Vida de Antônio Rodrigues Ferreira/III

Vida de Antônio Rodrigues Ferreira por Paulino Nogueira
Seção III


III


Quiz Deos que o primeiro beneficio que tivesse de praticar fosse na pessoa mais intima do seo bom patrão.

A mulher deste, senhora respeitabilissima, adoéce gravemente de um parto arriscado.

O marido extremoso esgota rapidamente e debalde todos os recursos medicos, que então eram escassos.

Quasi diante de um cadaver, a gratidão e a caridade acordam no coração bemfazejo do ex-caixeiro da pharmacia franceza a tão piedosa quanto arrojada resolução de restituir a vida á quem quasi que já não a tinha mais.

E não é para admirar tanto a temeridade quanto a felicidade.

Com pasmo geral a illustre enferma restabelece-se, graças á feliz applicação dos remedios e aos inexcediveis cuidados do improvisado medico!

Por isso um dos maiores medicos da França disse n’um discurso publico que nas molestias ordinarias os enfermeiros sabiam tanto como os medicos, nas extraordinarias os medicos não sabiam mais do que os enfermeiros.[1]

Gouvêa então não só grato a tamanho serviço, como convencido de que seria um beneficio á humanidade aproveitar a aptidão medica do caixeiro, já seo amigo, com empenhos seos e do tenente-coronel Conrado, presidente da Commissão Militar, conseguio do Protomedicato do Recife licença para Ferreira abrir botica nesta capital, e á sua custa mandou vir d’aquella praça os medicamentos necessarios.

Ferreira abrio botica na mesma casa, em que veio a morrer;[2] e desde logo a fortuna começou de sorrir-lhe.

Era em modestas proporções a mesma versão de Desmares, que de simples ajudante do grande oculista Schiel attingio á celebridade depois da importantissima cura que opérou no conde de Syracusa, restituindo-lhe perfeita a vista compromettida.

Assim tambem a fama d’aquelle importante successo andou muito adiante do nome de seo obscuro auctor.

O boticario foi logo convertido em medico, e é verdade universalmente attestada que nenhum outro lhe levava vantagem.

Augmentava-lhe a procura, alem da confiança, a certeza de elle nada levar a ninguem pelos curativos, nem mesmo aos pobres pelos remedios sobretudo em caso de gravidade.

Sua popularidade crescia por actos costantes de beneficencia; e a musa popular, sempre expressiva em seos veridicos conceitos, celebrisou-o em sua gratidão com o caracteristico alcunha de — Ferreira Boticario, com que aliás elle se lisongeava.[3]

Um dos seos mais applaudidos actos foi seo casamento em 1827 com uma cearense mui pobre, como elle mesmo o disse pela imprensa em 1852.[4]

Sua mulher, D. Francisca Aurea de Macedo, tão destituida de bens da fortuna quanto rica de virtudes, era filha legitima do honrado cearense João Carlos da Silva Carneiro, natural de Aracaty, donde havia chegado ha poucos annos acossado pelos rigores da secca, em procura de recursos, e que agora passava a fazer parte, com toda familia, da economia domestica do philantropico e humanitario genro.

Mas Deos abençôou sua reconhecida humildade, que foi parte solida para sua futura grandeza.


  1. Conselheiro Bastos, “Medico do Deserto
  2. Casa terrea, de 3 portas, n. 24 da. actual Praça do Ferreira, antiga Municipal, outr’ora de Pedro II. Pertence hoje ao espolio do finado pharmaceutico capitão Pedro Nogueira Borges da Fonseca.
  3. Alguns espiritos pequeninos, mordidos pela inveja ou raiva, ás vezes usavam desse alcunha por escarneo. Não assim, porem, na Inglaterra, onde ora o nome de baptismo, ora o de familia, é affectuosamente estropiado ou diminuido pelo povo. Foi assim que William Pitt mudou-se em Billy. John Russell em Johonny, Robert Peel em Bebby ou Bob, Palmerston em Pam, Disraéli em Dizzi; e, tornando-se esses alcunhas populares, ficam sendo de uso universal. Vide Sir Robert Peel pelo Conde de Jarnac, “Revue des Deux Mondes.” Nota.
  4. "Vim de minha província, Rio de Janeiro, para aqui com a idade de 25 annos, moço, robusto e solteiro, “aqui me casei com uma cearense mui pobre.” Trecho do seo artigo no Pedro II citado