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A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Paraíso, Canto VIII


Dante e Beatriz elevam-se à estrela de Vênus, onde estão os espíritos daqueles que outrora foram propensos às paixões amorosas. Encontro com Carlos Martelo, o qual referindo-se à índole mesquinha de seu irmão Roberto, explica-lhe como se dá que de um bom pai possa nascer um filho mau e, enfim, quanto providencial é a Natureza nos seus decretos e quão vaidosos são os homens que não lhe seguem as indicações.

O mundo com perigo verdadeiro
Creu que Ciprina bela dardejava
Louco amor do epiciclo que é terceiro.

Sacrifícios não só lhe consagrava,
Preces e votos essa antiga gente
No erro antigo fatal, que a transviava,

Mãe e filho adoravam juntamente,
Dione e o seu Cupido, que fingiram
De Dido reclinado ao seio ardente;

Dessa falsa deidade o nome uniram
Ao planeta, que o sol sempre namora,
Quando raiam seus lumes, quando expiram.

Como ao astro eu me alcei, a mente ignora,
Mas certo fui de haver lá penetrado,
Mais formosa por ver minha senhora.

Como se vê fagulha em fogo ateado,
Como uma voz é de outra discernida,
Firme o som de uma, o de outra variado,

Outros clarões notei na luz subida,
Mais ou menos velozes se volvendo,
Lá da eterna visão, creio, à medida.

Ou visíveis ou não, ventos rompendo,
Em rápida invasão, de nuve? escura,
Demorados stariam parecendo,

A quem pudesse ver cada luz pura,
Que ao nosso encontro vem deixando a dança
Que marcam serafins dos céus na altura.

Trás a grei, que primeiro nos alcança.
Tão doce hosana soa, que, incessante,
De inda ouvi-lo o desejo jamais cansa.

Dos espíritos um, que vem diante
Só principia: — “Todos nós queremos
Quanto para aprazer-te for prestante.

“Num só ardor e giro nos movemos
Cos Príncipes, celestes esplendores
De quem no mundo hás dito (bem sabemos):

— “Vós, do terceiro céu sábios motores!” —
Por te agradar nos é doce o repouso
Tão vivos são do nosso amor fervores!” —

De Beatriz ao gesto luminoso
Depois que alcei os olhos reverente
E certo fui do seu querer donoso,

À luz, que se mostrou condescendente
Em tanto grau — “Quem és” — falei, de afeito
Estremecido possuída a mente.

Ó das palavras minhas raro efeito!
Maior a vi brilhar; nova delice
A alegria aumentou do claro aspeito.

— “Bem pouco o mundo” — a refulgir-me, disse —
“Me teve; se algum tempo mais vivesse,
Mal, que há de vir, por certo ninguém visse.

“O júbilo que em torno me esclarece,
Aos teus olhos me encobre, como inseto,
Que dos seus véus de seda se guarnece.

“Com razão me votaste o extremo afeto;
Pois, em mais longa vida, eu te mostrava
Por ações quanto me eras tu dileto.

“Aquela região, que o Rone lava
À sestra, quando ao Sorga corre unido,
Por senhor seu um dia me esperava.

“Como da Ausônia o litoral partido
Por Bari, por Gaeta e por Crotona.
Onde é do Tronto e Verde o mar nutrido.

“Da c?roa a fronte minha já se entona
Do vasto reino, que o Danúbio rega,
Quando as plagas tudescas abandona.

“Trinácria, a cujos céus névoa carrega
Sobre o golfo, em que mais Euro embravece,
De Paquino a Peloro, em mor refega,

“Que não Tifeu, mas súlfur escurece,
O trono guardaria à prole minha,
Que de Carlo e Rodolfo antigos desce,

“Se o mau jugo, que os povos amesquinha,
A gritar — morra! morra! — não movesse
Palermo, a quem temor não mais continha.

“Se mais prudência meu irmão tivesse,
Dos Catalanos a indigência avara
Fugira, por que o mal seu não crescesse.

“Urgente, na verdade, se tomara
Que, por si ou por outrem, não deixasse
Mais onerar a barca, que adernara.

“Quando a índole nobre transtornasse
Avareza, milícia ter devia,
Que só de encher seus cofres não curasse.” —

— “Como creio” — tornei-lhe — “a essa alegria,
Que me infundes, Senhor, a origem tira
De Deus que todo bem finda e inicia.

“Comigo a sentes: mor prazer me inspira.
Quanto me hás dito, me é no extremo caro,
Pois vês, de Deus no espelho tendo a mira.

“Ledo me hás feito; assim tornar-me claro
O que por teu dizer stá duvidoso:
Semente doce brota fruto amaro?” —

— “Vendo a verdade” — disse — “pressuroso
Darás o dorso ao que ora dás o rosto,
Verás claro o que julgas tenebroso.

“O Bem, que os céus, que sobes, há disposto,
Os move e alegra, sem pôr providência
Nestes corpos que vês virtude posto.

“E não só com perfeita previdência
Cousas terrestres acham-se ordenadas,
Mas as preserva a sua onipotência;

“Porque as setas, deste arco arremassadas,
Predestinadas são a um ponto certo,
Infalíveis ao alvo enderaçadas.

“O céu aliás, aos olhos teus aberto,
Só feituras sem arte produzidas
Abrangera e ruínas no deserto.

“Foram então de perfeição despidas
As Substâncias, que regem as estrelas
E a mão, que as fez assim destituídas.

“Verdades são: mais claras queres vê-las?” —
— “Não” — repliquei — “supor não poderia
Natura escassa em suas obras belas.” —

— “Um mal, dize-me, fora” — prosseguia —
“Não ser o homem cidadão na terra?” —
— “Por certo; e a razão sei” — lhe respondia.

— “Sociedade haverá, se não encerra
Misteres vários, que cada um pratica?
Não, se o teu Mestre em seu pensar não erra.” —

Deduzindo, a evidência significa,
E logo concluiu: — “Causa dif?rente
Efeito diferente sempre indica.

“Nasce um Sólon, e Xerxe outro é furente,
Melquisedeque ou Dédalo perito,
Que no ar perdeu o filho seu demente.

“Perfeito é o giro pelos céus descrito;
Na cera humano o seu sinal fazendo,
Mas solar não distingue, nem distrito.

“Daí vem que Esaú, logo em nascendo,
Difere de Jacó; toma Quirino
Marte por genitor, seu pai vil sendo.

“Natureza gerada, em seu destino
Seria sempre igual à que a fizera,
Se não vencesse o decretar divino.

“O rosto ora diriges à luz vera;
Mas inda um corolário te ofereço,
Pois de agradar-te em mim desejo impera.

“Sempre natura, se da sorte excesso
A contraste, produz fruto danado,
Como semente posta em solo avesso.

“Se meditasse o mundo, desvelado,
Nos fundamentos, que natura lança,
De melhor gente fora povoado.

“Mas quem próprio seria à militança
Na soledade monacal definha,
Bem pregara quem, Rei, em vão se cansa.

E fora assim da estrada se caminha.” —