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A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Purgatório, Canto XVI


Sempre ao lado de Virgílio, Dante continua a viagem. Denso fumo envolve os iracundos. Entre eles está Marco Lombardo, o qual lamenta os tempos, que eram bons e agora ficaram maus. Dante pergunta de que depende essa mutação, e Marco responde que a corrupção dos tempos novos procede do mau governo do mundo e especialmente da confusão entre o poder espiritual e o poder temporal.

Sombra de inferno e noite carregada,
Em que o céu de um só astro não se aclara,
De nuvens, quanto o pode ser, toldada,

Véu tão grosso ao meu rosto não lançara,
Nem, ao contacto, fora tão pungente,
Como o fumo, que ali nos rodeara.

Fechados tinha os olhos totalmente:
Fiel o sábio sócio, me acudindo,
Deu-me em seu ombro arrimo diligente.

Qual cego, que ao seu guia vai seguindo
Por se não transviar, correr perigo,
Ou sofrer morte, de encontrão caindo,

Tal eu por aquele ar escuro sigo,
Atento ao Mestre meu, que repetia:
— “Cuidado! Não te afastes! Vem comigo!” —

Então vozes ouvi; me parecia,
Que paz, misericórdia suplicavam
Ao Cordeiro, que as culpas alivia.

Por Agnus Dei suaves começavam,
A letra era uma só como a toada,
Consonância entre si todas as guardavam.

— “Por quem esta oração, que ouço, é cantada?” —
Perguntei. Disse o Mestre: — “É bom que o aprendas:
Assim da ira a culpa é mitigada.” —

— “Quem és para que a névoa nossa fendas
E assim fales, qual viva criatura,
Que inda o tempo calcula por calendas?” —

Disse uma voz do fundo na negrura.
E Virgílio falou: — “Responde e exora
Se por aqui se sobe para a altura.” —

— “Ó alma, que” — disse eu — “a graça implora
De ir a Quem te criou mais pura e bela,
Maravilha ouvirás, segue-me embora.” —

— “Até onde for dado” — tornou-me ela —
“Irei, e, se te ver não deixa o fumo,
Nos tornará propínquos a loquela.” —

— “Nas mantilhas, que a morte acaba, ao sumo
Assento” — comecei — “ora me alteio,
Do inferno tendo vindo pelo rumo.

“Se Deus permite, de bondade cheio,
Que a dita eu goze de lhe ver a corte
Por este, hoje de todo estranho, meio,

“Revela-me quem foste antes da morte
E qual nos deva ser a melhor via:
Guiarás nossos passos desta sorte.” —

— “Fui Lombardo e de Marco o nome havia;
O mundo exp?rimentei, feitos amando,
Pelos quais ninguém mais hoje porfia.

A subir bom caminho vais trilhando.” —
Falou-me assim e acrescentou: — “E rogo
Intercedas por mim, ao céu chegando.” —

— “Quanto me pedes” — lhe replico logo —
“Juro fazer, mas acho-me oprimido
Por dúvida a que anelo desafogo.

“Era simples; te ouvindo, tem subido
A duplo grau, e assim me torna certo
Do que hei aqui e noutra parte ouvido.

“O mundo de virtude está deserto;
Tens sobeja razão, quando o lamentas,
Impa de mal, de vícios é coberto.

Dize-me a causa, se na causa atentas?
Sabendo-a, aos outros revelá-la quero;
Virá do céu ou lá na terra a assentas?”

Suspiro em que se exprime dó sincero
Com hui, do peito exala. — “Irmão — prossegue —
Que o mundo é cego em ti bem considero.

“Vós, os vivos, julgais o céu entregue
De toda causa, a tudo assim movendo
Por necessária lei, que o mundo segue.

“Desta arte o livre arbítrio fenecendo,
Ao homem não coubera o que merece,
No bem prazer, no mal dor recebendo.

“Primeira inspiração aos atos desce
Do alto; a todos não; mas quando o diga,
No mal, no bem a luz não vos falece.

“Livre sendo o querer, quem se afadiga
E a primeira vitória do céu goza,
Vencerá tudo, se em querer prossiga.

“Natureza melhor, mais poderosa
Vos sujeita — a que cria e vos concede
Mente, que ao céu não prende-se humildosa.

“Se a causa, que do bom caminho arrede
O mundo em vós a tendes persistente;
Explorarei, fiel, o que sucede.

“Alma surge das mãos do Onipotente
Que, inda antes de nascida, lhe sorria
Qual menina, que ri, chora, inocente.

“Ingênua e simples, ela só sabia
De um Deus beni?no ser meiga feitura,
E a tudo, que a deleita, se volvia.

“Dos mais frívolos bens prende-a a doçura,
E, deles namorada, após lhes corre,
Se guia ou freio o amor lhe não segura.

“Nas leis consiste o freio, que a socorre;
Rei foi mister, que, ao menos, acertasse
Da cidade de Deus em ver a torre.

“Leis há, mas não quem leis executasse;
Rumina esse pastor que os mais precede,
Mas a unha fendida não lhe nasce.

“E vendo a grei que o próprio guia a excede
Em almejar os bens que mais deseja,
Nestes se engolfa e mais nem quer nem pede.

“Portanto, porque mau governo veja,
Fica o mundo de culpas inquinado,
Não porque em vós a corrupção esteja.

“Bens sobre o mundo havendo derramado,
Tinha Roma dois sóis, que alumiaram
O caminho de Deus e o do Estado.

“Um ao outro apagou, e se ajuntaram
Do Bispo o bago e do guerreiro a espada:
Por viva força unidos, mal andaram.

“Não mais se temem na junção forçada:
Vê a espiga que prova estes efeitos;
Pela semente é a planta avaliada.

“Valor e cortesia altos proveitos
Deram na terra que Ádige e Pó lavam,
Antes que visse de Fred?rico os feitos.

“Por ali os que outrora se pejavam
De entrar dos bons na prática e na liga,
Livres passam do quanto receavam.

“Só três velhos opõe a idade antiga,
Como censura, à nova: é-lhe já tardo
Que Deus os chame dessa terra imiga:

“Conrado de Palazzo, o bom Gherardo
E Guido de Castel, que foi chamado,
Ao estilo francês simples Lombardo.

“De Roma a Igreja fique proclamado,
Cai no ceno os poderes confundido,
Se enloda a si e o fardo seu pesado.”

— “Tuas sábias razões, Marcos, ouvindo,
Vejo” — disse — “por que a Lei da herança
Partiu, de Levi os filhos excluindo.

“Mas qual Gherardo trazes à lembrança,
Como glória e brasão da antiga gente,
Que censura a este séc?lo impuro lança?” —

— “Queres” — tornou — “tentar-me ou certamente
Iludir-me? Em toscano me falando
Do bom Gherardo dizes-te insciente?

“Sobrenome de todo lhe ignorando,
Dou-lhe o de Gaia, sua filha cara.
Guarde-vos Deus, que eu vou-me, vos deixando.

“Do fumo a densidão se torna rara,
Branqueja o dia: devo já partir-me,
Que a apresentar-se o anjo se prepara.” —

Assim falando, mais não quis ouvir-me.