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Vinte e cinco de março por Manuel de Oliveira Paiva
A Ilha da Quimera


É quase inacessível. Dorme num penhasco.
O mar em derredor é negro. O ar, sombrio,
É para os habitantes horrido carrasco.
O ceu é achatado. O arvoredo esguio.
A vista em vão perfura o seio dos abismos:
Céu e mar, céu e mar... nada mais, nada mais.
A onda está constantemente em paroxismos.
Nem nuvem, nem navio ali passou jamais.
Não há peixe no mar, nem ave no ambiente.
Tem risos de chacal ao ver o sol ardente
E mostra a ossada suja, descarnada, nua,
Escancara-se até, imoralmente, a lua.
Todos que lá têm ido, poucos, muito poucos,
Só viram lá por dentro escuridão espessa.
Tiveram de sofrer o título de loucos.
Quase que não é ilha — quase que é uma eça.

Pois é naquela rocha tétrica e tão feia
Que está preso o futuro e que está presa a idéia.
As leis da matemática, observações da física,
A experiência química, a bela astronomia,
Quer as divagações da velha metafísica,
Quer as afirmações de dame teologia,
Ou seja a biologia — filha do transformismo,
Ou a sociologia, ou o parlamentarismo,
Venha a lei de Moisés, venha a lei indiânica,
Ou venha a escola clássica, ou siga-se a germânica,
Venha monsieur Hugo, venha monsieur Zola,
Que a vida passe além, ou que fique por cá...
Todas as grandes molas o ideal do homem,
Que os tempos fazem vir e que os tempos consomem,
Antes de vir ao mundo, numa certa era,
Estavam prisioneiras. Foram conquistadas
Pelo Gênio feliz à ilha da Quimera:
Foi bala o pensamento e lanças e espadas.

Corria na amplidão um vento desbragado,
Rijo como Catão, cruel como um soldado:
Vinha enrolando a nuvem, distendendo a vaga,
Cantando uma canção, uns versos de Gonzaga,
O relâmpago fere a escuridão terrível
E rompe a trovoada em coro irresistível.
Cai uma chuva estranha, bela, misteriosa,
Feita de pingos de ouro e muito luminosa,
A ponto de inundar de luz a atmosfera.
Via-se então o mar bramir como uma fera.
Ouviu-se pelo ar uns sons muito esquisitos,
Divinos, imortais, mesmo muito bonitos.
E lá por cima, um pouco abaixo das estrelas,
Via-se coisas lindas, via-se coisas belas.
Tiradentes voltava com muito maiores
E muito mais luzidos, fortes batalhões:
Bravos do Paraguai — monstros como condores
E os grandes heróis de nossas revoluções,
Mais digno cada qual da pena de Esquiros.
Era uma passeata celeste a flambeaux.
Washington, Bolívar e Lincoln e Juarez
Vinham cantando um hino um pouco marselhês
Vinha o Pedro Pereira e vinha o Rio Branco,
Montando cada qual o seu pássaro branco.
Ferreira de Menezes, o pardo Luiz Gama,
Um no dorso do vento, um nas asas da fama.
E vinha imensidão de virgens formosíssimas
Que cantavam nas harpas canções celestiais.
No ambiente havia ondulações dulcíssimas,
Amenas como um beijo, moles, sensuais.
Como que aquela enorme imensidão de gente
Vivia de harmonias, respirava hinos.
Corria em derredor um cheiro enlanguescente...
Ferozes como leões, mansos como meninos,
Em todos pervagava um riso genial.
Tinham as expressões perfeitas do ideal.
E como as mutações de cena teatrais
A ilha se mudou. Vastas arcadarias,
Como costumam ter as grandes catedrais,
Iam perder-se além na curva do oceano.
E salas e divãs e mesas e iguarias
Tudo com luxo além do pensamento humano.
Torres com seus faróis, jardins com suas flores,
Homens com seu poder, mulher com seus amores.
As roupas insulares eram ricamente
Feitas do que há macio, belo, reluzente,
No centro havia um vasto e lúgubre salão.
Foi lá que houve discurso e houve recepção.
Falou primeiro em prosa o moço Rocha Lima,
Depois recitou versos o Joaquim de Souza.
Que doce que era o metro e que florida a rima!
Um quadro que arrebata, um quadro que endeusa!...
Belíssimas mulheres vimos ante nós,
Que angélicos olhares, que divina a voz!

Estavam quase todas presas, algemadas!...
Se via as carnes finas meio arroxeadas.
Algumas conheci: A Paz e a Verdade,
Navegação Aérea, Porto do Ceará,
Casamento Civil, a Lei, a Igualdade,
E outras muitas mais, que todas estão lá.
Então o Rio Branco disse a uma delas
Umas palavras santas, ricas e singelas.
Disse que vinham dar um parabéns fecundo
A ela, a mais bonita, a ela — a Liberdade,
Porque no Ceará matou-se o bicho imundo
Causa primordial de sua infelicidade.
A carcereira veio cuidadosa então
E quebrou-lhe os grilhões do lindo pé direito.
Chama-se a carcereira dama Evolução.
Veio depois um velho, operário, bem feito,
Sob o pó do trabalho e respondeu assim:
"Obrigado, senhores. Despende de mim.
Minha filha vivia livre na floresta.
Mas chegou no Brasil o tal Escravagismo
Convencera ao rei (que é sempre muito besta)
Que a devia exilar aqui para este abismo.
Para que ela volte um dia a sua pátria amada
Talvez seja preciso o golpe de uma espada.
Começais a matar o pior inimigo,
Mas depois inda há outro. O tempo chegará.
Façamos a saúde: Eia! Todos comigo!
Bebamos a saúde do heróico Ceará!
Há de vir, há de vir no futuro uma era
Em que não morarei na ilha da Quimera.
Tende-me sempre a mim dentro do coração:
O pai da Liberdade, o velho Revolução."