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Vida e Feitos D' El-Rey Dom João Segundo/XXVIII

Vida e Feitos D' El-Rey Dom João Segundo por Garcia de Resende
A maneyra em que se as menajens dam


Aos tantos dias de tal mes e tal anno na cidade ou villa tal, nas casas taes onde el-rey nosso senhor pousa, Foam lhe fez preito e menajem pollo castello e fortalleza tal na forma que se segue (as quaes palavras ha-de leer alto o escrivam da poridade ou ho secretario): Muyto alto, muyto excelente e muito poderoso, meu verdadeiro e natural rey e senhor. Eu Foam vos faço preyto e menajem pollo vosso castello e fortaleza tal, de que me ora novamente encarregais e dais carrego; que a tenha e guarde por vós, e vos acolherey no alto e no baixo della, de noite e de dia, a quaesquer horas e tempos que seja, hirado e pagado com poucos e com muitos vindo em vosso livre poder; e delle farey guerra e manterey tregoa e paz segundo me per vós, senhor, for mandado; e ho nam entregarey a algũa pessoa de qualquer estado, grao, dinidade, ou preminencia que seja, senam a vós, meu senhor, ou a vosso certo recado, logo sem delonga, arte, nem cautella, a todo tempo que qualquer pessoa me der vossa carta assinada por vós, e asselada com vosso sello, ou sinete de vossas armas, por que me tiraes este dito preyto e menajem. E se acontecer que eu no castello aja de deyxar algũa pessoa por alcayde e guarda delle, eu lhe tomarey este dito preito e menajem na dita forma e maneyra e com has crausulas e condições e obrigações nelle conteudas. E eu por ysso nam ficarey desobrigado deste dito preito e menajem, e das obrigações e cousas que se nelle contem, mas antes me obrigo que o dito alcaide ou pessoa que assi leixar, tenha, e mantenha, cumpra, e guarde todas estas cousas e cada hũa delas inteiramente. E eu sobredito Foam faço preito e menajem em as mãos de vossa alteza que de mi ha recebe hũa, duas e tres vezes segundo vosso custume destes vossos reynos. E vos prometo e me obrigo que tenha, e mantenha, guarde e cumpra inteiramente este dito preyto e menajem e todalas crausulas, condições, e obrigações, e todas as cousas e cada hũa dellas em ella conteudas, sem arte, cautella, fraude, engano, nem mingoamento; e por firmeza delo assiney aqui. Testemunhas: Foão, e Foão. E eu Foão escrivam da poridade que esta menajem por mandado do dito senhor fez escrever, e estive ao tomar della e tambem assiney.

Ho duque e seus yrmãos e assi outros senhores ouveram então ha forma desta menajem por aspera e perjudicial a suas honrras. E ho duque fez logo per os requerimentos e protesto e pedio disso estormentos, que em caso que entam assi ha fizesse era quasi forçado, mas que protestava depoys de buscar has suas doações, escripturas, e previlegios, e el-rey o ouvir sobre ysso com sua justiça e lha guardar, e o nam obrigar a mais do que os reis passados seus antecessores obrigaram a elle e a seu pay e avoos.

E ho duque por ver se poderia remediar ysto que muito sentia, mandou logo o bacharel Joam Afonso veador de sua Fazenda a Villa Viçosa e deu-lhe a chave de hum cofre em que tinha suas doações e escripturas e todos os papees de seu segredo, e mandou-lhe que ho abrisse e antre todos buscasse todas as que lhe parecesem que pera este caso lhe compriam. E ho bacharel por descuido ou negligencia ou outras ocupações, ou por misterio de Deos, mandou buscar os ditos papeis por hum seu filho moço de que elle muito fiava. O qual filho buscando o dito cofre, chegou por acerto a elle Lopo de Figueredo escrivam da Fazenda do duque, homem de muita confiança; ho qual a requerimento do moço o ajudou a buscar todas as escripturas e papees que no cofre estavam, mais com tençam do serviço do duque que do que ao diante se seguio. E andando assi em busca dos ditos papees, topou com algũas cartas e estruções de Castella e pera os reis de Castella, dellas proprias e outras ementas corregidas e enmendadas da letra do mesmo duque. E como as assi vio escondidamente do moço has tomou todas e meteo na manga, e se foy a casa e secretamente vio todas. E vendo que eram contra ho estado, honrra e serviço d' el-rey, determinou de logo lhe yr tudo mostrar; e sem detença algũa partio de Villa Viçosa escondidamente e veo a Evora, e secretamente falou com el-rey com muito resguardo e com palavras de muito bom homem e leal vassallo mostrou tudo a el-rey, affirmando-Ihe e jurando que ho nam fazia por odio do duque, porque tinha rezam de o amar e servir, nem menos por esperar de sua alteza por iso merces, mas que era seu vassalo e temia a Deos e receava ho que dalli se podia seguir, e ha conta que a Deos daria podendo atalhar a tanto mal e nam no fazer.

El-rey depois de tudo muyto bem ver e lhe dar disso hos agradecimentos que devia, ficou triste e muy cuidoso. E mandou logo a Antam de Faria seu camareyro de que muito confiava e a quem descubria seus segredos, que com a mayor pressa que podesse treladasse todos aquelles papees ho que logo fez. E el-rey tornou os propios ao dito Lopo de Figueredo, pera os tornar ao cofre donde os tirara, porque ainda o moço tinha muyto que buscar; e se per ventura mays achasse que o traria a sua alteza, e nam mingoando nem se achando cousa menos no cofre nam averia que sospeytar. As quaes cousas dando a el-rey muyto cuydado e payxam as dissimulou de maneira, que nunca pessoa algũa entendeo nada nelle e tudo guardou em si. E porém dalli por diante como prudente começou a entender e olhar por muytas cousas, e andar sobre aviso do duque e ter dele muitas sospeytas e má vontade sem lha nunca dar a entender.