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A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Paraíso, Canto IX


Depois de Carlos Martelo, fala a Dante, Cunizza de Romano, irmã do tirano Ezzelino. Prediz-lhe iminentes desventuras na Marca de Treviso e de Pádua, e uma negra traição do bispo de Feltre. Folco de Marselha manifesta-se a Dante e lhe indica a alma resplendecente de Raab, que favoreceu os hebreus na conquista da Terra Santa. Invectiva contra Florença e contra a Cúria Romana.

Depois que Carlos teu, bela Clemência
Instruiu-me, narrou traições e enganos,
Que ter devia a sua descendência;

Mas disse: — “Cal?-te! Deixa o curso aos anos!” —
Dizer só posso, pois, que justo pranto
Há de vir por vingança aos vossos danos.

E voltou-se de novo o lume santo
Para o Sol que de júbilos o enchia,
Sendo ele o Bem que para tudo, e tanto.

Ah! mortais iludidos! raça impia,
Que, em pensamentos fátuos se engolfando,
Do Bem Supremo os corações desvia!

Eis outro vi pra mim se encaminhando:
De aprazer-me a vontade anunciava,
O brilho da luz sua acrescentando.

Os olhos Beatriz em mim fitava,
Bem como de antes: grandioso assenso,
Ao meu desejo claramente dava.

— “Ó ser bendito, ao meu querer intenso
Defere logo” — exclamo — “ e dá-me a prova
De que em ti se reflete o que ora penso.” —

A luz então, inda aos meus olhos nova,
Dês que a vi lá na altura onde cantava
Diz como quem cortês rogos aprova:

— “Nessa parte da Itália opressa e escrava,
Que situada entre o Rialto
E as nascentes do Brenta e do Piava,

“Colina vê-se que, não surge ao alto:
Lá centelha, depois ígnea procela,
Que a toda a região deu grande assalto.

“De um só tronco brotamos eu com ela.
Cunizza me chamei: aqui resplendo,
Porque venceu-me a flama desta estrela.

“Da sorte minha a causa não me sendo
Desgosto, eu ma perdôo alegremente
Talvez estranhe o vulgo o como entendo.

“Da luz, que me está perto, refulgente,
Amada jóia desta nossa esfera,
Revive grande a fama, e permanente

“De séc?los cinco mais será na era.
Vê se homem com razão à glória aspira,
Se extinta a vida, outra no mundo o espera!

“A este alvo, porém, não levam mira
Os que o Ádige cerca e o Tagliamento:
Nem dos seus erros o infortúnio os tira.

“Punido em breve, o povo truculento
De Pádua o lago tingirá, que banha
Co?as águas, de Vicência o fundamento;

“Onde o Cagnan do Sile se acompanha
Se trama o laço que fará cativo
Quem mostra no perder soberba estranha.

“Do ímpio Pastor procedimento esquivo
Há-de Feltro chorar, tal ribaldia
A Malta não levou nunca homem vivo.

“De enormes dimensões tonel seria,
Que o sangue recebesse de Ferrara,
Pesá-lo o esforço humano esgotaria,

“Em tal cópia o bom Padre o derramara
Em preito ao seu partido! Os dons malvados
Da terra sua a índole explicara.

“Espelhos no alto (Tronos são chamados)
A nós refletem quanto Deus indica:
Crê, pois, ora nos fatos revelados.” —

Calando-se Cunizza significa,
Ao giro seu anterior voltando,
Que em diverso cuidado imersa fica:

Aquele, a que aludira, rebrilhando,
Com preclaro esplendor, mostrou-se à vista.
Como ao sol rubi fino flamejando.

Alegria no céu fulgor aquista,
Como a nossa no riso se declara;
Mas os gestos no inferno a dor contrista.

“Deus vê tudo, e o teu ver nele se aclara” —
Falei — “ditoso espírito: patente
Te é sempre quanto o seu querer depara.

“Porque a voz tua, enlevo permanente
Do céu, de anjos no canto a sócia sendo,
Que em seis asas têm veste resplendente,

“Não satisfaz desejos, em que ardendo
Estou? Falara, sem mais ser rogado,
Se eu visse em ti bem como em mim stás vendo.” —

— “O maior vale de águas inundado”
— Desta arte a responder-me começava —
“Do mar, em torno à terra derramando,

“Opostas plagas, se estendendo, lava
Contra o sol, e assim faz meridiano
Esse horizonte, em que primeiro estava.

“Nessa parte do val mediterrano
Nasci, entre Ebro e Macra, que separa
Do domínio de Gênova o Toscano.

“Quase um meridiano se depara
Para Bugia e o ninho meu querido:
Sangue dos seus seu porto avermelhara.

“Chamei-me Folco e assim fui conhecido:
Este céu da luz minha é penetrado
Como eu fora da sua possuído;

“Pois Dido, que ciúmes há causado
A Creusa e a Siquei, não mais ardera
Do que eu, enquanto à idade me foi dado;

“Nem Rodópea infeliz, a quem perdera
Demofonte; nem Hércules outrora,
Que o coração a Iole oferecera.

“Não há remorso aqui; folga-se agora,
Não pela culpa, já no esquecimento,
Pela Virtude, cuja lei se adora.

“Arte aqui se contempla, em que portento
Tão alto brilha; e o Bem se patenteia,
Que influir faz na terra o firmamento.

“Para ser a medida toda cheia
Dos teus desejos, nados nesta esfera,
Do meu discurso inda prossegue a teia.

“Ora queres saber a luz quem era,
Que aí perto de mim tanto cintila,
Como o sol, que na linfa reverbera.

“Sabe, pois, que ali vês leda e tranqüila
Raab: à nossa ordem reunida
Em grau superior clara rutila.

“Foi neste céu, que a sombra procedida
Da terra não alcança, em triunfando
Jesus Cristo, a primeira recebida.

“Devia dar-lhe um céu por palma, quando
Assinalar lhe aprouve a alta vitória,
Que na Cruz teve, as palmas entregando;

“Pois que por ela começara a glória,
Que colheu Josué na Terra Santa,
Que se apagou do Papa na memória.

“A tua pátria, que foi daquele a planta,
Que ao Criador revel primeiro há sido
E causou pela inveja aflição tanta,

“Tem flor maldiçoada produzido,
Que, ovelhas e cordeiros transviando,
Traz o pastor em lobo convertido.

“O Evangelho, por ela, abandonado
E os Doutores, às páginas usadas
Das Decretais stão muitos se aplicando.

“O Papa e os Cardeais, nisto engolfadas
Tendo as idéias, Nazaré esquecem,
Que viu do Arcanjo as asas desdobradas.

“Mas Vaticano e os sítios que enobrecem
A Roma e têm sido o cemitério
Dos que, fiéis a Pedro, lhe obedecem,

Livres serão em breve do adultério.” —