Abrir menu principal
A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Paraíso, Canto IV


Duas dúvidas agitam o espírito do Poeta. A primeira é relativa à doutrina platônica, segundo a qual todas as almas voltam para as estrelas donde saíram. A outra, se a violência tolhe a liberdade, como pode ser justo que as almas forçadas a romper os votos tenham desconto de glória? Beatriz responde à primeira dúvida restringindo o sentido da doutrina platônica. Relativamente à segunda diz que aquelas almas não consentiram no mal, mas não o repararam, voltando ao claustro, quando tiveram possibilidade de fazê-lo.

De igual modo distantes e atraentes,
Homem livre entre cibos dois morrera
De fome, antes que num metesse os dentes.

Cordeiro assim, sem se mover, temera
No meio de dois lobos truculentos;
Um galgo entre dois gamos não correra.

Calando-me entre opostos pensamentos,
Louvor não merecia, nem censura;
Necessário era então nos meus intentos,

Mas no semblante o anelo se afigura;
Constrangido silêncio o denuncia
Melhor que a voz, quando expressão apura.

Fez Beatriz, qual Daniel fazia
Para os assomos moderar da ira,
Que ao mal Nabucodonosor movia.

— “Dos desejos cada um tua alma tira”
— Disse — “e estando em tais laços enleada,
Tolhido o raciocínio, não respira.

“Discorres: se a vontade contrastada
No bem persiste, pode porventura
Em méritos julgar-se amesquinhada?

“Turbar-te inda outra dúvida procura:
Se das estrelas a alma torna ao meio,
Como Platão filósofo assegura.

“Destes problemas dois te nasce o enleio.
No derradeiro o exame principia
Porque do erro mais fel há no seu seio.

“Não têm anjo, que em Deus mais se extasia
Moisés e Samuel, João Batista,
O Evangelista, nem também Maria,

“Lugar em céu dif?rente do que a vista
De espíritos te deu que hão se mostrado:
Num só têm todos a eternal conquista.

“O Empíreo é por todos adornado,
Hão todos doce vida variamente,
Conforme o eterno sopro é facultado.

“Se nesta esfera os viste, certamente,
Não foi por destinada lhes ter sido,
Grau só denota menos eminente.

“Assim por mente humana comprendido
Será, pois se eleva ao entendimento
Do que é pelos sentidos percebido.

“Por ter do que sois vós conhecimento
A Escritura atribui, mas al entende,
Pés e mãos ao Senhor do firmamento.

“Em figurar a Igreja condescende
Gabriel e Miguel e o que a Tobia
Curou, sob a feição, que à humana tende.

“Timeu esta verdade contraria
No que acerca das almas argumenta;
Parece crer à letra o que anuncia.

“Ao seu astro voltar a alma sustenta,
Supondo que ela à terra descendera,
Quando, por forma ao corpo unida, o alenta.

“Talvez diversa idéia concebera
Do que nas vozes suas emitira,
Escarnecida ser não merecera.

“Se a honra ou vitupério atribuíra
Aos astros de influir na vida humana,
Na verdade talvez firmasse a mira.

“Mal entendido, o seu princípio dana
O mundo quase inteiro, que prestara
A Jove e a Marte adoração insana.

“A dúvida segunda te depara
Menos veneno, pois o mal, que encerra
Para longe de mim não te afastara.

“Que a Justiça Divina lá na terra
Pareça injusta é, de péssima heresia,
Argumento de fé, que jamais erra.

“Mas, como a humana mente poderia
Às alturas alar-se da verdade,
Vou dar-te, o que o desejo te sacia.

“Constrangimento havendo, se, à maldade
A vítima se opondo, em luta insiste,
Desculpa elas não têm, sem dubiedade.

“Não se abate a vontade, se persiste;
Sempre se ergue, qual flama cintilante:
A força a estorce, vezes mil resiste.

“Por menos que se dobre vacilante,
Cede à força: voltar ao santo abrigo
Puderam, tendo o ânimo constante.

“Se o querer fosse inteiro no perigo,
Como Lourenço no braseiro ardente,
Ou Múcio, que à mão sua deu castigo,

“Em livres sendo, a estrada incontinênti
Do dever seguiriam pressurosas;
Mas raro é tal valor na humana gente.

“Se atendeste, razões dei poderosas
Para ficar tua dúvida solvida:
Causa te fora a angústias afanosas.

“Mas ante os olhos ora vês erguida
Outra ainda mais grave, que, por certo,
Não fora por ti só desvanecida.

“Já te hei bem claramente descoberto
Que não pôde mentir alma ditosa
Pois da Suma Verdade é sempre perto.

“Narrou depois Picarda que extremosa
No seu amor ao véu fora Constância,
Ao revés do que eu disse cautelosa.

“Na existência há mais de uma circunstância,
Em que se faz, perigos receando,
O que é vedado ou move repugnância.

“Do pai ardentes rogos respeitando,
A sua mãe Alcmeon cortava a vida,
Por piedade impiedoso se tornando.

“Fique, pois, a tua mente convencida
De que ao querer se a força anda ajustada,
Não há desculpa à falta cometida.

“A vontade absoluta é declarada
Inimiga do mal: cede temendo
Ser, pela oposição, mais lastimada.

“A verdade absoluta em mira tendo,
Picarda discorreu: de outra eu falava.
Verdade ambas estamos defendendo.” —

Do santo rio a luz assim manava,
Da Fonte da verdade é derivada:
Cada um dos meus desejos contentava.

— “Ó do Primeiro Amante excelsa amada!
Ó santa” — eu disse — “cuja voz me anima,
Me inunda e a força aviva à alma abrasada!

“Afeto meu que ao extremo se sublima,
Não basta por tornar graça por graça:
Que o Senhor minha dívida redima!

“Não há, bem sei, não há quem satisfaça
A mente, se a Verdade não comprende
Fora da qual outra nenhuma passa.

“A mente ali se refocila e prende,
Qual fera, que em seu antro empolga a presa:
De outra sorte o desejo em vão se acende.

“E por isso ao pé nasce da certeza,
Como vergôntea, a dúvida e nos leva
De cimo em cimo até sublime alteza.

“Com toda a reverência que vos deva,
Ouso pedir-vos me expliques, Senhora,
Outra verdade, que me está na treva:

“Os rotos votos, que homem sente e chora,
Pode suprir com mérito dif?rente,
Que iguale em peso o que perdera outrora?” —

Beatriz me encarou: tão refulgente
Lhe rebrilhava o olhar e tão divino,
Que me volto, sentindo a força ausente,

E, quase aniquilado, a fronte inclino.