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A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Inferno, Canto XXII


Andando os dois Poetas pelo aterro à esquerda, vêem muitos trapaceiros, que, por aliviar-se, boiam acima do piche fervendo. Sobrevêem os diabos e um deles é lacerado. É este Ciampolo, de Navarra, que consegue, depois, livrar-se das garras dos diabos, o que dá motivo a uma briga entre os demônios.

Marchar vi cavaleiros à peleja,
Travar luta, enlear-se no combate
E até pedir à fuga que os proteja;

Em vossa terra esquadras dar rebate
Vi, Aretinos; vi as cavalgadas,
Torneios, justas no mavórtico embate,

De tubas ao clangor, às badaladas,
Com sinais de castelos, de tambores,
Com artes novas ou entre nós usadas:

Não vi mover peões, nem corredores,
Nem baixéis, que regula a terra ou estrela,
De igual clarim aos sons atroadores.

Com dez demônios (que companha bela!)
Partimo-nos, porém rezar com santo,
Urrar com lobos discrição revela.

Minha atenção no pez se engolfa, entanto,
Por saber quanto encerra a negra cava,
Ali quem pena, quem derrama pranto.

Como o delfim, que da tormenta brava
O nauta avisa, o dorso recurvando,
Presságio do mau tempo, que se agrava.

Um lenitivo à pena, assim, buscando,
Mostrava o tergo algum dos condenados,
Qual relâmpago, logo se esquivando.

Como à borda de charcos enlodados
A fronte deixa à rã ver da água fora,
Pernas e corpo tendo resguardados:

Assim no pez a gente pecadora.
Mas, Barbariccia próximo já sendo,
Na resina se esconde abrasadora.

Eu vi (e ainda agora estou tremendo!)
Em cima retardar-se um desditoso
Qual rã, que fica, as mais desparecendo.

Perto ali stava Grafiacane iroso:
Fisgou-o na enviscada cabeleira,
E alçou, qual lontra, ao ar o criminoso.

Sabia os nomes da caterva inteira;
Ouvindo-os, atentei nos escolhidos:
Distingui-los podia de carreira.

“Eia! depressa os teus ferrões compridos
No costado lhe crava, ó Rubicante!”
Os demônios gritaram-lhe incendidos.

“Ó Mestre” — disse — “inquire insinuante
Quem seja aquele mísero e mesquinho
Que em mãos caiu da turba petulante”.

Moveu-se o Mestre e, à cava já vizinho,
Perguntou-lhe em que terra ele nascera.
— “Em Navarra[1]” — tornou-lhe — eu tive o ninho.

“De um fidalgo ao serviço me pusera
Minha mãe, quando o pai meu devastara
Fazenda e a própria vida com mão fera.

“D’El-rei Tebaldo eu na privança entrara:
Vendia os seus favores fraudulento;
Sofro a pena do mal, que praticara”.

Então os dentes lhe cravou cruento,
De javardo quais presas, Ciriatto:
Armam-lhe a boca, servem de instrumento:

Nas mãos de imigo seu caíra o rato:
Barbariccia, entre os braços o estreitando,
— “Alto!” — lhe diz — “A mim cabe seu trato”.

E o rosto para o Mestre meu voltando,
Falou: — “Pergunta, se ainda mais desejas
Antes que o tenha lacerado o bando”.

“Algum dos pecadores, com quem stejas”
Virgílo interrogou — “Latino há sido?”
Tornou: — “Vou contentar-te no que almejas.

“No pez deixei alguém por tal havido...
Ah! não temera, estando lá coberto,
Ser de unhas e farpões ora ferido”.

— “É demais!” — Libicocco diz, que perto
Estava; e um braço ao triste dilacera,
Do croque ao golpe, aquele algoz esperto.

Às pernas Draghignaz também quisera
Do mísero investir; o cabo iroso
Acesos olhos volve e os dois modera.

Cessa um pouco o rumor e pessuroso
Pergunta o Mestre àquela sombra aflita,
Que do golpe olha o efeito doloroso:

“Quem foi essa alma, como tu prescita,
Que, por vires à tona, hás lá deixado?”
Responde o pecador: — “Foi Frei Gomita[2]

De galura, nas fraudes consumado
Que do seu amo a imigos poupou dano,
E, traidor, foi por eles premiado.

“Por ouro os deixou ir, como de plano
Confessa; e em tudo o mais provou ter foro
Nas tretas, ser nos dolos soberano.

“Miguel Zanche[3], o Juiz de Logodoro,
Com ele ostenta, em práticas freqüentes
De crimes, em Sardenha, o seu tesouro.

“Ai! vede como esse outro range os dentes!
Iria por diante; mas receio
Na pele a fúria dos ferrões pungentes”.

Atenta o cabo de olhos no meneio
Com que a ferir se apresta Farfarello.
“Vai daí!” — lhe gritou — “pássaro feio!”

— “Se Toscanos, Lombardos tens anelo
De ver e ouvir” — o triste prosseguia —
“Traça darei, com que satisfazê-lo.

Suspendam Malebranche essa porfia;
Não temam sócios meus dura vingança,
Que eu, sentado, um só não, muitos faria

“De lá surdir, segundo a nossa usança,
Ao sinal de assovio, que de ausente
Perigo ao vir à tona dá fiança”.

Cagnazzo alça o focinho, de repente,
E, abanando a cabeça, diz — “Cuidado!
Astúcia é por lançar-se ao pez fervente”.

Ele, que em cópia ardis tinha guardado,
Tornou: — “Sutil astúcia, na verdade,
Causar aos meus tormento redobrado!”

Dos outros contra o aviso, por vaidade,
Alichino lhe disse: — “Se abalares,
Não provarei de pés agilidade,

“Hei de, voando, te agarrar nos ares.
Vamos do cimo e à riba retiremos:
Maravilha, se a tantos enganares!“

Leitor, logração nova contemplemos.
Já todos volvem de outro lado a vista:
Quem mais avesso assim primeiro vemos.

O Navarro estudara-o como invista;
E arrancando, de súbito, ao betume
Se arroja e a liberdade então conquista.

Da afronta sentem todos o azedume,
Inda mais quem motivo dera ao feito,
Gritando: — “Preso estás!” — salta do cume,

Porém do medo se avantaja o efeito
Ao das asas: um baixa ao fundo presto,
No ar sustém-se o outro, alçando o peito.

Assim mergulha o pato na água lesto,
Quando avista o falcão: perdida a presa,
Se torna o caçador cansado e mesto.

Calcabrina, da raiva na braveza,
Após o sócio voa, por ter briga,
Se a alma como deseja, vence empresa.

Vendo que ao fundo o malfeitor se abriga,
As garras volta contra o companheiro:
Furor à luta sobre o lago o instiga.

As unhas o outro, gavião ligeiro,
Lhe crava e, entrelaçando-se espantosos,
Tombam ambos no pez, de corpo inteiro.

Separa o grão fervor os dois raivosos;
Em vão, porém, subir-se pretenderam,
Que as asas prendem borbulhões viçosos.

Os outros vendo o caso, se doeram:
Envia quatro o cabo diligente;
E de croques armados acorreram.

De um lado e de outro chegam velozmente.
Tendem farpões aos sócios enviscados,
Cozidos já naquela crusta ardente,

E desta arte os deixamos atalhados.

NotasEditar

  1. Ciampo de Navarra, o qual serviu na corte do rei Tebaldo II de Navarra. [N. T.]
  2. Vicário de Ugolino Visconti, por dinheiro deu liberdade aos inimigos do seu senhor. [N. T.]
  3. Vicário do rei Enzo em Logodoro. [N. T.]