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A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Purgatório, Canto XV


Caindo a noite, os dois Poetas chegam ao terceiro compartimento. Aí Dante, em êxtase, vê exemplos de mansuetude e misericórdia. Voltando a si, encontra-se imerso num fumo que obscurece o ar e impede a visão.

Quanto caminho faz da tércia hora,
No giro seu, a luminosa esfera,
— Sempre a mover-se qual criança — à aurora,

Tanto, para acabar o curso, espera
O sol, e para dar à tarde entrada:
Lá vésperas, aqui meia-noite era.

De luz me estava a face então banhada;
Porque, em torno à montanha prosseguindo,
Do ocaso em direção ia a jornada,

Quando, mais vivo resplendor fulgindo,
Ofuscado fiquei mais do que dantes:
Desse portento a ação pasmei sentindo.

Acima de meus olhos, por instantes,
As mãos alcei — sombreiro, que antepara
O mor excesso aos raios deslumbrantes.

Assim como de espelho ou linfa clara
Ressalta a luz de encontro à oposta parte,
Subindo logo após, como baixara;

Da linha vertical não se disparte,
Uma distância igual sempre mantendo,
Como nos mostra experiência e arte:

Em frente à luz, assim, se refrangendo,
Tão penetrante a vista me feria,
Que a dirigi a um lado, olhos volvendo.

“Qual é” — ao Mestre amado então dizia —
Aquele objeto, que me ofusca tanto
E ao nosso encontro, ao parecer, se envia?” —

— “Que inda te ofusque não te mova espanto
A celeste família” — me há tornado: —
“Falar-te vem um mensageiro santo.

“A veres com delícia aparelhado
Serás em breve um lume refulgente,
Quanto ser pode ao ente humano dado.” —

Acercados ao anjo, alegremente
Nos disse: — “Aqui passai, menos penosa
Subida nesta escada está patente.”

Andando, atrás cantar em voz donosa
Beati Misericordes nós ouvimos
E “Exulta na vitória gloriosa”,

Para cima, portanto, nós subimos;
E eu das vozes do Vate cogitava
Colher proveito, enquanto sós nos imos.

E, me voltando, assim lhe perguntava:
“O que Guido del Duca nos dizia,
Quando em bens não partíveis nos falava?” —

— “Do seu vício pior” — tornou — “sabia
Os danos; não se estranhe, se o acusando,
Do mal que fazer possa prevenia;

“Porque, do mundo os bens vós desejando,
A que partilha todo o apreço tira,
Arde a inveja, suspiros provocando.

Mas, se a esfera imortal vossa alma aspira,
Levantando-se o anelo àquela altura,
Esse temor no peito voz expira.

“Tanto mais lá cad?um goza ventura,
Quanto por muitos ela mais se estende,
Quanto mais caridade lá se apura.” —

— “O entendimento” — eu digo — “ora compreende
Menos do que antes de eu te haver falado;
À mente ora mor dúvida descende.

“Como um bem, que é de muitos partilhado,
A cada possessor dá mais riqueza
Do que se a posse fora apropriado?” —

— “Teu spírito” — replica — “na rudeza
Das cousas terreais stando imergido,
Vê trevas onde a luz tem mais clareza,

“Esse inefável bem, no céu fruído,
Infindo, para o amor, correndo desce,
Qual raio a corpo lúcido e polido.

“Se ardor acha mais vivo, mais se of?rece;
Quanto mais caridade está fulgindo,
Virtude eterna mais sobre ela cresce.

“Quanto mais vai a multidão subindo,
Mais amar podem, mais a amor se aplicam,
Bem como espelho, um no outro refletindo.

“Se persistindo as dúvidas te ficam,
Hás de ver Beatriz: da sábia mente
Razão escutarás, que tudo explicam.

“Para apagares, pois, sê diligente.
As chagas cinco, que inda em ti stou vendo:
Há de cerrá-las contrição pungente.” —

Quando eu ia dizer — Mestre, compreendo —
No círculo eis penetro imediato:
Calei-me, a vista alucinada tendo.

Julgava então, de uma visão no rapto,
Extático, que em templo se mostrava
Multidão grande, de oração no ato.

Com piedoso semblante, à entrada estava
Meiga matrona. — “Ó filho meu querido,
Por que assim procedeste?” — interrogava.

“Eu e teu pai, com ânimo dorido,
Te buscamos.” — E como se calara,
Logo a visão fugiu-me do sentido.

Depois de outra no rosto se depara
Pranto acerbo, que mágoas anuncia
De quem de ira no incêndio se inflamara.

“Se mandas na cidade” — assim dizia —
“Por cujo nome os deuses contenderam
E onde a luz da ciência se irradia,

“Pune os braços, que ímpios, se atreveram,
Pisístrato, a estreitar a filha tua!” —
Ele, a quem vozes tais não comoveram,

Tranqüilo respondia à esposa sua:
“O que faremos a quem mal nos queira,
Se ira ao amor corresponder tão crua?”

Vi depois multidão, que a raiva aceira:
A pedradas mancebo assassinava,
Bradando — morra! morra! — carniceira.

A dolorida fronte debruçava,
Já mal ferido, o mártir para a terra:
Portas ao céu os olhos seus tornava,

Pedindo a Deus, naquela horrível guerra,
Que aos seus perseguidores perdoasse:
Riso piedoso os olhos lhe descerra.

Quando em minha alma o êxtase desfaz-se,
Conheci que no sonho aparecia,
Não da ficção mas da verdade a face.

Virgílio, a quem talvez eu parecia
Homem, que o sono deixa de repente,
— “Por que estás vacilante?” — me inquiria.

“Tens meia légua andado certamente
Com titubante pé, de olhos caídos,
Como quem desse ao vinho ou sono a mente.” —

— “Vou expor, meu bom mestre, aos teus ouvidos” —
Tornei — “quanto os meus olhos contemplaram,
Quando os joelhos tinha enfraquecidos.”

— “Se másc?ras cento a face te ocultaram” —
Disse Virgílio — “ocultos não seriam
Pensamentos, que, há pouco, te enlevaram.

“As imagens, que hás visto, te induziam
Águas da paz a receber no peito,
Que as fontes perenais dos céus enviam.

“Não perguntara, como quem de feito
Somente vê por olhos, obcecados
Quando o corpo da morte jaz no leito;

“Mas por serem teus pés mais apressados:
Excitar assim cumpre os preguiçosos,
Que se esquivam à ação stando acordados.” —

Nas horas vespertinas pressurosos
Andávamos, os olhos alongando,
Do sol cadente aos raios luminosos,

Eis pouco a pouco, um fumo se elevando.
Se condensa ante nós, qual noite, escuro;
Abrigo ali de todo nos faltando,

A vista nos tolheu, tolhendo o ar puro.