Abrir menu principal

Vida e Feitos D' El-Rey Dom João Segundo/XLIX

Vida e Feitos D' El-Rey Dom João Segundo por Garcia de Resende
Da justiça que em Abrantes el-rey mandou fazer na estatua do marquês de Montemor


Estando el-rey em Abrantes por ser certificado que o marquês de Montemor, estando en Castela nam deyxava de seguir sua maa vontade contra elle, com os do seu conselho e leterados, ordenou e quis em sua ausencia mandar fazer justiça e justiçar sua estatua nesta maneira. Na praça da dita villa se fez hum cadafalso de madeira, grande e alto e todo cuberto de panos de doo, e nelle assentos para corregedores, desembargadores, e juyzes, e ahi em pee meirinhos, alcaydes, e officiaes da Justiça. E pubricamente foy alli trazida hũa estatua do marquês natural como viva que se parecia com ele, e vinha armado de todas armas, e emcima dellas sua cota d' armas, e na mão dereyta hũa espada alta, e na esquerda hũa bandeyra quoadrada de suas armas; e alli pollos juizes lhe foram lidas em alta voz suas culpas, e logo per todolos juizes e desembargadores sentenceado que morresse per justiça morte natural e pubricamente fosse degolado. E acabada de ler a sentença veo hum rey d' armas e em voz alta dizia: “Por quanto vós, condestabre, por vosso tam grande oficio ereis obrigado a ter muyta lealdade a vosso rey, e a servi-lo e ajudar a defender seus reynos, e vós nam no fizestes, antes trabalhastes e precurastes por lhe ofender e lhe fostes desleal, nam mereceis ter tal espada”, e logo lhe foy tirada da mão; e tornou logo a dizer: “Por quanto vós, marquês, por vossa grande dinidade vos foy dada bandeyra quoadrada como a principe, e por esta honrra e dinidade de que recebestes ereis obrigado guardar a honrra e estado d' el-rey vosso senhor, e servi-lo e acatá-lo como a natural e verdadeiro rey e senhor, e vós tudo ysto fizestes ao contrayro, tal bandeira nam deveis ter porque a nam mereceis”, e lha tomaram logo da mão; e pola mesma maneira e cerimonia lhe tirarão a cota d' armas e armadura da cabeça e todas as outras peças das armas, atee ficar desarmado em calças e em gibam. E entam veo hum pregoeyro e hum algoz e com pregam de justiça, em que decrarava suas culpas, lhe cortaram a cabeça de que sayo sangue arteficial que parecia que era d' omem vivo. E acabada esta grande cerimonia de justiça que durou muito, se deceram todos do cadafalso, e logo foy posto fogo nele, e a estatua e o cadafalso todo assi como estava foy queimado, cousa que pareceo espantosa. E o marquês sendo disto sabedor foy muy anojado e triste; e dahi a pouco tempo se finou em Castella onde estava.