Uma Lágrima de Mulher/II/I

Uma Lágrima de Mulher por Aluísio Azevedo
Segunda Parte, Capítulo I


Na célebre rua de Toledo, em Nápoles, porventura mais bela hoje do que no ano de 1843, época em que sucederam os fatos que estamos narrando, figurava uma casa cinzenta com cimalhas de mármore cor-de-rosa.

O edifício tinha trinta metros de altura sobre sessenta de comprimento, e, a julgar da coloração e feitio de portas e janelas, e atentando para as folhas de acanto que ornavam o ábaco das colunas de dez diâmetros de altura e pertencentes sem dúvida à rica e variada ordem coríntia, era talhado pela escola antiga.

A face dianteira, posto que um tanto chata, era bem arquitetada, podendo ser dividida em três partes distintas. - A central, com cinco janelas de honra e três portas de entrada geral, sendo a do centro mais larga e mais guarnecida - e as duas partes laterais, inteiramente iguais entre si, com três janelas cada uma e fechando em graciosa curva as extremidades do frontispício.

Destas extremidades, partiam duas alas de colunas, que, sustentando um esférico avarandado de balaústres do mesmo mármore das cimalhas, ladearam elegante e circularmente o edifício.

O portão central com pilares de mármore também cor-de-rosa abria para um átrio, espécie de corredor quadrado, cujas paredes betumadas com terra cozida apresentava, em alto relevo, assuntos mitológicos, notando-se alguma monotonia na disposição simétrica das figuras meio humanas e meio irracionais, sendo na maior parte fabulosas.

O chão desse corredor, ladrilhado de pedra de diversas cores, terminava por uma ampla escadaria de pedra calcária, dividida em dois lances, que se encontravam na extremidade superior. Aí uma varanda gradeada com vista para o corredor dava passagem para o interior da casa por uma larga e bonita porta, que comunicava imediatamente com a sala de espera, na qual uma infinidade de estatuetas, vasos de pórfiro e outros muito variadíssimos objetos de arte distraiam a atenção de quem lá se achasse.

Seguia-se a sala de visitas, preparada e guarnecida com gosto e rigor, sobressaindo do roxo escuro das paredes a brancura opaca dos bustos e estatuetas de jaspe colocadas de espaço em espaço sobre trabalhadas peanhas de basalto; magníficas mesas de sicómoro, caprichosamente talhadas, refletiam-se, pejadas de delicadas tetéias, nos espelhos oitavados com moldura de metal dourado embutido no ébano; o chão, de madeira brunida, luzia como uma lâmina de aço polido, refletindo o fundo artisticamente talhado das cadeiras e das mesas.

Atravessavam-se ainda algumas casas, destinadas a salões de baile, alcovas particulares e câmaras de recreio, tais como biblioteca, sala de fumar, quarto de armas, etc., até chegar a uma enorme varanda que costeava em semicírculo de um lado a outro toda a casa.

Efetivamente, dessa varanda gozava-se de uma vista esplêndida e variadíssima: das janelas da frente devassava-se a Chiaja, Vila Realie e lados de Capo di monte; quem ai estivesse veria o formigar constante e geral da população e sentiria o confuso motim dos cafés, restaurantes, ourivesarias e casas de modas, de que já então abundava a rua de Toledo; daí envolveria agradavelmente com a vista o soberbo Palácio Real com o seu jardim à beira do golfo, e os seus grupos de bronze no começo do jardim.

Do fundo, davam as vistas sobre uma magnífica chácara, pertencente à casa, bem plantada e guarnecida, tendo no centro um belo chafariz de mármore rajado. Galgavam depois os olhos os grupos amontoados de casas e quintais, a alcançavam finalmente os pitorescos arrabaldes, anunciados pela copa de árvores seculares.