Uma Lágrima de Mulher/II/IV

Uma Lágrima de Mulher por Aluísio Azevedo
Segunda Parte, Capítulo IV


Mas que roda era essa tão esquisita?

Donde vinha semelhante gente, e para onde se destinava?

Vinha do nada e caminhada para o nada, pouco mais ou menos...

— De quem ou de que se compunha?

De restos.

Expliquemo-nos.

Em todas as grandes capitais, há deste gênero de boêmios aristocráticos, que Dumas Filho, referindo-se aos de Paris, intitula Demi-Monde, espécie de ilha flutuante, que bóia à flor da sociedade universal.

Em Nápoles, essa sociedade de ouropel florescia em 1846, com escandalosa aceitação, e, sustentando-se por necessidade, ia caminhando, podemos dizer, com regularidade, substituindo a nobreza pelo dinheiro e o dinheiro pela nobreza, e, na falta de algum destes agentes, socorrendo-se à formosura e à mocidade, na ausência dos quais ainda lançava mão, como último recurso, do talento de savoir-vivre e da arte de se meter em toda parte e de saber tirar partido de tudo.

Essa singularíssima e perigosa prole principiou do seguinte modo: - Um fidalgo arruinado, depois de atirar pela janela do desperdício o último centavo e, não podendo abdicar para sempre dos seus inveterados hábitos de opulência, procurou um burguês rico com o fim de, muito em segredo, nele se arrimar; o burguês, por outro lado, também precisava do auxílio da nobreza, para ter importância e subir; reunidos satisfaziam mutuamente o útil e o agradável. Fundiram-se.

Dessa combinação resultou - luz e movimento. O paralítico prestou olhos ao cego, e o cego pernas ao paralítico. E assim puderam ver e andar.

Ora, tudo aquilo que vê e anda, pode ir para diante e é suscetível de progresso.

Foi o que sucedeu - prosseguiram.

Pelo caminho foram atraindo com a luz da sua idéia os companheiros que andavam desnorteados e erradios à procura de um rumo.

A luz transformou-se em farol - os náufragos sociais engrossaram o grupo.

As mulheres, que se desacreditavam na alta sociedade, vinham, repelidas pelos competentes maridos e pelas competentes famílias, refugiar-se nessa roda; os filhinhos, ou melhor, as causas inocentes desta debandada, chegavam juntamente com as mães repelidas e com elas se educavam no mesmo meio.

Estas malfadadas crianças cresciam e, quando, por fraqueza ou por falta de pundonor, não fugiam envergonhadas, formavam a parte moça da Sociedade Flutuante. As vagas dos maridos eram razoavelmente preenchidas e jamais os filhos conheciam os verdadeiros pais.

Era mais uma roda de enjeitados do que uma roda social.

Compunha-se especialmente de destroços e de vergonhas - ali o que era um resto era um embrião - ou tinha já deixado de ser ou ainda não era; ninguém tinha um lugar definitivo, porque logo que chegasse a alcançá-lo desertava incontinenti.

Podia também aquilo ser considerado como um curso preparatório; habilitavam-se ali para poder galgar um lugar fora, e só na hipótese de nada encontrar exteriormente, recorriam à Sociedade Flutuante, como remédio extremo ou como último porto de salvação.

E em verdade é que, até certo ponto, achavam os fugitivos, na obscuridade dessa roda, abrigo seguro para as suas vergonhas e pesares. Esses eram os desesperançados.

Concluí-se que aquilo podia ser ou um túmulo, de qualquer modo seriam trevas, à semelhança do homem, cujos extremos são sempre sombras; podia ser um princípio ou um fim, porém nunca um meio, isto é, uma posição social.

Em público, todos odiavam essa sociedade; em particular muitos a procuravam e ninguém, que pública ou particularmente, queria, por gosto, ali ficar para sempre. Quem ali permanecia era por não obter absolutamente outro recurso.

Desse feito, pensava Maffei, e tinha para si que o casamento de Rosalina com um fidalgo arruinado abriria na nobreza uma brecha assaz larga para ele evadir-se também. — Um fidalgo, quando empobrece, continua o burguês a pensar, em geral cai e com o choque abre na sua classe uma fenda por onde vai se introduzindo a burguesia.

Frágil e desgraçada coisa é a nobreza que precisa de dinheiro para não rachar.

Era com essa fenda que contava o antigo pescador. E contava muito bem, porque os homens, ao contrário dos gases, quanto mais pesados mais sobem.

A Sociedade Flutuante avultava de dia para dia; ultimamente, tornara-se até bastante conhecida e um tanto censurada, e, se bem que afetasse ótima aparência, a polícia tinha-a de olho.

Os seus mais perigosos detratores eram justamente os seus próprios adeptos - diziam mal uns dos outros e, a falta que este, com mil cuidados se esforçava por encobrir, aquele lha devassava pela sorrelfa.

Iam contudo vivendo e aliás regularmente.

O maior desejo das raparigas que lá caiam era casar fora dessa roda ou com alguém que ali estivesse por mera curiosidade, como simples amador. Se o logravam, saíam sem sequer voltar para trás a cabeça - desapareciam por uma vez, e faziam bem.

Quem mais gostava da Sociedade Flutuante eram os rapazes solteiros. — Os amores, como diz Dumas, são aí mais fáceis do que na alta sociedade e mais baratos do que na baixa.

Isto compreende-se com os amadores, com os que a freqüentavam por espírito de - curiosidade, espécie de sócios honorários, porque com os outros, isto é, para os sócios legítimos e efetivos, não era essa sociedade mais do que um recurso sofrível, em falta de outro melhor.

Estes eram os velhos ou parvos.

Se era um nobre que vinha arruinado e gasto da alta sociedade, chegava cansado e só queria que lhe dessem uma cadeira para descansar ou uma cama para morrer; e se o sujeito era nascido aí e se se tivesse deixado ficar, provaria com isso que era simplesmente parvo e então só desejava que o deixassem viver na lama em que tinha nascido.

Finalmente, velho ou moço, nobre ou parvo, o certo é que para fazer parte da Sociedade Flutuante eram necessárias duas coisas principalmente: a primeira - não ter juízo, a segunda - não ter brios.

Agora que fica conhecida a roda de Maffei, lembro que há quatro anos vivia nela Rosalina.