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Vinte e cinco de março/Memoração

Vinte e cinco de março por Manuel de Oliveira Paiva
Memoração


Foi no recinto antigo, nobre e vitalício,
Que eu vi se reunir o infernal comício.
O campo de Sant'Anna, a sós, despovoado,
Via o entrar das almas no velho senado.
Lá estava presidindo o grande Dom Mefisto
E era secretário o frade Dom Tartufo,
Que tem lábios de mel e tem boca de quisto.
Em vez de campainha se batia um rufo.
A sala foi se enchendo. E as pálidas paredes
Fugiam pouco a pouco e a sala foi crescendo.
As táboas do soalho, assim como umas redes,
Balançavam, cresciam, com ruído horrendo.
Uns diabos que haviam chegado da rua
Traziam cada qual um pedaço de lua
Espetado na ponta de esquálido bambu,
E essa era a luz. Estava tudo nu.
O Sr. secretário preparava a ata,
Com toda a precaução, de uma sessão transata
O papel eram peles frescas arrancadas
Do lombo escravo e bem curtidas e pautadas;
Servia de tinteiro o crânio de Guiteau;
A pena era a tal com que o Czar assinou
A sentença de morte aos bravos regicidas;
A tinta, santo Deus, saíra das feridas
Quentes ainda até dos escravos no tronco...
Ouviu-se pelo chão o perpassar de um ronco.
Era Satã que vinha em traje de doutor.
Tomou assento. E houve um palmejar de horror...

Desenrolando um maço de papéis imundos
Fitou na imensidão os olhos negrebundos.
Começou a girar a casa da assembléia.
— Fui eu mesmo em pessoa fazer inspeção:
Estou pronto a jurar que nem sequer diarréia
Causou o Ceará em dame Escravidão...
— Enganas-te, Satã. Tu és um animal.
Nada viste ferido, nada fraturado,
E ela tem por dentro um saco aneurismal!
A princesa, coitada, a luz do teu reinado,
Sua Alteza a Senhora Escravidão Brasilea,
Já não há de querer que o meu saber quisile-a.
Mas foi ela composta de Escravidõezinhas:
Acontece que o morto Escravidão Cearense
No todo imperial era uma cavazinha
Que os médicos a quem o teu saber não vence
Damos o nome simples, natural, de artéria.
É fácil de quebrar. Quebrando-se, adeusinho!...
Não te lembras daquela sepulcral miséria?
Pois era o Ceará no clirvsol, no cadinho.
"Blasfêmia! Excomungado! Seja pronto expulso!"
Seguiu-se no recinto um barulhar convulso:
Agarraram no pobre, franco Triboulet
E o lançaram de um soco no mar de Guiné.

Entrou-se a discutir como devia ser
O monumento que eles deviam de erguer
Para rememorar o nome do finado.
Então foi que houve pau nos bancos do senado.
Já a casa corria as vastidões do ar
Roncando como um touro ou como um forte mar.
Nada puderam pôr, naturalmente, a votos.
Pois as almas dos vivos formaram partido
Contrário ao dos defuntos, velhos, ignotos.
Era uma ruim mulher ao pé de um ruim marido.
Judas, que sempre foi excelente político,
Faz este requerimento exótico, mefítico:
"Duas opiniões se ouça mais diversas
(Time is money. Dinheiro. Tempo. E não conversas):
A do bom monarquista e mau republicano
Que já não quer o rei que é para ter escravos
E a daqueles, senhores, moços muito bravos
Que assinaram febris, heróis a todo o pano,
A grande panacéia — o podre Manifesto,
Que serviu de toalha e hoje é lava-pratos...
Que almas do lado oposto vão dizendo o resto,
Que eu não falo por mim — eu falo por boatos.

Havia pelo ar um cheiro tão imundo
Como se uma latrina ali quebrasse o fundo.
Era cada vez mais espatifada a ordem.
Uns já trocam bofetes, outros já se mordem.
Giram em turbilhão pelo crivo das serras.
Já pelo alto mar, já pelas altas terras.

E eu, desamparado pelo amigo Judas
E me achando a lutar aos beijos com a morte.
Enxerguei no horizonte umas luzes agudas
Que iam para o Sul, que vinham lá do Norte.
E seguiu-se o clangor de milhões de clarins
Tangidos por soldados da cor de alfenins.
Pelo alto dos céus vinha o cortejo imenso.
Soldados a cavalo em pássaros alvíssimos
E nuvens exalando ao ar sublime incenso.
A luz tinha um vislumbre, uns raios ferocíssimos.
Um bando de crianças derramando flores
E um coro de virgens decantando amores.
O ar que arrodeava-os era cor de rosa.
Cabelos de negror. Pele a mais cetinosa.
Calçavam de rubi, trajavam de diamantes.
Treluziam na luz armas coruscantes
Do esplendoroso, etéreo, enorme batalhão,
Um cavaleiro idoso, barbas a Moisés,
Olhos de seta audaz e músculos de leão
Tinha nos pés e mãos a marca das galés
E tinha no pescoço a marca de uma corda.
E no corpo infinitos rastros cor do sol.
Como que de seu todo o ânimo transborda,

Deixa depois de si como que um arrebol,
Tem a severidade justa de Licurgo,
Tem a bravura bela dos sublimes Gracos,
O misterioso olhar de um grande taumaturgo
E é capaz de partir um trono quatro nacos.

Diante dele foge a reunião negreira.
Os diabos se despenham, zunem na carreira.
Vão de pernas pra o ar, vão dando cambalhotas,
Um perdeu a barriga e outro perde as botas...
Ouve-se um trovejar e um ranger de dentes...

O Corcovado inquire às luzes—Quem vem lá?
— Senhor, é o sempre heróico mártir Tiradentes.
Vem do Norte do império, vem do Ceará,
Onde foi, informado por Pedro Pereira,
Ver a primeira pátria livre brasileira.