pressa. Lá estão os outros caixeiros.

— Ora os outros, sim!... Os outros!... É bom de dizer...

—Mas então, meu pae, que se lhe ha de fazer? Quando Deus lhe der saude, trabalhará dobrado. Agora veja, mas é se toma esse resto de caldo...

—Nem quero que me lembre! Em que desordem não irei encontrar tudo por lá! E depois, a escripturação atrazada!... Ó filha, bastará de caldo por agora.

—Só duas colhéres mais.

—E por que não ha de o Paulo fazer a escripturação?—insistiu Carlos.

Manoel Quentino fitou n'elle um olhar de espanto.

A sciencia da escripturação era para o velho guarda-livros da tal difficuldade e transcendencia, que a pergunta de Carlos soára-lhe aos ouvidos e irritára-lhe os nervos, como uma imperdoavel heresia.

—O Paulo?! O senhor tem cousas!... Cuida que escrever nos livros commerciaes é o mesmo que fazer um rol de roupa suja?!

—Ao principio não duvido que se lucte com alguma difficuldade, mas no fim de tres dias...

—Tres horas, tres horas... é melhor tres horas... Valha-o Deus! Ó Cecilia, eu não posso levar ao fim este caldo... Tira para lá, filha...

—Era uma colhér só—disse Cecilia, fingindo que lhe obedecia, mas com um modo, que quebrou a Manoel Quentino a coragem de resistir-lhe.

—Então dá cá.—E, fechando os olhos, esgotou até ás fézes aquella especie de taça de amargura, fez uma careta, e respirou no fim, como se alliviasse de enorme encargo.

D'ahi a pouco, a ideia de faltar ao escriptorio incommodava-o outra vez. Antevia mil complicações sérias nos negocios pendentes, e tão longe ia, n'este caminho, a sua fertil imaginação, que não parava senão em imminente fallencia.

Homem habituado a não passar um só dia ocioso, exagerava as consequências da sua falta; guarda-livros, que adquirira, por trabalhosa experiencia, o saber commercial, suppunha indispensaveis annos para habilitar qualquer intelligencia a adquirir igual saber e a ordenar a escripturacão dos livros de commercio.

Por isso ouviu com espanto acompanhado de zombaria a proposta que, como extremo e efficaz recurso, Carlos acabou por lhe fazer, depois de em longa discussão sobre o assumpto ter, com o auxilio de Cecilia, combatido aquellas apprehensões.

—Está bom; socegue—disse Carlos.—Deixe-se ficar na cama o tempo que quizer e que lhe for preciso, porque, emquanto á escripturacão, eu encarrego-me d'ella.

Manoel Quentino conservou por algum tempo os olhos, muito abertos, voltados para o filho de Mr. Richard; lá lhe parecia tão extravagante aquella promessa em um homem, de cuia experiencia commercial sabia o que pensar, que nem com resposta atinou que lhe désse.

Á própria Cecília surprendeu o offerecimento. Ambos julgaram isto um gracejo da parte de Carlos. Comtudo era tão séria a expressão que tomou, n'aquelle momento, a physionomia d'elle, que Cecilia principiou logo a acreditar que não era zombaria a proposta.

Manoel Quentino não se convenceu tão depressa.

—Então com que... encarrega-se da escripturacão?—perguntou o velho, não podendo reter um sorriso, o primeiro que se lhe desenhou nos labios esta manhã.

—Encarrego, sim.

—Olhem que fortuna para a casa! Agora é que ella prospéra... Eh! eh! eh! Valha-o Santo Antonio.

—Então faz-me a injustiça de me suppôr incapaz de applicar as minhas forças a uma empreza qualquer, quando d'ahi possa provir algum bem para um amigo?

Desde que Carlos fez esta pergunta, Cecilia esposou logo mentalmente a causa d'elle: não só acreditou na sinceridade do offerecimento, mas até—vejam que confiança!—até na possibilidade, ou mais ainda, na probabilidade da sua realisação.

Manoel Quentino não era tão facil de mover dos seus juizos. Comtudo tambem o abalaram as palavras de Carlos, ainda que em outro sentido.

—Não, homem;—disse o guarda-livros, meio commovido—eu não duvido da sua boa vontade, nem do seu animo decidido para sacrificios. Bem recentes tenho provas que me não deixam duvidar. Sei que lhe devo talvez a vida. Não pense que sou ingrato. Mas, venha cá, ouça: como quer encarregar-se de um serviço, ao qual tem sempre andado estranho? Era como se eu me mettesse a ir salvar a nado alguem, que estivesse a afogar-se no meio do rio. De que me valeriam os bons desejos, se iria ao fundo, como um prégo, antes de lá chegar?

—Mas tão difficeis lhe parecem essas cousas de commercio, que, dentro em dois ou tres dias, com alguns conselhos e explicações suas, eu não me habilite a comprehendel-as?

Manoel Quentino encolheu os hombros.

—Homem, que conceito faz da minha intelligencia?!—insistiu Carlos—Demais, eu alguma cousa aprendi no collegio, que talvez me sirva. Póde ser que não ande de todo já perdida uma sciencia que, devo confessar, tenho deixado fóra do serviço desde... desde que a adquiri.

—Ora adeus! Onde vão as chuvas do anno passado? Olhem com o que elle vem! O que aprendeu no collegio!...

—Emfim tentemos. Não se perde nada em tentar. O Manoel Quentino não vae esta semana, nem talvez estes quinze dias ao escriptorio...

—Longe o agouro!

—Não vae, que não deve ir. Eu estou resolvido a experimentar a minha aptidão commercial. Quem sabe? Póde ser que adquira até gosto pelo negocio.

—Quem dera!

—Pois póde ser. Encarrega-se de me dar lições? Tres bastam-me.

—Havia de fazer boas cousas com tres lições!

—Apostemos?

—Vá, vá á sua vida. Divirta-se. Isto não é uma brincadeira como...

Carlos revestiu-se de toda a sua gravidade.

—Então, Manoel Quentino! tão leviano me julga, que não admitte que eu falle serio alguma vez?

—Não, mas...

Cecilia tomou, a mêdo, a defeza de Carlos.

—Uma vez que o snr. Carlos se offerece para o ajudar, por que não aceita?

—Ahi vem a outra! Ora para o que lhe deram hoje! Este rapaz engana-se a si proprio. Eu já disse que não duvido dos seus bons sentimentos, mas...

—Mas—atalhou Carlos—uma palavra só! Quer dar-me algumas lições de escripturação commercial? Bem vê que não perde nada com isso.

—Hão de ser curiosas!

—Sejam ou não sejam. Quer ou não.

—Não seja essa a duvida.

—Até á noite, meu mestre—disse Carlos, pegando no chapéo para sair.

—Até á noite—respondeu Manoel Quentino, divertido com a resolução de Carlos, em cujo exito não depunha fé, mas divertido a ponto de se rir com vontade e de quasi se lhe desvanecerem as apprehensões a respeito do escriptorio.

Ao saír, Carlos despediu-se de Cecilia, dizendo-lhe:

—Estão empenhados os meus brios, minha senhora. Dentro em tres dias prometto ser um caixeiro consciencioso e expedito.

Cecilia sorriu, estendendo-lhe a mão.

—Agradecida por tanta generosidade, snr. Carlos.

—E acredita que seja só generosidade?

—Então?

Carlos não replicou. Correspondeu, sorrindo, ao cumprimento de Cecilia, e saiu, sentindo um intimo contentamento ao dizer a phrase trivial:

—Até logo.

Cecilia ficou a pensar no que poderia haver, além de generosidade, no procedimento de Carlos.

Em todo aquelle dia andou tão satisfeita a filha de Manoel Quentino, que os cuidados, que a saude d'ella tinham causado ao pae, diminuiram consideravelmente; o que não foi para elle pequena garantia de melhora na saude propria.

Carlos d'alli foi para o escriptorio.

Não causou pequena surpreza a Mr. Richard ver Carlos estabelecido na banca de Manoel Quentino, examinando, com solicita attenção, os livros commerciaes, as correspondencias do dia, e algumas atrazadas; os outros caixeiros não estavam menos admirados do insolito phenomeno; e muito mais o ficaram, quando Carlos lhes dirigiu algumas perguntas sobre o andamento de certos negocios, e quando inclusivamente o viram attender alguns freguezes, que vinham pedir informações ao guarda-livros, e responder a muitos já com verdadeiro conhecimento de causa.

Em toda a Praça se fallou n'aquillo; foi um verdadeiro acontecimento no mundo commercial. Houve curioso que phantasiou negocios, só para se informar, por seus olhos, do que lhe constára.

A prompta intelligencia de Carlos, auxiliada pela educação que era creança tivera, permittiu-lhe ver claro nos processos de escripturacão, onde espiritos, menos cultos e atilados, só conseguem achar caminho, depois de muitos esforços e tentativas.

Os pontos capitaes recordou-os ou comprehendeu-os á força de reflexão; restavam-lhe pequenas duvidas, difficuldades de segunda ordem, que a experiencia de Manoel Quentino, em poucos momentos, deveria elucidar.

Estas duvidas e dificuldades, é preciso dizer-se, eram principalmente sobre a utilidade dos complicados processos de escripturação, que Manoel Quentino, fiel aos velhos systemas, escrupulosamente seguia. Carlos previa methodos mais simples e expeditos para executar certos lançamentos e operações, e, vendo adoptados os mais extensos e tortuosos, sentia-se embaraçado, suppondo haver alguma razão para a preferencia e não a podendo descobrir.

Ao sair do escriptorio levava Carlos muito adiantada a sua instruccão commercial. Havia muito tempo que não tivera tão laboriosa manhã!

Á noite, quando se preparava para ir a casa do mestre, encontrou Jenny no corredor, a qual, como gracejando, lhe disse:

—Será verdade, Charles, o que acabo agora de saber?

—Então que soubeste tu?

—Que foste hoje um canceiroso guarda-livros e que a todos maravilhaste no escriptorio com a tua applicação ao negocio.

—É verdade; tive esta manhã esse capricho.

—Capricho? Será somente capricho essa febre subita de trabalhar, que te acommetteu?

—Então que mais ha de ser?

Jenny esteve algum tempo calada, sem desviar os olhos do irmão.

—Tens razão. Será capricho. É de certo; mas talvez não tão innocente e sem importancia como o queres fazer.

—Ahi está que tambem tu és inconsequente, Jenny.

—Porquê?

—Ralhavas-me, ha dias, por o meu desapêgo aos negocios do escriptorio; agora vejo-te com vontade de me ralhares pela minha applicação.

—Se não houvesse n'ella uma intenção, de que eu desconfio!

—Uma intenção?...

Jenny mudou de tom.

—Deixas-me fazer-te uma pergunta?

—Dize.

—Aonde vaes tu agora?

Carlos perturbou-se ao responder:

—A casa de Manoel Quentino.

—Ah!...

—Bem vês que o pobre homem está doente...

—Soube agora que passou bem a tarde. Mandamos lá perguntar. Por isso, se te custa a visita...

—Mas... prometti...

—Ah!... prometteste!...

—Olha, Jenny. Digo-te a verdade. Para tranquillisar o bom homem, que não podia resignar-se a deixar o escriptorio ao desamparo, prometti-lhe encarregar-me do serviço, Mas bem sabes, ou deves suppôr, até onde chegam os meus conhecimentos commerciaes. Para tornar effectiva a promessa, careço de informações, que só Manoel Quentino me póde dar, por isso...

—E não receias que, doente como está, lhe faça mal a applicação de espirito, a que o vaes obrigar?

—São certas duvidas apenas.

—E se as expozesses antes ao pae?

Na fronte de Carlos desenhou-se uma ligeira ruga de impaciencia.

Jenny, com ar de tristeza, acrescentou, suspirando:

—Bem vejo, Charles, que esqueceste a palavra que me tinhas dado.

—Não te entendo.

—Entendes, entendes. Dize-me, se eu te pedisse que não fosses hoje a casa de Manoel Quentino?...

—Tinha que ver Jenny com caprichos, exactamente como outra qualquer mulher! Não nasceste para essas fraquezas femininas, minha boa, minha sisuda irmã.

E pegando, a rir, nas mãos de Jenny, levou-as aos labios e partiu apressado para não a escutar de novo.

Jenny viu-o sair, e uma dolorosa expressão gravou-se-lhe no semblante.

—Já não está na minha mão valer-lhe!—disse ella com amargura—Como findará isto, meu Deus!

Foi muito desagradavelmente surprendido n'essa noite o snr. José Fortunato, ao encontrar Carlos Whitestone em casa de Manoel Quentino. Descobriu elle n'isto indicios de grandes transtornos nos seus uniformes habitos de vida.

A primeira noticia do facto recebeu-a de Antonia, que não via tambem com olhos favoraveis aquella intrusão.

Antonia e José Fortunato eram duas potencias alliadas e ciosas das suas prerogativas e influencias para com Manoel Quentino.

—Temos cá o homem!—dissera Antonia a meia voz, ao snr. José Fortunato quando lhe abriu a porta.

—Quem?—perguntou este, parando nos primeiros degraus da escada.

—O de hontem... O inglez...

—E a que vem elle cá?

—Eu sei. A modo que me não vae agradando isto. Pelos bonitos olhos do pae não é que...

Um negrume toldou o horizonte do coração do snr. José Fortunato.

Entrou para a sala do serão, o qual se fazia agora no quarto de dormir de Manoel Quentino, visto recommendar-lhe a medicina a prudencia de não abandonar o leito.

Á habitual saudação do recem-chegado responderam Manoel Quentino e a filha, e, no parecer do homem, alguma cousa mais distrahidamente do que do costume.

Não lhe agradou aquella distracção. Carlos fez-lhe um ligeiro signal de cumprimento e voltou á tarefa, em que parecia occupado.

Procedia-se, n'aquelle momento, á primeira lição commercial.

José Fortunato não podia comprehender o que via.

Manoel Quentino, sentado no leito, tinha no rosto a gravidade do professorado, temperada por certo sorriso de duvida nas boas intenções e na efficacia do estudo do discipulo.

De um lado do leito, sentava-se Carlos Whitestone, partilhando a attencão entre as prelecções de Manoel Quentino e as festas ao gordo gato maltez, que se lhe viera roçar pelas mãos—prova de confiança, que nunca dera a José Fortunato, apesar de mais longa convivencia.

Havia ainda outro objecto a attrahir as attenções de Carlos e porventura a maior ou mais preciosa porção d'ellas,—era Cecilia.

Em pé, do outro lado da cama, tendo na mão a costura, de que frequentemente se descuidava, seguia com curiosidade as prelecções paternas e as objecções, com que as interrompia Carlos, e não podia disfarçar de todo o riso, que a singular lição lhe desafiava.

A chegada de José Fortunato não alterou esta disposição de cousas e de pessoas; não era elle homem para constranger ninguem.

—Ora vamos a isto;—começou Manoel Quentino—para lhe fallar a verdade, não sei bem por onde principie.

—Eu lhe digo...—ia Carlos a responder, quando Manoel Quentino o interrompeu.

—Então, então! Não principie já a atrapalhar, senão não temos nada feito. Ora espere lá... Deixe-me cá ver...

E, depois de pensar algum tempo, continuou:

—Usam-se no commercio tres livros principaes...

Este começar ab ovo não agradou ao discipulo, que o atalhou dizendo:

—Já sei.

—Já sabe! Como já sabe?

—Pois nem isso havia de saber?! Creia que esta manhã, no escriptorio, levei a minha instrucção commercial ainda muito mais longe.

—Ora adeus!

—Verá.

—Então, se já sabe, escuso eu de...

—Sei que ha tres livros principaes em commercio, que se chamam: Diario, Razão e Caixa, e que ha tambem os auxiliares.

Manoel Quentino estava devéras admirado de Carlos saber tanta cousa!

—O pae de que se admira? Eu mesma, parece-me que sabia isso tambem—disse Cecilia.

Manoel Quentino olhou para ella, e encolheu os hombros.

—Com que gente eu estou mettido! Bem;—acrescentou pouco depois para Carlos—então faça favor de me dizer o que é que não sabe, para eu lh'o ensinar.

—Olhe: eu o que desejo é obter esclarecimentos, em relação a certos pontos, sobre o que tenho duvidas. O processo da escripta a final não é cousa tão complicada, que não se possa comprehender, examinando-a com attenção; muito mais se, conseguindo despertar a memoria, alguma cousa ella nos vem tambem auxiliar. Só me parece que esse processo ainda podia ser mais simples do que o fazem.

—Não podia, não, senhor. Não venha agora para cá com modernices. Tudo é preciso.

—Não é tal. E senão vejamos: A escripturação póde fazer-se por partidas chamadas simples e dobradas; não é verdade?

—É, sim, senhor.

—E differem ellas...

—Eu lhe digo—atalhou Manoel Quentino.—Supponha o senhor que alli o snr. José Fortunato compra dez pipas de vinho á casa. Percebe?

—Que havia eu de fazer a tanto vinho?—resmoneou o snr. José Fortunato, para dizer alguma cousa.

—As quaes pipas importam—continuou Manoel Quentino—em dois contos de réis. Percebe?... O senhor escreve no Diario, em lettras grandes—sempre em lettras grandes—percebe? José Fortunato deve, por dez pipas de vinho a duzentos mil réis—dois contos de réis. Percebe?

—Sim; isso já eu sei... mas...

—Espere lá. Ou homem! Já sabe, já sabe! O senhor sabe tudo! Então se já sabe!... Este é o methodo de partidas simples.

—Perdão. Entendo que o methodo de partidas simples não se resume a tão pouco, pois que...

—Se é assim, pouco mais difficil é do que aquelle, pelo qual faço a escripturação da nossa casa—disse Cecilia, rindo, e emquanto ageitava a dobra do lençol, que Manoel Quentino desordenára.

—E creia, minha senhora—acudiu logo Carlos, no mesmo tom—que, a final de contas, muitos dos nossos caixeiros deviam tomar por modelo a simplicidade dos methodos de v. exc,ª, pois valem mais do que as baralhadas e mysteriosas escripturações de certos livros, nos quaes a melhor vista não consegue penetrar. Parece-me.

—Pois parece-lhe uma tolice—disse Manoel Quentino, a quem impacientavam estes levianos juízos criticos sobre uma arte, para elle tão transcendente como perfeita.

José Fortunato bocejava.

—Mas vamos cá—proseguiu Manoel Quentino.—Quer ver agora como fazia aquelle lançamento por partidas dobradas? Se o snr. José Fortunato, comprando o vinho, aceitasse uma lettra ou lhe endossasse alguma, pagavel á ordem d'elle; percebe? O senhor escrevia no Diario: Lettras a receber a vinho...—Note que os nomes do crédor e do devedor se escrevem sempre em lettra grande.—Percebe? Depois explicava a transacção por baixo d'estes titulos...

Não pretendendo os leitores provavelmente instruir-se em sciencia commercial, dispensar-me-hão de transcrever na integra a prelecção de Manoel Quentino.

Durante ella, manteve-se sempre em conflicto o espirito prático, o respeito ás velhas formulas, a experiencia intransigente do mestre, com o arrojo innovador, as tendencias simplificadoras e a aversão a inuteis complicações do discipulo.

Mais uma vez se verificou a eterna lucta entre a theoria e a prática; uma, com seus instinctos de joven, com seus habitos de actividade, com seus amores pelo futuro e pelo progresso; outra, com a frieza da idade madura, com uma indole, essencialmente prosaica e conservadora; fiel ao passado, que foi sem mestre, desconfiada do futuro, que não conhece, severa para com as ideias novas, cujos humores travêssos a impacientam. Uma, brincando e esperando no dia de ámanhã, como creança; outra, ralhando e suspirando pelo dia de hontem, como avó; uma, apaixonada do ideal e reparadora de tuertos, como D. Quixote; outra, odiando utupias, e contente com a ordem estabelecida de cousas, como Sancho. Em todos os campos da sciencia humana se encontram, frente a frente, estas duas filas de contendores. Emquanto o medico novo baseia raciocinios e assenta diagnosticos sobre recentes descobertas physiologicas, o prático velho encolhe os hombros, sorri, formúla ou opéra; emquanto o joven lettrado desenvolve theorias de sciencia social, vistas transcendentes de philosophia de direito; o jurista, encanecido no fôro, examina os artigos do codigo, esmiuça a lettra da lei, aconselha as partes e despacha os autos.

No exemplo que temos á vista, Manoel Quentino era o representante das ideias conservadoras; Carlos, o apostolo do progresso.

Por vezes o inabalavel rochedo da experiencia do guarda-livros foi rudemente açoutado pelas objecções, que a lucida intelligencia de Carlos contra elle despedia. Manoel Quentino fazia porém como o rochedo; não as repellia, deixava-as passar por si e ficava firme.

Manoel Quentino explicára, por exemplo, a Carlos a maneira de fazer os lançamentos, no caso de uma supposta remessa de lã para Liverpool.

Carlos combateu a longura e complicação dos processos seguidos, expondo a maneira como, no seu entender, se podia e devia simplificar a escripturação; parecia-lhe que muitas indicações feitas nos livros escusavam de ser registradas, e n'este caso estavam todas aquellas contas que, pelo processo de Manoel Quentino, eram creditadas e debitadas simultaneamente; desnecessario julgava fazer menção d'ellas, visto que ficavam logo por esse facto saldadas.

Os methodos indicados por Carlos eram tão simples, tão racionaes, tão despidos de minuciosidades defeituosas, despojavam os livros de tantas indicações superfluas, ronceiramente consagradas pelo habito, que Manoel Quentino não soube como combatel-os.

Imagine-se a contrariedade que experimentou com isto!

Não era elle homem porém que rompesse com habitos velhos e renegasse, perante as primeiras objecções de um rapaz inexperiente, o classico systema, a que fora fiel durante os muitos annos do seu tirocinio commercial; por isso retorquiu com acrimonia:

—Não sei de contos; assim é que se faz.

—Será; mas não se podia fazer tambem da maneira que eu digo?

—Podia... não podia... isto é... podia... não podia, não, senhor.

—Porquê?

—Porque não.

—Mas é, sem comparação, mais simples.

—E é com o que lhe dá! É mais simples, é mais simples... e acabou-se! Deixal-o ser!... Não se trata aqui de ser mais simples, nem menos simples... É como é e como deve ser... Estava-se mesmo á espera do senhor para vir fazer descobertas!... Até agora temos andado todos ás aranhas... Faltava cá o snr. Carlos com as suas simplicidades! Ora não está má!... É mais simples!... Pois peior; nós não queremos cousas simples... Será mau o processo, mas olhe que se tem feito e guiado muito boas casas com elle. Fie-se lá nas suas escripturações simples, e verá o que vae! Theorias!... Estou de pé atraz com ellas! Não provam bem. Negociante de theorias, fallencia no caso. É mais simples!... Olhem a grande cousa!... Mais simples era não fazer lançamento nenhum, se vamos a isso.

Carlos pôz-se a rir. Comprehendeu a repugnancia que devia encontrar Manoel Quentino em ceder n'aquella discussão e respeitou-lh'a. Recuando generosamente n'este campo, avançou n'outro; porque Cecilia soube ser grata áquella delicadeza de proceder para com o pae.

Manoel Quentino anciava por uma desforra; encontrou-a.

Duante a passada discussão, tendo-se fallado muitas vezes em facturas, o velho voltou-se agora de subito para Carlos, perguntando-lhe ex-abrupto se sabia fazer uma factura. Carlos não respondeu logo.

O homem prático presentiu n'esse campo completo triumpho. Não admittiu, por cautela, explicações verbaes; mandou vir papel, penna e tinta, e disse para o discipulo:

—Risque e encha.

Carlos hesitou. Manoel Quentino saboreou as doçuras de uma victoria.

—Ora ahi está,!—exclamou elle—Ahi está do que servem as theorias! É isto sempre... Fallam que nem um bacharel... e vae-se a trabalhar e... passe por la muito bem! não atam nem desatam!... Então? Veja se se lembra de algum methodo mais simples de sair do aperto... Qual!... Aqui é que eu os quero ver... No fogo é que se conhecem os soldados... Isto de queimar polvora em fogos presos não presta para nada... Ora escreva, escreva lá, faça o que eu lhe disser e deixe-se de theorias. Não tenha vergonha de aprender. Todos aprendem até á morte.

E principiou a indicar-lhe a maneira de riscar o papel, as inscripções que tinha a fazer, as verbas que devia registrar, e isto tudo sem lhe deixar passar por alto a minima particularidade.

Carlos obedecia-lhe com tal docilidade de discípulo, que fazia rir Cecilia.

—Vá; escreva ahi, no alto da folha—disse Manoel Quentino—Factura de... agora um genero qualquer que queira carregar.

—De paciencia então, que é genero de que o Manoel Quentino bem precisa agora para aturar a molestia.

—Então! está a brincar ou que faz? paciencia preciso, mas é para o aturar a si.

—Paciencia confiada ao cuidado de meu pae!—dizia Cecilia—Valha-nos Deus! que não é homem que tenha cautela com a mercadoria.

—E adeus! Estão as duas creanças a brincar. E eu que as ature!

Se Manoel Quentino tivesse mais algum conhecimento dos pequenos mysterios do coração, não fallaria assim collectivamente de Carlos e Cecilia, isto de os confundir debaixo da denominação generica de creanças era imprudente, no estado actual dos sentimentos de ambos.

Proseguiu a indicação da maneira de encher a factura e com isto terminou a lição.

Em seguida, serviu-se o chá, que n'aquella noite não soube a José Fortunato, como de costume.

Manoel Quentino, apesar das suas impaciencias, estava, de si para si, espantado de tanto que sabia Carlos.

—Que esperteza de rapaz!—dizia elle para Cecilia, quando esta, depois de todos se haverem retirado, fazia engulir ao pae a ultima chavena de caldo d'aquelle dia e lhe arranjava os travesseiros para o somno da noite—Tem diabo! Como entende tão bem estas cousas de commercio, a que andou sempre estranho! Era capaz de enrodilhar outro, que não tivesse a experiencia, que eu tenho! Uma cousa assim! Parece até que adivinha! É até um peccado andar fóra da vida do negocio... Deem-lhe alguns annos de pratica, e verão o que d'alli sáe.

Cecília calava-se.