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Vida e Feitos D' El-Rey Dom João Segundo/XLI

Vida e Feitos D' El-Rey Dom João Segundo por Garcia de Resende
Da embaixada que os reis de Castella mandaram a el-rey sobre o desfazimento das terçarias


Daqui de Santarem na entrada deste ãno de oytenta e tres, foy el-rey ver a infanta Dona Joana sua irmã que estava no Moesteiro de Jesu d' Aveiro, e tornou logo a Santarem a ter a Pascoa com a rainha sua molher; e passada a festa veo recado a el-rey que o prior do Prado confessor dos reys de Castela que depois foy arcebispo de Granada pessoa de muito grande confiança e a elles mui aceita, vinha por embaixador sobre o desfazimento das terçarias e que era ja em Avis; de que el-rey foy muy alegre e com a raynha e toda a corte se partio logo pera a dita villa d' Avis, onde ouvio o dito embaixador. E logo aos quinze dias do mes de Mayo do dito ãno de oitenta e tres, tomou concrusam e assento jurando e afirmando no desfazimento das ditas terçarias per que o principe e a infanta ficaram delas livres, e assi desatados e soltos todos os seguradores e desnaturamentos, e assi todalas obrigações que por eles eram feytas. E o casamento ficou entam concertado de futuro com a infanta Dona Joana filha segunda dos ditos reis com as mesmas condições e obrigações que com a dita infanta Dona Isabel e o principe Dom Afonso era concertado, dando porém mais em dote aa dita infanta Dona Joana dez contos de reaes; e no dito contrato ficou logo decrarado e especeficado hum ponto sustancial sem entam aver esperança de se comprir: o qual era que se ao tempo que o principe comprisse ydade de quatorze annos a dita infanta Dona Isabel estevesse por casar, que neste caso ho casamento se cumprisse antre eles per palavras de presente como primeiro fora concertado.

E pera receberem o principe em Moura e o trazerem a sua corte fez el-rey seus precuradores, Dom Pedro de Noronha seu mordomo-mor e o doutor Joam Teixeyra chanceler-mor, e frey Antonio seu confessor. Os quaes todos e assi o dito prior do Prado embaixador partiram logo caminho de Moura; e el-rey e a raynha se foram logo caminho da cidade d' Evora, pera ahi receberem o principe, e pousaram nas casas do conde de Olivença que sam pegadas com o Moesteiro de Sam Joam, por serem de bons aares pera ho verão que ahi esperavam ter.

E antes d' el-rey partir d' Avis lhe trouxe Pero Jusarte em pessoa escondidamente a estruçam com que fora a Castella como atras se disse, e acerca do caso lhe descubrio muitas particularidades. Pollo qual el-rey logo determinou de prender o duque, e quando o nam podesse prender, de o cercar em qualquer lugar que estivesse. E pera isso ouve logo secretamente muyto dinheiro junto que trazia em sua guarda-roupa; e assi fez loguo has menutas das cartas e provisões que em tal caso avia de mandar pollo reyno, e aas villas e castelos do duque a seus alcaydes-mores, ho que tudo lhe aproveytou na noyte que prendeo o duque como adiante se dira.

Ho duque de Bragança ao tempo que o dito embaixador de Castella entrou em Portugal estava em Villa Viçosa; e porque se disse logo que el-rey pera despacho da embaixada se vinha a Estremoz, que era tam acerca donde elle estava, cre-se por honestidade por escusar sospeitas e outros inconvenientes de sua honra se partio soo pera Portel, onde hos precuradores d' el-rey que hiam a Moura o acharam dia de Penthecoste yndo ja pera Moura, hos quaes por modo de conselho praticou sobre o que acerca da vinda do principe devia de fazer pois vinha por suas terras: porque de hũa parte por obediencia e por sua dinidade, e por outras muytas causas lhe parecia bem yr-se pera ho principe e ho acompanhar e servir atee a corte, e em suas terras lhe fazer aquelle recebimento e serviço que era rezam e elle por ser seu senhor merecia; e da outra receava de o fazer por nam saber quanto el-rey disso seria servido e contente pois lhe nam escrevia. E depois de muitas praticas que sobre este caso passaram, os ditos precuradores saãmente e sem cautella o aconselharam que pera elle soldar quebras e achaques que no povo se dezião aver antre el-rey e ele, e tambem porque assi era rezam elle se devia yr pera ho principe e servi-lo e festejá-lo em suas terras e yr com elle atee a corte; e que na ora que el-rey visse o principe seria tam allegre e contente, que lhe esqueceriam quaesquer sospeitas ou maas vontades que antre elles ouvesse. Do que ho duque mostrou ser satisfeito e muy alegre, e na deligencia que logo pôs pera se aperceber, e no desejo que amostrou pera em tudo servir el-rey e ho principe, mays parecia entam aver nele amor e lealdade que o contrairo. E depois dos procuradores serem do duque despedidos yndo pollo caminho, ouve antre elles duvida se fora bem ou mal conhecendo a condiçam e descriçam d' el-rey aconselharem o duque daquella maneyra. E pera com tempo se atalhar quando el-rey o nam ouvesse por seu serviço, loguo do mesmo caminho lho fizeram saber polas paradas de cavallo que d' Evora a Moura eram postas. E el-rey lhe respondeo logo mostrando que folgava muyto e louvando com doces e fingidas palavras ha determinaçam e conselho do duque, e dando algũas escusas que pareciam honestas, porque pera ysso o nam convidara nem lho escrevera, por ser certificado que o duque ao tal tempo nam estava tam bem desposto de sua saude que ho podesse nisso servir. A qual reposta d' el-rey foy logo mostrada ao duque en Moura onde jaa estava, porque aforrado foy logo noteficar aa infanta Dona Breatiz sua yda com o principe aa corte, que lhe pareceo muy bem, vendo ha carta d' el-rey com tam segura dissimulaçam com que ha infanta e ho duque mostraram ser muy alegres; e do alvoroço e despejo do duque que entam mostrava, parecia aver nelle muyto amor e lealdade pera el-rey. Esta carta que o duque vio, que parecia à boa fee e nam dobrada como vinha ho descarregou e segurou tanto, que nam quis despois crer hos muitos avisos que no caminho lhe foram dados pera que nam entrasse em Evora.