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Vida e Feitos D' El-Rey Dom João Segundo/LXXXII

Vida e Feitos D' El-Rey Dom João Segundo por Garcia de Resende
De como el-rey determinou d' hir em pessoa e do que disse a Dom Joam d' Abranches


E tanto que os navios de socorro partiram, teve el-rey conselho geeral com todos os que presentes eram da maneira que socorreria aos cercados, porque com todo seu poder determinava os livrar. E todos quantos eram sem ficar algum lhe aconselharam que em nenhũa maneira passasse em pessoa por ser ja na entrada do Inverno e a costa ser muy brava e perigosa e muyto maa desembarcaçam e outros muytos perigos, do que el-rey ficou triste, e sem dar reposta algũa do que queria fazer.

E em se levantando do conselho lhe disserão que aa porta estava Dom Joam d' Abranches, que entam chegava de Lixboa pera o servir no dito socorro. E porque era muyto valente cavaleyro e sabia muito na guerra ho mandou logo entrar e fez tornar assentar todos e pôs Dom Joam junto de si. E deu-lhe conta da nova que lhe viera, e como tinha determinado de com todo seu poder socorrer aos cercados, e como todos os que presentes estavam por muitas rezões lhe aconselhavão que em nenhũa maneira passasse em pessoa; e que primeiro que a isso desse sua reposta, queria tomar seu parecer como d' omem que tam bem sabia a guerra e era muyto bom cavaleyro; e Dom Joam lhe respondeo: "Senhor, beijo as mãos a vossa alteza por esta honrra que me faz e as palavras que me diz; e eu, senhor, sam em contrayro do que a todos parece; e meu parecer he, que tanta e tam nobre gente como vossa alteza quer mandar, nam fieis, senhor, de ninguem senam de vossa pessoa, porque soo com vos verem todos morreram diante vós, e sem vossa vista nam sey o que cada hum fara, e mais a tamanha necessidade de tanta e tam nobre fidalguia, he rezam que vossa alteza por seu singular esforço e grandissimas vertudes lhe socorraes como de tal rey se espera"; e el-rey folgou muito de o ouvir e muito ledo lhe disse: "Dom Joam, eu tinha ja ysso determinado e porque todos eram contra mim nam tinha dado minha reposta; e agora que vos tenho por minha parte digo que em toda maneyra ey-de passar em pessoa. E todos me perdoay por nam tomar vossos pareceres, que antes que Dom Joam viesse o tinha assi asentado; e se perigos passar em muito mayor perigo estam muitos fidalgos e cavaleyros por me servirem, os quaes eu muito estimo; e tambem Nosso Senhor dara sua ajuda pois que he por seu serviço e contra os ĩmigos de sua sancta fee catolica"; e com ysto se levantou.

E como principe muy esforçado, vertuoso, e piadoso por salvar os seus, determinou logo o mais em breve que podesse lhe socorrer em pessoa. E per dadivas que mandou dar a mouros lhe levaram recado aos cercados como elle hia logo em pessoa socorrê-los, os quaes na soo confiança de sua palavra que aviam ja por obra muy verdadeira cobraram hum novo esforço e muita esperança de cedo serem remedeados. El-rey mandou logo com muita trigança fazer per todo o reyno apercebimentos jeraes, e pera tempo muito breve e com palavras de muita obrigaçam em especial, afirmando que hia em pessoa que nam foy necessario fazerem-se costrangidas apuraçoeẽs, porque os muy velhos e os muito moços que por suas ydades eram disso escusos, se convidavão e esquecidos de suas forças e fazendas se faziam prestes, pera hyr com elle e nam ficarem em Portugal, todos com muy verdadeira vontade de o servirem até a morte. E desta determinaçam que el-rey tomou de em toda maneyra socorrer em pessoa e descercar seus fidalgos, criados e cavaleyros, foy logo el-rey de Feez avisado. E por lhe jaa começar de fogir a gente de seu arrayal escarmentados muytas vezes de cruas mortes e feridas, e principalmente temendo muito a passagem d' el-rey, parecendo-lhe que vendo-se com elle em batalha seria destruydo, em vez de fazer guerra cometeo paz ao capitão-mor da frota Ayres da Silva que em nome d' el-rey estava, de que lhe enviou hum assento, per que lhe prazia dar lugar aos christãos cercados na Graciosa a leixassem, e que com todallas armas, artelharias, cavallos, e tudo quanto tevessem sayssem e se fossem livres e seguros, e que el-rey de Portugal lhe confirmasse a paz que el-rey Dom Afonso ao tempo da tomada d' Arzila com elle firmara.

O qual assento Ayres da Silva logo aceitou, e sobre elle manteve aos mouros tregoas atee o noteficar a el-rey, que logo com muita brevidade lho fez saber, e foy delle muy allegre e contente, porque pollo dito assento da paz nam se tolhia poder cercar e tomar quaesquer villas e lugares do dito reyno de Fez que se pera ysso oferecessem; e per elle sem perigos nem outras despesas, cobrava sua gente cercada que sobre tudo desejava. E pera comfirmaçam e aprovar o dito assento, enviou logo Ruy de Sousa e Dom Alonso de Monroy mestre d' Alcantara, e Diogo da Silva de Meneses ayo do duque, que depois foy conde de Portalegre todos do seu conselho e homens de muyta autoridade, muy esforçados, de muito bom saber, e de que muyto confiava. Os quaes com Ayres da Silva juntamente o confirmaram e seguraram per escritura e contrato feyto em Xames, a vinte sete dias d' Agosto do ãno de mil e quatrocentos e oytenta e nove. E dadas de hũa parte e da outra seguras arrefeẽs, os mouros que no dito cerco estavam se partiram, e os christãos cercados se recolheram aa frota com salvamento de suas pessoas e fazendas e artelharias, cavallos, e armas, e quanto na fortaleza tinham; e com toda a frota se vieram a Tavila, onde el-rey e toda sua corte os receberam com muito amor e prazer e muita honrra. E el-rey mandou logo desperceber a gente do reyno, e lhe agradeceo muito sua lealdade e grande brevidade e muito amor e vontade com que se apercebiam pera o servir que certo foy muyto pera estimar.

E de Tavilla foy el-rey com a raynha e o principe e o duque andar pollos lugares do reyno do Algarve provendo, e remedeando algũas cousas que pera bem e assossego daquelle reyno e moradores delle compriam em que muyto aproveitou. E acabado veo-se aa cidade d' Evora, onde entrou a sete dias de Novembro deste ãno de oytenta e nove. E na cidade ouve rebates de peste que el-rey sofreo e remedeou por soster e conservar a saude da cidade em que tinha ordenado ser o recebimento e festas do casamento do principe seu filho.