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Vida e Feitos D' El-Rey Dom João Segundo/LIX

Vida e Feitos D' El-Rey Dom João Segundo por Garcia de Resende
Das galees de Veneza que tomaram os franceses, e do que el-rey fez aos venezeanos


E neste ãno foram ao Cabo de Sam Vicente tomadas e roubadas de franceses quatro galees de Veneza que hiam muito ricas pera Frandes. E o capitam-mor e capitães delas muito feridos, roubados, e maltratados, foram lançados em Cascaes, onde entam estava Dona Maria de Meneses condessa de Monsancto, e el-rey era em Alcobaça, e a raynha em Sintra; aos quaes capitães a condessa fez muyta honra e mandou muyto bem agasalhar e os proveo de bestas e dinheyro como muy vertuosa e nobre pessoa, e por saber que el-rey o avia assi d' aver por bem; os quaes se foram esperar el-rey a Sintra onde a rainha os mandou agasalhar e prover com grande honrra e muita abastança como a sua grandeza convinha. E como el-rey chegou e soube como o dito capitão-mor e capitães vinham de todo desbaratados nam nos quis ver nem ouvir, atee primeyro lhe mandar aas pousadas vestidos inteyros, e dobrados de sedas, e ricos panos, com todallas outras cousas que pera elles e pera os seus eram necessarias, e assi cavallos e mullas em que andassem. E lhe mandou dizer que pera homens tam honrrados e tanto seus amigos falarem a tal rey, nam era rezam que ante elle viessem com menos atavios, porque sendo doutra maneira pareceria que seus reynos lhe eram estranhos, o que muyto senteria. Porque pola antiguoa amizade que elle e os reys seus antecessores tinham com Veneza, todos os de sua naçam deviam d' aver e estimar seus reynos e senhorios por propia sua terra. E assi foram ante el-rey que com muyta honrra os recebeo e elles em suas palavras e obras mostraram bem serem em tudo gente nobre e bem agradecida; e com palavras d' omens prudentes deram conta a el-rey de sua perda e estrema necessidade. E el-rey se lhe ofereceo a todo o que fosse rezão; e porque os franceses tinham aynda em Cascaes as ditas galees lhe disse que se as quisessem comprar e resgatar que lhe emprestaria pera isso quarenta mil cruzados em ouro, e mais se mais quisessem. E porque os franceses com hos venezeanos se nam concertaram, os franceses recolherão as mercadarias a seus navios, e venderam as galees que el-rey comprou, e mandou levar a Ribatejo até ver o que a senhoria de Veneza ordenava dellas. E assi defendeo que nenhũas cousas que das ditas galees foram tomadas em seus reynos nam fossem compradas o que assi se comprio. E ao despedir do dito capitão e capitães, el-rey lhe fez a todos pera ajuda do caminho merce em muita abastança.

E neste tempo era vindo de Roma o mordomo-mor de dar a obediencia como atraz se disse, e veo por Veneza pola ver. E a senhoria sabendo que era embayxador d' el-rey lhe fez muy honrrado recebimento e muytas festas, e mandou a todos muy largamente apousentar; e lhe mandou ricas dadivas tudo muy perfeytamente e com muitas palavras de grande amor e muito conhecimento das grandes merces que os seus capitaẽs em Portugal receberam d' el-rey dizendo o duque e todos os regedores que o estimavam tanto que nunca em suas vontades o acabariam de servir. E logo sobre ysso mandaram a el-rey por terra hũa muy honrrada embayxada com muito ricos presentes e serviços, a reconhecer e ter em merce as muitas honrras e merces que a seus capitães fez, em que veo por embayxador hum Jeronimo Donato grande leterado e singular orador. Que foy muito honrradamente recebido, e el-rey lhe fez muyta honrra, e ao despedir muita merce de muita e muyto rica prata lavrada de bastiaẽs, e ginetes e mullas com ricos jaezes e guarniçoẽs, muitos negros muito bem despostos e bem vestidos, e assi outras cousas que em Veneza nam avia. E o embaixador se partio elle e todos os seus com grande contentamento d' el-rey e assi de toda sua corte.

E neste ãno de oitenta e cinco pollos muytos serviços e merescimentos de Gonçalo Vaz de Castelbranco veador da Fazenda, e el-rey polo acrecentar fez a elle e a seus filhos e aos que delle decendessem de dom; e dahi em diante se chamou Dom Gonçalo, e mais lhe deu assentamento de conde e bandeira quadrada. E por a confiança que tinha de sua bondade e bom saber lhe deu a governança da Casa do Civel de Lisboa, e elle foy o primeyro que teve titulo de governador; e ho officio de veador da Fazenda deu a seu filho Dom Martinho de Castelbranco, que depoys foy conde de Villa Nova. E por falecimento do dito Dom Gonçallo seu pay, lhe fez el-rey merce da governança de Lisboa, e ho officio de veador da Fazenda deu a Dom Alvoro de Crasto. E por fallecimento d' el-rey, el-rey Dom Manoel que sancta gloria aja fez com Dom Martinho que deyxasse a governança de Lisboa a Dom Alvoro e tornasse a ser veador da Fazenda, ysto com grandes promessas, e Dom Martinho ho fez assi, e teve com el-rey muyto grande credito e authoridade, e confiou muyto delle e ho fez conde de Villa Nova, e ho mandou com ha infanta sua filha a Saboya por capitam-mor e governador de toda a frota e ha infanta entregue a elle, e elle a entregou ao duque, e lhe fez deixar ho officio de veador da Fazenda, e ho fez camareyro-moor do principe seu filho el-rey Dom Joam o terceyro nosso senhor; e ho oficio de veador da Fazenda deu ao conde do Vimioso e emfim deyxou el-rey por seu testamenteyro ho dito conde de Villa Nova pollo amor que lhe tinha e ho que delle conhecia.