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Vida e Feitos D' El-Rey Dom João Segundo/CLXIII

Vida e Feitos D' El-Rey Dom João Segundo por Garcia de Resende
Da entrada dos judeus de Castela em Portugal


Neste anno el-rey Dom Fernando e a raynha Dona Isabel de Castella como catolicos principes lançaram de todos seus reynos fora todolos judeus, pera que so pena de morte em certo termo assinado se sayssem fora delles, dando-lhe licença que em mercadorias tirassem suas fazendas nam sendo em ouro nem em prata; e isto fizeram por o muito dano que faziam em nossa fee como pola Enquisiçam que fezeram se veo. Os quaes judeus desacorridos e porém com sua dureza nam se querendo tornar christãos, se socorreram a el-rey e lhe mandaram pedir por merce que os recolhesse por entam em seus reynos, e nelles lhe desse nos seus portos do mar enbarcaçam e passagem pera em certo tempo se hirem a outras partes, e que por ysto lhe farião serviço de muita soma de dinheiro. E el-rey porque seus desejos foram sempre passar em Africa o que muyto desejava e não no podia fazer por estar sem dinheiro polos muytos e grandes gastos que nas festas do casamento do principe seu filho fezera, assi em outras cousas que socederam, e por lhe parecer que com o dinheiro que dos ditos judeus ouvesse, poderia ordenar sua passagem em Africa e fazer a Deos muito serviço, consentio nisso e lhe deu a dita licença com tençam de passar com o dito dinheyro como dito he sem dar apressam a seus povos a que elle muito queria e elles a elle, e isto com tal decraraçam que todolos judeus que viessem, entrassem por certos portos dos lugares do estremo logo assinados, e que pagassem tanto por cabeça, de que tiraram certidões e recadações dos oficios d' el-rey pera isso ordenados de como tinham pago o que eram obrigados. E que os que entrassem sem pagar e sem as tays recadações e fossem achados se perdessem e ficassem cativos pera el-rey; e que desta maneira poderiam entrar e estar nestes reynos oyto meses, nos quais lhe daria embarcações por seus dinheiros em certos portos de mar que lhe logo pera ysso mandou nomear.

E os judeus das ditas condições foram contentes e entraram nestes reynos, e dentro no termo lhe deu el-rey a todos embarcações e se foram fora de seus reynos. E el-rey ouve hũa grande soma de dinheyro, do qual nunca despendeo hũa soo peça porque o tinha pera a dita passagem que com sua doença não pôde fazer, e por sua morte se achou todo o dinheiro junto assi como o ouve sem falecer nada. E destes mal aventurados judeus foram muitos mortos em Portugal de peste que consigo traziam, e mortos com muito desemparo, por caminhos e terras despovoadas. E os que passaram em Fez foy nelles hũa grande perseguição, que foram dos mouros roubados, deshonrrados e per força lhe dormiam com as molheres e com as filhas e filhos, e a muitos matavam, cousa piadosa; e nunca tanta perseguiçam em lembrança d' omens foy vista em nenhũa gente como nestes tristes judeus que de Castella sairam se vio. E alguns depois destroydos, deshonrrados, e perdidos se tornavam a Castella a fazer christãos, e tambem outros se fizeram em Portugal e ficaram no reyno.