Uma Lágrima de Mulher/II/III

Uma Lágrima de Mulher por Aluísio Azevedo
Segunda Parte, Capítulo III


Fatal metamorfose!

Maffei e a filha rolavam pelos despenhadeiros da sociedade; dera-lhes o primeiro empurrão a cobiça, a posse o segundo, depois o orgulho e finalmente o vício. No cair vertiginoso, tentaram, baldadas vezes, agarrar-se às asperezas do precipício e não conseguiam mais que sujar as mãos, porque a lama faz escorregar e suja.

Afigurava-se-lhes, entretanto, estarem a voar para cima; têm destes efeitos singulares as grandes quedas. Às vezes supomos subir quando evidentemente caímos. Viam tudo luzir em torno deles, sem se lembrarem que a lama também tem o seu brilho, em lhe batendo a luz... do ouro.

E caíam! caíam sempre, porque o mal é como a lua - cresce ou diminui, nuca estaciona.

Uma noite, seriam duas da madrugada, os salões da casa da rua de Toledo reverberavam ao clarão aristocrático das mangas multicores de cristal.

Era noite de baile.

O baile tem um quê de morcego - só aparece à noite e rouba as cores às raparigas.

Havia grande folgança na casa, porque muito se ria e dançava; a festa chegara às fases do frenesi e da loucura.

Em uma das salas, porém, lívido, monstruoso e feroz, encerrado ali como uma fera na jaula, o jogo devorava, silenciosamente, terras, palácios, jóias, dinheiro e reputação; era um tragar de jibóia - engolia sem mastigar.

O silêncio indicava que o monstro fazia a digestão surda e pesada, porém fortíssima - desgasta o ouro e o diamante com a imperturbalidade e pachorra de um cônego velho e gastrônomo, que rumina, com apetite e método, o fruto da caridade do povo.

A consciência sentia vertigens de olhar por muito tempo para aquele grupo, espécie de autômato, movido pela cobiça e governado pela força abstrata do vício.

No meio da mesa, brilhava como um centro planetário, o monte de moedas de ouro, em torno do qual toda a força e atenção dos circunstantes gravitavam impacientes e desordenadas.

Era o centro de gravidade das almas daqueles miseráveis; para ele convergiam todos aqueles sentidos cariados e todos aqueles corações sujos - pátria, família, aspirações, glória, tudo, tudo se resumia no punhado de moedas.

Não se ouvia palavra.

Como estátuas movediças, atiravam à boca escancarada da fera os seus bens, os do filho, o futuro da própria família e da alheia.

E a fera, como uma vala de cemitério, ia sorvendo em silêncio tudo o que lhe lançavam, enquanto todos jaziam a meditar, que também a gente medita para fazer o mal.

Todavia, toda e qualquer consciência tem horror ao jogo; a ninguém incomoda tanto o tapete verde como ao próprio jogador - enquanto lança à sorte o que possui, calca aos pés a pobre consciência, que, ao lado das escarradeiras, dorme ébria e envergonhada debaixo da mesa.

O salão principal do baile oferecia um espetáculo inteiramente oposto ao que acabamos de esboçar.

Não se ouvia aqui o ressonar pesado do jogo, sentia-se a febre vertiginosa da dança; aqui era tudo delírio e loucura. A atmosfera morna, pesada, abafadiça, e de um branco opaco, enervava a cabeça e dilatava os sentidos.

A atmosfera de um baile daquela ordem, no seu apogeu, afeta singularmente a economia animal dos moços. O coração como se derrete ao calor dos galanteios, dos perfumes, das luzes, dos vinhos, dos vapores estimulantes que exalam os corpos cansados das mulheres e derrama-se por todo o corpo como um filtro diabólico e sensual, que percorre e excita os tecidos orgânicos, precipitando as suas competentes funções; o exercício da valsa dá ao coração formas extravagantes e caprichosas - fá-lo pular, estremecer e palpitar; e, conforme as impressões que recebe, informa-se, dilata-se, encolhe e chega a tomar formas.

A gente mais facilmente ama nessas ocasiões porque a atmosfera e o cansaço aceleram os fenômenos vitais. Em tais circunstâncias uma resistência é quase impossível - afinal o corpo descai e languesce - voluptuosamente; percorre todos os membros uma moleza gostosa e doentia; sentimos cócegas nos cantinhos da boca e no interior das ventas; o rosto afogueia-se, desfalece a energia; o hálito queima; os dedos criam uma sensibilidade igual à da língua; o vítreo dos olhos raia-se de sangue e faz-nos ver tudo por um prisma vermelho e fantástico.

O ópio não produz efeitos tão deslumbrantes.

Quanto mais a gente dança, quanto mais se agitam os membros estafados, tanto mais se envenena o ar; as flores terminam a obra roubando o pouco oxigênio que resta na atmosfera. Resulta de tudo isto um ar viciadíssimo e tão gasto e condensado que se pode comer em vez de respirá-lo.

Quanto mais tempo dura o baile e com ele a aglomeração e o exercício, tanto maior e mais veemente é a necessidade de respirar, e então sorve-se com sofreguidão o ar e o pó já muito usados por todos.

Os pulmões aspiram e expelem sempre o mesmo ar e o mesmo pó.

O ar é como um pensamento e o pulmão é como um cérebro, acontece que o mesmo ar penetra, como uma idéia geral, todos os pulmões, e esse ar ou essa idéia única corre toda a sala, entra por todos, domina quem a recebe e acaba por formar, identificando toda a sociedade - um só pulmão e uma só cabeça, isto é, uma só vontade e um só querer.

Eis aí o que era um baile em casa de Maffei. Simplesmente uma reunião de moços de ambos os sexos, metidos numa sala bem fechada, onde dançavam, pulavam, cansavam e apodreciam, como muitas maçãs em um cesto, onde é bastante haver uma podre para contaminar e corromper as outras.

Esse contato infernal era uma lógica conseqüência do ar viciado e da simpatia.

E tanto é assim que em algumas ocasiões não queremos tomar parte num divertimento que nos parece mau, e, uma vez entrados, empenhamo-nos nele tanto como os que lá estavam; veja-se de parte de um baile e este se nos afigurará uma reunião de doidos. Num combate se verifica a mesma coisa - travada a luta são todos bravos; nos cárceres são todos maus; nos hospitais são todos doentes; em um naufrágio são todos religiosos e assim por diante.

O ar sempre transmite a quem o respira o caráter do lugar em que se acha, como no leite a ama transmite à criança, que amamenta, todos os seus males físicos e morais.

Para fazer um homem mau é bastante obrigá-lo a respirar com os maus.

E há quatro anos os pulmões da bela Rosalina enchiam-se com o mesmíssimo ar que uma roda má e corrupta até as pontinhas dos cabelos, sorvia e expelia por todos os poros.