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A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Purgatório, Canto IV


Seguindo os conselhos recebidos, os Poetas, através de um caminho apertado e difícil, sobem ao primeiro salto. Virgílio explica a Dante que, encontrando-se em hemisfério antípoda àquela terra, o Sol gira em direção contrária. Vendo muitas almas recolhidas à sombra de um rochedo, e aproximando-se a elas, Dante reconhece o seu amigo Belacqua. Ai estão os espíritos preguiçosos dos que esperaram para arrepender-se o termo da vida.

Quando ou pelo prazer ou por desgosto
Das faculdades uma é possuída,
Concentrando-se, o espírito indisposto

Se mostra à ação, de outra qualquer nascida;
Verdade, que refuta a crença errada
— Quem em nós uma alma está noutra acendida.

E, pois, se vendo, ouvindo, alma engolfada,
Lia-se à cousa, que a atenção cativa,
Sem sentir vai-lhe o tempo à desfilada.

Pois faculdade só no ouvir ativa
Difere dessa, em que alma se domina:
Uma presa, outra a vínculos se esquiva.

Experiência ao claro isto me ensina.
Aquela sombra atônito escutando,
Já com cinqüenta graus o sol se empina,

Sem que eu me apercebido houvesse, quando
Ao ponto fomos, onde a turba, unida,
— “Haveis o que anelais!” — disse, bradando.

Estando a vinha já madurecida,
Pelo aldeão de espinhos com braçada
Da sebe a estreita aberta é defendida.

Mais larga é que a vereda alcantilada
Por onde fui subindo após meu Guia,
Quando a grei nos deixou abençoada.

A Noli e a San-Leo por árdua via
Com pés se vai, Bismântua assim se alcança;
Ter asas de ave aqui mister seria;

Ou asas de um desejo, que não cansa,
Para o vate seguir que, desvelado,
Me servia de luz, me dava esp?rança.

Por carreiro entre penhas escavado,
Sempre de agudas pontas empecido,
Pelas mãos cada passo era ajudado.

Chegados da alta escarpa ao topo erguido
Da eminência no dorso descoberto,
— “Por onde ir”— disse então —“Mestre querido?”

— “Eia!” — tornou — “não dês um passo incerto!
Vai subindo após mim pela montanha;
Guia acharemos no caminho esperto.” —

Não mede a vista elevação tamanha:
Linha que o centro corte de um quadrante,
Por certo a ingrimidez não lhe acompanha.

Sem forças já, falei-lhe titubante:
— “Volve a face, pai meu: olha piedoso
Que só me deixas, indo por diante” —

— “Para ali, filho” — diz — “te alça animoso!” —
E o seu braço indicava uma planura,
Que torneia o declive temeroso.

Dessas vozes esforça-me a doçura
Tanto, que a rastos lhe seguia o passo
Até meus pés tocarem nessa altura.

Sentamo-nos a par, então, de espaço
Ao nascente voltados, qual viageiro
A estrada olhando, que calcara lasso;

Abaixo os olhos dirigi primeiro,
Ao sol voltei depois; notei pasmado
Da esquerda o lume vir desse luzeiro.

Disse Virgílio ao ver quanto enleado
Stava, o carro da luz considerando
Que era entre nós e o Aquilão entrado:

— “Se um e outro hemisfério alumiando,
Castor e Pólux junto a si tivera
O vasto espelho, que ora está brilhando,

“Da Ursa ainda mais propínqua à esfera,
A roda do Zodíaco observaras,
Se a costumada estrela não perdera.

“Meditando, a verdade logo acharas,
Se colocados de Sião o monte,
E este outro na terra imaginaras,

“Ambos guardando idêntico horizonte
E hemisférios diversos, onde passa
Estrada, em que tão mal correu Fetonte,

“E se a razão em ti não for escassa,
Verás que, enquanto a um vai por um lado,
Ao outro pelo oposto o sol perpassa.” —

— “Tanto ao claro jamais, ó Mestre amado,
Como ora, o meu esp?rito compreendera,
Quando estava por dúvida nublado.

“Que o círc?lo médio da mais alta esfera,
Que sempre Equador chama-se em certa arte
Entre o inverno e o sol se considera,

“Deve (se pude a mente penetrar-te)
Para o norte volver-se, e, no entretanto,
Viam-no Hebreus de Áustro pela parte.

“Agora, se te apraz, dize-me quanto
Hemos de andar; que os olhos, da eminência
Não atingindo o fim, se enchem de espanto.” —

— “Da montanha” — responde — “é a excelência
Fadiga no começo causar grave;
Quem mais sobe acha menos resistência.

“Ao tempo, em que te parecer suave
Tanto, que a subas ágil e ligeiro,
Como descendo da água o curso a nave,

“No termo te acharás deste carreiro:
Após afã desfrutarás repouso:
Quanto digo hás de ver que é verdadeiro” —

Mal acabando o Mestre carinhoso,
Perto soa uma voz: — “Talvez te seja,
Antes de lá chegar, preciso um pouso.” —

Volveu-se cada qual para que veja
Quem falara; alta penha deparamos;
Então só vemos que à mão sestra esteja.

Multidão, cercando-nos, achamos
Que à sombra demorava quietamente;
Por desídia detidos os julgamos.

Mostra-se um mais que os outros negligente:
Sentado abraça as pernas, tendo o rosto
Recostado aos joelhos, qual dormente.

Disse então: — “Vê senhor, quanto disposto
É à inércia o que ali stá parecendo:
Como irmão da preguiça fica posto.” —

Ele um pouco voltou-se olhos movendo
Para o meu lado, sem mudar postura,
— “Pois vai tu, que és valente!” — me dizendo.

Reconheci quem era. Inda me dura
Da agra ascensão em parte o grande ofêgo;
Mas endereço os passos à figura.

A fronte mal ergueu, quando me achego.
— “Como conduz o sol carro à esquerda
Tens reparado?” — disse com sossego.

Por meneio tão lento e voz tão lerda
Fui algum tanto a riso provocado.
— “Belacqua” — disse eu — “mas a tua perda

Não choro. Por que estás aqui sentado?
Esperas guia? Acaso, como outrora,
Da preguiça te sentes cativado?” —

Tornou-me: — “Irmão, subir que importa agora?
De Deus o anjo, que defende a entrada,
Me deixaria dos martírios fora.

“Tanto a porta me tem de ser vedada,
Quanto no mundo me durara a vida:
Pesei-me só a morte ao ver chegada.

“Mas antes ser me pode permitida
Pela oração de quem da Graça goza;
Que vai outra, do céu desatendida?” —

Mas o Vate seguia na penosa
Jornada. — “Vem!” — dizia — “Resplandece
O sol no meio-dia; e tenebrosa

Sobre Marrocos ora a Noite desce.” —