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Vida e Feitos D' El-Rey Dom João Segundo/CLV

Vida e Feitos D' El-Rey Dom João Segundo por Garcia de Resende
De como se descubrio o reyno de Manicongo, e de como el-rey e a raynha foram feitos christãos


No ãno de mil e quatrocentos e noventa e dous estando el-rey na cidade de Lisboa lhe veyo recado como el-rey de Manicongo muito grande rey e senhor, em Guinee e muyto alem da Mina era feyto christão; e de como se fez, e seu reyno e terra se descubrio foy na maneira seguinte.

No ãno de mil e quatrocentos e oitenta e cinco desejando el-rey o descubrimento da India e Guinee, que o infante Dom Anrrique seu tio primeyro que nenhum principe da christandade começou, mandou no dito anno sua frota aa dita costa armada e provida pera muito tempo como cumpria, e por capitão-moor della mandou Diogo Cão cavaleiro de sua casa, que outra vez ja lá fora por seu descubridor. O qual yndo polla dita costa com assaz perigo e trabalho, foy ter com a dita armada ao Rio de Manicongo que he hum dos grandes que no mundo se sabe d' agoa doce, que he de largo duas legoas, e d' alto em toda a boca e muyto dentro setenta braças, e dizem que entra pollo sertão trezentas legoas, e que traz tanta força que pollo mar faz corrente ao longo da costa cincoenta legoas; o qual rio e terra de Congo he de Portugal mil e setecentas legoas; onde por ser tam longe da outra terra de Guinee ja descuberta, não se poderam entender com a gente da terra, e levando muytas lingoas nenhũa entendia nem sabia aquella lingoajem. O qual capitam por assegurar a gente da terra e lhe terem boa vontade, determinou de mandar ao rey da terra que estava longe pollo sertam hum presente; o qual lhe logo mandou per certos christãos de muitas cousas desvairadas hũas das outras, e lhe mandou dizer como a dita armada era d' el-rey de Portugal que com todo o mundo tinha paz e amizade. E por lhe dizerem camanho rey elle era desejando de a ter com elle e muyta prestança e trato o mandava buscar, dizendo-lhe logo o proveito e honrra que aos seus e sua terra dahi lhe poderiam vir.

Os quaes christãos com o presente chegaram ao rey e foram delle recebidos com muita honrra, muito prazer, e alegria, e espanto, e muito bem agasalhados, e folgou tanto de os ver e perguntar-lhe por as cousas de cá que hos nam podia despedir de si e deixá-los tornar aa frota. E pola muita tardança sua pareceo ao capitam que deviam de ser cativos ou mortos, e vendo que os negros da terra se fiavam delle e entravam ja nos navios, determinou nam esperar os christãos que mandara e partir-se com alguns daquelles negros, e assi o fez; porque os que primeyro delle se fiaram e vieram aa frota acolheo-os dentro e nam os deyxou mais sair a terra e se veo com eles pera Portugal, nam nos trazendo como cativos, mas com fundamento que depois de aprenderem a lingoa e costumes nossos e a tençam d' el-rey, tornariam a Manicongo e per elles se poderia bem saber tudo o que comprisse de hũa parte e da outra, porque lhe pareceo que doutra maneira nam podia ser. E ante que o dito capitão do porto partisse o certeficou assi às gentes da terra, e prometeo que antes de passarem tantas luas que he o modo em que elles contam os tempos com ajuda de Deos tornara aquelles que levava ali donde os tomara, vivos e sãos com muita honrra e riqueza; e com isto segurou todo aquele tempo as vidas dos christãos que tinham mandado ao rey. O qual tomou por isso sentimento, avendo tudo por mentira e determinando que passado o tempo se os seus nam viessem mandar matar os christãos que lá ficaram. E com quanto dantes folgava muito com elles depois nam nos quis mais ver.

E os negros vindo a estes reynos com quanto foram trazidos sem ordenança d' el-rey ele folgou muito com elles, principalmente porque antre elles acertaram de vir homens fidalgos e principaes da casa do rey e de muito bom saber. Os quaes mandou logo vistir de finos panos e sedas e tratá-los muito bem, honrrá-los e favorecê-los, e mandou a todos que assi o fizessem, e elles sempre no mar foram do capitão honrradamente tratados. E depois de serem muy bem enformados da vertuosa tençam e vontade d' el-rey que era serem christãos, e assi depois de terem vistas muitas cousas principaes destes reynos e maneyra de nossa fee, el-rey ouve por bem que os tornassem a sua terra. E mandou logo armar sua frota pera o dito descobrimento, e nela mandou os ditos negros despedidos com muita honrra e grandes merces das cousas destes reinos que lhe a elles milhor parecia, e assi enviou per elles ao dito rey de Congo sua embayxada com hum presente rico de muitas e boas cousas; e lhe mandou oferecer sua amizade e descobrir sua vontade, que era desejar sua salvaçam convidando-o com rezões e amoestações pera a fe de Jesu Christo Noso Senhor, encomendando-lhe que deixase os ydollos e feitiçarias que tinha e adoravam em seu reino, dando-lhe pera isso muitas e boas rezões que elle podesse entender, e dito de maneira que elle se nam escandalizasse pola erronia e ydolatria em que vivia que nisso teve el-rey muito resguardo e temperança pera com brandura o provocar.