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A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Paraíso, Canto XXX


Os nove coros angélicos aos poucos vão desaparecendo, Dante volve os seus olhos novamente para Beatriz, cuja beleza é agora maravilhosa a tal ponto que renuncia a descrevê-la. Eles estão no Empíreo, e Dante vê um rio de luz, cujas ribas estão esmaltadas de flores. Do rio saem centelhas que formam flores e depois voltam para as ondas. Enfim vê uma grande rosa de luz na qual aparecem anjos e os bem-aventurados. No meio há um trono preparado para o imperador Henrique VII.

Talvez milhas seis mil de nós distando,
A hora sexta ferve e deste mundo
A sombra vai-se ao nível inclinando,

Quando o meio do céu, p?ra nós profundo,
Tal se faz que não mostra o seu semblante
Mais de uma estrela deste val ao fundo;

E enquanto vem do sol a radiante
Núncia, o céu olhos cerra, adormecido
Um após outro até o mais brilhante:

Tal o triunfo, sem cessar movido
De gáudio, em torno ao Ponto deslumbroso,
Que parece, contendo estar contido,

Extinguiu-se aos meus olhos vagaroso.
Não vendo a pompa mais, a amor cedendo,
A Beatriz voltei-me fervoroso.

Num só louvor eu, resumir querendo
Dela o que vezes mil tenho cantado,
Frustara o intento, o esforço meu perdendo.

Pelo humano ideal imaginado
Não seria o primor, que vi mas, creio,
Gozá-lo todo, só a Deus é dado.

Neste árduo passo superado, anseio:
Vate jamais em trágico poema
Ou cômico sentiu tamanho enleio;

Quanto a vista ao clarão do sol mais trema.
Tanto a memória do seu doce riso
As potências do espírito me algema.

Dês que vi do seu gesto o paraíso
Na terra até me alçar a visão pura
Meu canto renovar não foi preciso.

Mas seguir-lhe a sublime formosura
Nos versos meus agora não me atrevo,
Como artista, que o extremo esforço apura.

Beatriz, sendo tal que a deixar devo
A tuba, mais que a minha, sonorosa,
Enquanto esta árdua empresa ao termo levo,

Com gesto e voz de guia cuidadosa,
— “Ao céu que é pura luz” — disse — “ao presente
Alçamo-nos da esfera mais vultosa,

“Luz intelectual, de amor ardente,
Amor do sumo bem, que enche a alegria;
Alegria em dulçores transcendente.

“Do céu verás, na santa bizarria,
Uma e outra milícia: uma no aspeto
Que hás de ver do final Juízo em dia.”

Como aos visivos espíritos direto
Relâmpago, que a ação lhes tolhe e os priva
De discernir o mais patente objeto,

Circunfluiu-me assim uma luz viva
Com véu do seu fulgor, que me impedia
Em claridade ver tanto excessiva.

— “Sempre o Amor, que este céu tanto extasia,
Por ser o círio à flama aparelhado,
Este saudar a quem recebe envia.” —

Bem não tinha estas vozes escutado,
Eis senti que virtude milagrosa
A força minha havia sublimado;

Senti vista mais que antes poderosa
E tal, que a luz mais penetrante e pura
Afrontar poderia valorosa.

Fúlvido lume um rio me afigura,
Entre margens correndo, que esmaltava
A primavera da celeste altura.

Do seio essa corrente arremessava
Centelhas; que entre as flores se espargiam
Como rubis, que o ouro circundava.

Quando ébrias de perfumes pareciam
Reprofundavam na ribeira bela:
Se umas entravam, outras emergiam.

— “O desejo, que te urge e te desvela,
De saber quanto vês maravilhado
Me agrada neste excesso que revela.

“Não serás em tal sede saciado
Senão dessa água tendo já bebido” —
Dos meus olhos o sol me há declarado.

“Os topázios, que movem-se, o luzido
Rio e das flores o matiz ridente
Prefácio umbroso da verdade hão sido.

“Não, por ser isto impenetrável à mente,
Mas por defeito da fraqueza tua,
Que te veda visão tanto eminente.” —

Não há criança, que tão presto rua
Ao seio maternal, em despertando
Mais tarde do que está na usança sua,

Como eu: melhor espelho desejando
Fazer dos olhos, à água me inclinava,
Que flui, pureza e perfeição nos dando.

Das pálpebras apenas se molhava
A borda, a forma, que antes vi comprida,
Do rio, circular se apresentava.

Como quem sob a máscara escondida
A face teve e logo diferente
Se mostra, essa aparência removida,

Assim flores, centelhas, mais fulgente
Alegria mostraram e eu já via
Do céu ambas as cortes claramente,

Ó de Deus esplendor, por quem já via
O triunfo do reino da verdade,
Dá-me valor; que eu diga o que já via.

Lá alto há luz de tanta claridade,
Que Deus visível faz à criatura,
Que em vê-lo tem da paz a f?licidade.

Ela se estende em circular figura,
Tão vasta que o seu âmbito faria
Ao sol desmarcadíssima cintura.

Um raio era o que dela aparecia
Refletido no Móbile Primeiro,
A que assim vida e influxo principia.

Qual em cristal do próximo ribeiro
Se espelha, como para ver as flores
E verdura, que o vestem, lindo outeiro,

Miravam-se, da luz aos esplendores,
De degraus em milhões almas tornadas
Da terra para os célicos fulgores.

Se claridades tantas derramadas
Stão no imo degrau, como da Rosa
No cimo hão de as grandezas ser esmadas?

Sem turbar-me, a amplitude portentosa,
Notava o qual e o quanto da alegria,
Em que se enleva aquela grei ditosa.

De perto, ao longe igual resplendecia;
Pois onde por si mesmo Deus governa
Da natureza a lei não mais regia.

Ao centro áureo da Rosa sempiterna,
Que em degraus dilatada rescendia
Louvor ao sol da primavera eterna,

Como quem cala, mas falar queria,
Beatriz, me atraindo, disse: — “Atenta
Dos brancos véus na imensa jerarquia

“O espaço vê, que esta cidade ostenta!
Quanto cada fileira está cerrada!
A poucos lugar vago se apresenta.

“Essa grande cadeira assinalada
Já de coroa, que te move espanto,
Antes de teres nesta boda entrada,

“Será de Henrique excelso, que há de o manto
Vestir de Augusto, para a Itália vindo
Antes de afeita ao regimento santo.

“Cega cobiça, a tantos iludindo,
Iguais vos torna a infante, que sem tino
De ama o seio não quer, fome sentindo.

“Será então Prefeito no divino
Foro aquele, que, oculto ou descoberto,
Não há de ser de acompanhá-lo di?no.

“A Deus, porém, apraz que esteja perto
Tempo, em que perderá cargo sagrado!
Terá com Simão Mago o lugar certo,

E o de Anagni será mais soterrado.” —