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A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Paraíso, Canto XXIII


Descem Cristo e Maria no meio de anjos e de almas bem-aventuradas. Cristo, porém, logo desaparece; e o arcanjo Gabriel, em forma de chama, coroa a Maria. Depois, Maria sobe no Empíreo reunindo-se ao seu divino filho.

Quando tudo em seus véus a noite esconde,
Sobre o ninho dos filhos seus amados
Ave, pousada entre a dileta fronde,

Para ver os seus gestos desejados
E buscar cibo que lhes dê sustento,
Desvelos, que lhes são bem compensados,

Da rama espia o tempo de olho atento
E com sôfrego anelo espera o dia,
Da alvorada aguardando o nascimento;

Tal vigilante Beatriz eu via
Para a plaga voltada luminosa,
Onde mais lento o sol me parecia.

Vendo-a assim pronta em vista e cuidadosa,
Homem fiquei, que melhorar-se aspira
E na esperança alenta a alma cuidosa.

Porém, breve, a demora logo expira
Entre atentar e ver que o céu se aclara
Com luz, que, viva mais e mais, subira.

— “Eis a milícia” — a dama diz preclara —
“Da vitória de Cristo! Eis a colheita,
Que o giro entre as esferas nos depara!”

Parece a face ter de flamas feita;
Arde nos olhos seus tanta alegria,
Que a palavra a dizê-la não se ajeita.

Qual Trívia em plenilúnios irradia
Entre as ninfas eternas se sumindo,
De que o céu nos recessos se alumia,

Sobre milhões de fogos refulgindo
Um sol vi, que os clarões seus lhes prestava,
Como aos astros o nosso a luz partindo.

Por entre o aceso lume fulgurava
A Divina Substância tão brilhante
Que a vista, contemplando-a, desmaiava.

— “Ó Beatriz! Ó guia doce e amante!” —
Tornou-me: — “O que te enleia a inteligência
Força invencível tem, sem semelhante.

“Aqui stá o Saber e a Onipotência,
Que para o céu caminho abrindo à terra,
Cumpriu-lhe inextinguivel apetência.”

Como o fogo da nuvem se descerra,
No seio, estreito já, se dilatando,
E, devendo subir, baixa e se aterra,

Assim, entre delícias se alargando,
Alma senti num êxtase arroubada;
Qual fui não sei, de todo me olvidando.

“Abre os olhos e vê qual sou tornada;
Pois te foi dado ver tanto portento
Já posso, ora a sorrir ser contemplada.” —

Estava eu como quem, no pensamento
De passada visão vestígio tendo
Salvá-los quer em vão do esquecimento,

Quando a sublime oferta recebendo,
De gratidão me entrei, que não se apaga
Do livro, em que o passado está vivendo.

Se quantos c?as irmãs Polínia afaga,
Com dulcíssimo leite os alentando,
Por eloqüência me ajudassem maga,

Na milésima parte eu, me afanando,
Cantar não conseguira o santo riso,
Que raiava no aspeito venerando.

Desta arte, descrevendo o Paraíso
Saltar deve este meu sacro poema,
Como em caminho às vezes é preciso.

Mas quem pensar que é ponderoso o tema
E débil o ombro, que lhe está sujeito,
A mal não levará, se ao cargo eu trema.

Não é para baixel pequeno e estreito
O mar que a proa vai cortando agora,
Nem para nauta a se poupar afeito.

— “Porque tanto o meu gesto te enamora,
Que não contemplas o jardim formoso,
Que aos doces raios de Jesus se enflora?

“Tem a Rosa, em que o Verbo milagroso
Carne se fez; os lírios têm, que ensinam
O bom caminho pelo odor mimoso.” —

Assim diz Beatriz. Pois me dominam
Seus conselhos, aos transes se oferecem
Meus olhos, que ante a luz débeis se inclinam.

À sombra estando, às vezes me aparecem
Prados vestidos de formosas flores
Do sol aos raios que entre nuvens descem;

Assim turbas distingo de esplendores,
A que do alto baixaram mil ardentes
Clarões sem ver a causa dos fulgores.

Ó Virtude beni?na que esplendentes
Os fazes, deste espaço, assim subindo,
Aos meus olhos, pra ver-te inda impotentes.

Da bela flor o doce nome ouvindo,
Que noite e dia invoco sempre, atento
No lume, que maior stava fulgindo,

Quando em sua grandeza e luzimento
Vi com meus olhos essa viva estrela,
Que vence, como aqui, no firmamento;

Do céu baixando flama se revela,
Que em forma circular, como coroa
Cingiu-a, se agitando em torno dela.

A melodia que mais branda soa
Na terra e as almas para si mais tira,
Trovão seria, que das nuvens troa,

Comparada à doçura dessa lira,
Que, do azul mais suave em céu vestido,
C?roava a bela, divinal safira.

— “Sou angélico amor, que, assim movido,
Mostro o prazer, que vem do seio santo,
Que ao Salvador do mundo albergue há sido.

“Hei de girar, do céu Senhora, enquanto
Deres, do filho entrando em companhia,
À suma esfera mais divino encanto.” —

Cantava assim da c?roa a melodia.
Dos outros lumes todos almo canto
O nome proclamava de Maria.

Dos orbes o primeiro, régio manto,
Que sente mais fervor, que mais se anima,
Do Supremo Senhor ao sopro, tanto

De nós distante se internava acima,
Que o aspecto seu na imensidade pura,
De distinguir a vista desanima.

Dos olhos meus a força em vão se apura,
Seguir querendo a flama coroada,
Que após seu Filho ergueu-se para a altura.

Qual criança, de leite saciada,
Que, ávida ainda, à mãe estende os braços,
No afeto seu mostrando-se inflamada,

Cada esplendor, subindo nos espaços,
Tendia-se, a Maria revelando
Quanto os prendem de amor excelso os laços.

Depois ver se fizeram modulando
“Regina coeli” em tanta consonância,
Que me perdura na alma esse hino brando.

Oh! dos celestes prêmios que abundância
Se contém nesses cofres, que hão guardado
Frutos colhidos na terrena estância!

No céu se frui tesouro acumulado,
No pranto e em Babilônia conseguido,
Onde o ouro ficara desdenhado.

Do filho de Maria conduzido,
Lá triunfa, por sua alta vitória,
Das duas leis aos santos reunido,

Quem guarda chaves da celeste glória.