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Vinte e cinco de março/Pátria

Vinte e cinco de março por Manuel de Oliveira Paiva
Pátria


Eis-me aqui de calção e jaqueta de cor
E tudo o que é preciso ao traje de um criado.
Oh! Muito pode a idéia, muito pode o Amor!
Que havia de fazer? Fiquei apaixonado...
Enquanto os oradores faziam discursos
Eu num canto arredado inventava uns recursos
Para ficar na ilha. Ao menos eu veria...
Assim adormeci. E quando eu despertei
Vi ao redor de mim a noite horrenda e fria.
Confesso, tive horror e sem querer gritei.
Deixaram-me ficar. Mas com a condição
De servir de criado às virgens da prisão...
Mas aquele rochedo era tão singular
Que a gente era a dormir... era logo sonhar
Cousas extravagantes, lindas, engenhosas!
Eu travava, sonhei, discussões calorosas
Com a amável senhora dona carcereira.
Assunto principal — a pátria brasileira.
Pátria, querida pátria! Eu vejo-te de longe
A divagar nas praças ocas do porvir.
Pensas como Platão, meditas como um monge.
Vejo-te soluçar, vejo-te sucumbir.
Se a minha doce Ela, a virgem Liberdade
Te pudesse abraçar em plena liberdade...
Mas tudo é sem caráter, gélido, sem cor.
Há duas prostitutas corrompendo o Ódio,
Há duas prostitutas corrompendo o Amor.
Uma é o cativeiro, híbrido, serôdio;
A outra é a coroa, inútil, corruptora,
Ela afoga o civismo, ela torce o talento,
Mente como um ladrão, engana, ilude, gora.
Com estas duas bestas haverá jumento
Que faça vir ao mundo um asno assaz possante
Capaz de carregar o peso de um gigante?...
Há gêneros nacionais, boas mercadorias,
E basta de importar da Europa as dinastias.

Pátria, querida pátria! Faça-se a política.
Mas não esta que existe, amarela, sem crítica,
Que cifra-se em berrar no exílio a oposição
Enquanto a outra lambe os cobres da nação.

E não se há de mudar? Querem viver assim?
Quem é filho de Adão só pode ser Caim?
Não teremos história e nem literatura
Enquanto houver o rei e houver escravatura:
A imprensa há de ser sempre flácida e inútil,
A Representação engodo triste e fútil,
E o povo sempre besta, pobre basbacão,
Porque não há partido sem a opinião.
Não vistes inda há pouco o coroado chefe,
Incapaz de afrontar o áureo magarefe,
Adocicar tão bem os lábios dos jornais
Mostrando uns pretextinhos, fúteis... imperiais,
Negando-se assistir a festa do Ceará?...
Se há Luiz XVI há de haver um Marat.
Pátria, querida pátria! Vê que tu não podes
Amar a um rei Pilatos. Ele como Herodes
Pode fazer de ti um mártir João Batista...
Pátria, querida pátria! Pois não vês a lista
Hedionda, repugnante, das traições havidas
Dos que, pelo egoísmo, deram suas vidas?...
Amo o azul dos céus e o rubor da pitanga
Irisados no albor da casta madrugada.
Antipatizo as duas cores do Ipiranga
Que têm assim uns tons de moeda azinhavrada.
Pátria, querida pátria! Hás de querer, tu,
Que após o patriotismo e sacrifícios feitos,
Nós fiquemos fossando, estúpido tatu,
Nos restos fedorentos, pútridos, desfeitos,
Das velhas monarquias, frígidas, malucas?
Não é assim que pensas, nem assim que educas.





Ouvi por trás de mim uma voz de cristal.
Vi. Era a Liberdade sorrindo, sensual.
Eu vim com Ela até o frio pedregulho
Onde espirava o mar com um surdo barulho.
Como estava bonita a minha doce ama!
Recosta-se ao meu ombro em languido cismar,
Recuo com respeito, fujo, ela me chama,
Senta-me ao pé de si. Torna-se a recostar.
— Senhora, desculpai; mas sou simples criado...
Temo por vós, senhora, e serei dispensado...
— Oh! tu não sairás! Meu pai gosta de ti.
Tu prometes ficar? tu prometes? devera?
— Enquanto estiverdes prisioneira aqui,
Senhora, eu ficarei na ilha da Quimera.
Eu vos amo, senhora! E saberei morrer
Por vosso amor, donzela. Que estéril viver
Eu passava sem ver-vos! Oh que doce dia!
Me sinto reviver! Minha alma se extasia!





Ligados pelo Amor, fortíssimo cadarço,
Ao calor do eternal VINTE E CINCO DE MARÇO,
Alegres como hebreus voltando a Jerusalém,
Ambos adormecemos. Ela e eu também.