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A Divina Comédia/Paraíso/XXXII

A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Paraíso, Canto XXXII


S. Bernardo esclarece a Dante a composição da rosa do Paraíso. De um lado estão os santos cristãos; do outro os hebreus, que acreditaram no Cristo que devia vir. Entre uns e outros a Virgem Maria. Embaixo de Maria, mulheres hebréias; mais embaixo as crianças mortas logo depois do batismo.

De contemplar no seu prazer sorvido,
De instruir-me, espontâneo, se incumbia,
E este santo discurso há proferido:

— “A chaga, que sarou e ungiu Maria
Abrira a bela, que aos seus pés sentada
Divisas, do homem no primeiro dia.

“Stá na tércia fileira entronizada
Logo abaixo Raquel; resplendente
Ao lado Beatriz vês colocada.

“Sara, Rebeca, Judite e a prudente
Bisavó do cantor, que lamentara,
Miserere clamando, a culpa ingente:

“Num degrau cada uma se depara
Da rosa, folha a folha, descendendo
Como seu nome a minha voz declara.

“Estão, do degrau sétimo descendo,
Como de lá subindo, em seguimento
Hebréias, dividida a Rosa sendo:

“Formam elas, assim, repartimento,
Segundo em Cristo a fé predominara,
Da santa escada em todo o comprimento.

“Da parte, em que da flor se completara
Em cada folha o número, exalçado
Vês quem a Cristo no porvir sperara;

“Da parte, onde o hemiciclo é sinalado
De alguns lugares vagos, se apresenta
Quem creu em Cristo ao mundo já chegado.

“Como de um lado a divisão se ostenta,
Da Virgem pelo trono demarcada
E pelos mais, que a vista representa,

“Assim do oposto a sede destinada
Ao que no ermo e martírio sempre há sido
Santo e em dois anos da infernal estada,

“Lugar que, tem por conta, há precedido
Aos de Francisco, de Agostinho, Bento
E outros, de um degrau cada um descido.

“De Deus ora contempla o sábio intento:
Igualmente a fé nova e a antiga crença
Hão de encher o jardim do firmamento.

“Abaixo do degrau da escada imensa,
Que as divisões reparte, está sentado
Ninguém, porque ao seu mérito pertença,

“Mas pelo alheio, e ao modo decretado.
Seus corpos tais espíritos deixaram
Antes que discernir lhes fosse dado.

“Bem à luz da evidência to declaram
Pela voz infantil e pelo gesto:
Olha, escuta, e tuas dúvidas se aclaram.

“Duvidas e o não fazes manifesto;
Sutil pensar em nó te prende estreito;
Mas deste enleio vou livrar-te presto.

“Crer-se não pode em casual efeito
Do reino divinal no infindo espaço;
Nem há fome, nem sede ou triste aspeito.

“De eternas leis vincula tudo o laço,
E, como o anel no dedo, justamente
Da criação responde tudo ao traço.

“Portanto aquela prematura gente
Sine causa não sobe à vida eterna;
Mais ou menos, cada um entra excelente.

“Deste reino o Monarca, que o governa
De amor em tanto extremo, em tal ventura,
Que desejo nenhum além se interna,

“Criando, de sua face na doçura,
Os espíritos, dota-os a seu grado.
Isto basta saber: não mais apura.

“Ao claro está nos gêmeos demonstrado,
Que haviam, — na Escritura se refere,
Já no materno ventre batalhado.

“Assim a luz altíssima confere
A grinalda da Graça dignamente
Segundo a cor da coma, que prefere.

“Graduação, portanto, diferente
Lhes cabe sem ter méritos na vida:
Visão primeira os distinguiu somente.

“Nos primitivos tempos conseguida
Estava a salvação, quando a inocência
À fé dos pais se achava reunida.

“Às primeiras idades em seqüência,
Dos filhos trouxe às asas inocentes
Circuncisão, virtude e permanência.

“Depois de anunciada a Graça às gentes.
Sem batismo perfeito haver de Cristo
Não valeu a inocência desses entes.

“Ora atento na face, que à de Cristo
Mais se assemelha; a sua luz tão pura
Só te pode dispor a veres Cristo.” —

Vi chover de alegria tal ternura,
Que a Maria os espíritos levavam
Para voar criados nessa altura,

Que quanto os olhos antes contemplavam
Tais portentos patentes não fizera:
Os assomos de Deus se revelavam.

Dos anjos o primeiro, que viera,
Cantando “Ave, Maria, gratia plena”,
Ante Maria as asas estendera.

Respondendo à divina cantilena
De toda parte a gloriosa corte,
Resplendeu cada face mais serena.

— “Ó santo Pai, que a caridade forte
Em prol meu fez deixar o doce assento,
A ti marcado por eterna sorte,

Diz-me que anjo com tal contentamento
Da soberana a fronte olha divina,
No amor mostra do fogo o encendimento.” —

Desta arte inda vali-me da doutrina
Daquele, que enlevava-se em Maria,
Como no sol a estrela matutina.

Tornou-me: — “Alacridade e bizarria,
Quanta em anjo haver possa e nalma humana,
Há nele; assim nos dá suma alegria:

“Foi ele o que à bendita Soberana
Levou a palma, o filho de Deus quando
Quis assumir a nossa carga insana.

“Minhas vozes tua vista acompanhando,
Do justíssimo império alça aos formosos
Patrícios, de alto nome, venerando.

“Os dois, que acima brilham, venturosos
Por starem perto da Sob?rana Augusta;
São desta Flor princípios gloriosos:

“À sestra sua aquele, que se ajusta,
O Pai é que, tentado por mau gosto
Tanta amargura à sua prole custa.

À destra o Pai primeiro se acha posto
Da santa Igreja; as chaves lhe entregara
Da Rosa Cristo e o fez o seu preposto.

“E o que antes de morrer vaticinara
Duros tempos daquela amada Esposa,
Que por lanças e cravos se alcançara,

“Fica-lhe a par; e, junto, a glória goza
O capitão da gente ingrata, insana,
Que viveu de maná, revel, teimosa.

“Em frente a Pedro vês que senta-se Ana,
Tão leda a excelsa Filha contemplando,
Que imóveis olhos tem, cantado hosana.

“Em frente ao Pai dos homens venerando,
É Luzia: a Beatriz há suplicado,
Quando ias para o abismo te inclinando

“Mas da tua visão o assinalado
Tempo foge: paremos, pois, fazendo
Do pano, que há, vestido bem talhado.

“E para o Amor Primeiro olhos erguendo,
Saibamos se do seu fulgor no seio
Penetras, quanto possas te absorvendo.

“Mas, de que retrocedas no receio,
Movendo as asas, em vez de ir avante,
Impetra graça, de piedade cheio,

“Daquela, que em valer é tão pujante.
Em mente a voz me segue fervoroso,
Com vivo afeto e coração amante.” —

E esta santa oração disse piedoso: