Abrir menu principal
A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Paraíso, Canto III


Na lua estão as almas daqueles que não cumpriram plenamente seus votos religiosos. Aparece ao Poeta a alma de Picarda Donati, que resolve uma sua dúvida sobre o contentamento dos espíritos bem-aventurados. Narra-lhe como foi violentamente tirada do mosteiro. Indica-lhe a alma da imperatriz Constança.

O Sol por quem primeiro ardeu meu peito,
Provando e refutando, me mostrara
Da formosa verdade o doce aspeito.

Por confessar-me do erro, em que vagara,
Quanto possível fosse, convencido,
Mais alto a fronte para a sua alçara.

Eis fui de uma visão tal possuído,
Que olvidei meu desejo inteiramente,
Ficando em contemplá-la submergido.

Bem como em cristal puro e transparente,
Ou nágua clara, límpida e tranqüila,
Que deixa à vista o fundo seu patente,

A imagem nossa quase se aniquila,
Em modo, que uma per?la em nívea fronte
Se faz mais perceptível à pupila,

Assim, dispostas a falar defronte
Várias figuras vi: eu no erro oposto
De Narciso caí amando a fonte.

Eu, cuidando as feições do seu composto
Ver num espelho, súbito volvia,
Por bem saber quem fosse, atrás o rosto.

Ninguém vi. Logo o gesto me atraía
Da doce guia, que, a sorir-me estando,
Dos santos olhos no esplendor ardia.

— “No sorriso, não pasmes, reparando,
A causa é” — diz — “teu pueril engano,
À verdade caminhas vacilando.

“Andas em falso, como sóis, de plano:
Verdadeiras substâncias estás vendo;
Trouxe-as aqui dos votos seus o dano.

“Interroga, o que ouvires crer devendo;
Pois da verdade a luz, que as esclarece,
As conduz, de todo erro as defendendo.” —

Volto-me então à sombra, que parece
Mais desejosa de falar: torvado
Começo, e a voz impaciência empece.

— “Tu, espírito eleito, que, enlevado,
Da vida eterna aqui fruis a doçura,
Que entende só quem tem expr?imentado,

“Grã mercê me farás, se porventura
Disseres o teu nome e a sorte vossa.” —
A responder-me leda se apressura.

— “Ao bom desejo a caridade nossa,
Como a que manda a corte sua inteira
Imitá-la, defere quanto possa.

“Eu era lá no mundo virgem freira:
Diz-te a memória, se as feições me guarda,
Que sou, posto mais bela, e verdadeira.

“Atenta bem: verás que sou Picarda:
Estou nesta bendita companhia,
Venturosa na esfera, que é mais tarda.

“As nossas afeições que inflama e guia
Somente a inspiração do Esp?rito Santo,
Enlevam-se em cumprir ordens que envia.

“A sorte, ao parecer somenos tanto,
Nos coube, por ter sido descurado
O sacro voto e em parte posto a um canto.” —

Respondi-lhe: — “No aspeito sublimado
Vosso rebrilha um não sei que divino,
Que o tem do que foi de antes transmutado.

“Não fui, pois, em lembrar-me repentino;
Porém, do que disseste me ajudando,
Eu do que hás sido em recordar-me atino.

“Mas vós que estais aqui dita logrando
Não sentis de outro céu desejo ardente
Por ver mais alto mais amor gozando?” —

Sorriu-se a sombra e as outras docemente;
E disse da alegria radiante,
O seu primeiro amor como quem sente:

“Rege o nosso querer, em paz constante,
A caridade, irmão: só desejamos
O que ora temos e não mais avante.

“Anelando ir mais alto do que estamos,
Seríamos rebeldes à vontade,
A que aprouve esta estância, que habitamos.

“Pois nos cumpre existir na caridade,
Surgir não pode em nós tal pensamento,
Dessa virtude oposto à santidade.

“Condição de eternal contentamento
É preceito cumprir do Onipotente:
Um só com ele é logo o nosso intento.

“Do reino em cada plaga refulgente
Somos, do reino todo muito ao grado
E do Rei, que à sua lei nos molda a mente.

“Seu preceito a paz nossa se há tomado:
Ele é mar a que tudo precipita,
Que cria, ou faz natura ao seu mandado.” —

Conheço então que o Paraíso habita
Quem stá do céu em qualquer parte, e vejo
Não chover de um só modo a suma dita.

Mas, se um manjar sacia, dado o ensejo,
E de outro resta o apetite vivo,
Um se agradece, expondo-se o desejo.

Por gesto e voz assim fiz-me expressivo
Para a tela saber que a lançadeira
Não rematara com lavor ativo.

— “Perfeita em vida, em mérito altaneira
Acima santa está, que há regulado
Vestes e véus, com que professa freira,

“Até finar-se, vele ou durma ao lado
Desse esposo, que todo voto aceita,
Se lhe é por caridade consagrado.

“Menina e moça, à sua regra estreita
Submeti-me, e do mundo me apartando
Jurei aos seus preceitos ser sujeita.

“Roubou-me à paz do claustro iníquo bando,
Mais à maldade do que ao bem afeito:
Qual foi Deus sabe o meu viver, penando!

“Este fúlgido esp?rito, em cujo aspeito
(À direita demora-me) se acende
Quanto lume o céu nosso tem perfeito,

“O que digo de mim de si o entende;
Sendo freira, como eu foi-lhe arrancado
O santo véu, que o voto à fronte prende.

“Mas, ao mundo tornando de mau grado,
Que os seus piedosos usos ofendia,
Guardou fiel seu peito ao sacro estado.

“É a excelsa Constância a que radia:
Deu de Suábia ao Imperador segundo
Herdeiro, em que extinguiu-se a dinastia.” —

Calou-se; e logo do Ave o hino jucundo
Cantou: cantando aos olhos desparece,
Qual peso, que mergulha em mar profundo.

Segui-la a vista quis quanto pudesse;
De desejo invencível atraída,
Voltou-se, quando em todo se esvaece,

E em Beatriz fitou-se embevecida.
Mas era o rosto seu tão fulgurante,
Que ante o lume sentiu-se esmorecida.

Pelo efeito atalhei-me titubante.