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A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Purgatório, Canto XXIV


Forese mostra a Dante outras almas de gulosos, entre as quais a de Bonagiunta de Lucca, que prediz ao Poeta que se enamorará de uma mulher da sua cidade, e lhe louva o estilo da poesia. Procedendo, os Poetas encontram outra árvore e ouvem outros exemplos de intemperança castigada.

Não era o passo e o praticar mais lento
Um do que outro; igualmente prosseguiam,
Qual nau servida por galerno vento.

As sombras, que duas vezes pareciam
Mortas, nos cavos olhos grande espanto,
De estar eu vivo certas, exprimiam.

Eu, a falar continuando, entanto,
Disse: — “Conosco para ir retarda
Sua ascensão essa alma ao reino santo.

Mas, rogo-te declara: onde é Picarda?
Afamada por feitos há pessoa
Entre a gente, que sôfrega me esguarda?” —

— “Tanto era minha irmã gentil e boa
Que não sei qual foi mais: triunfa leda
No Olimpo, onde alcançou formosa c?roa.

“Nomes dizer de mortos não se veda
Aqui” — Forese torna; e logo ajunta: —
“Tanto a fome as feições nossas depreda!”

“Este que vês de Lucca é Bonagiunta;
E aquela alma (seu dedo ia apontando),
Mais que todas desfeita, que lhe é junta,

“Foi Tours; já na Igreja exerceu mando.
Stá, por jejuns, anguilas de Bolsena,
Ver na ceia, afogadas, expurgando.” —

Muitos mais nomeou, que sofrem pena;
E todos demonstravam star contentes
De ouvir dizer Forese o que os condena.

Em vão de fome vi mover os dentes
Ubaldino de Pila e Bonifaço,
Que regeu com seu bago muitas gentes.

Misser Marchese vi, que largo espaço
Com menos sede em Forli consumia.
Em beber; mas julgava-o inda escasso.

Mas, como o que repara e que aprecia
Escolhendo, ao de Lucca eu me inclinava,
Porque mais conhecer-me parecia.

Submissa voz da boca lhe soava,
Causa do mal, que trouxe-lhe o castigo:
“Gentucca” ou não sei que pronunciava.

— “Ó alma” — disse — “que falar comigo
Queres, ao claro te explicar procura:
Satisfeita serás como contigo.

— “Mulher nasceu, mas inda é virgem pura,
Por quem” — torna — “hás de amar minha cidade,
Posto assunto haja sido de censura.

“Este prenúncio levas da verdade;
Se por meu murmurar te hás enganado,
Trazer-te há de o porvir à claridade,

“Se vejo aquele diz, que à luz há dado
Versos novos, que assim têm seu começo:
Damas que haveis de amor na mente entrado.

— “Que vês em mim” — lhe respondi — “confesso
Quem screve o que somente Amor lhe inspira:
O que em meu peito diz falando expresso.

“O óbice ora vejo que eu não vira
Que ao Notário a Guittone a mim tolhia
O doce estilo da moderna lira.

“As vossas plumas vejo que à porfia
Seguem de perto o inspirador potente;
Tanto alcançar às nossas não cabia.

“Quem, por mais agradar, mais alto a mente
Erguer que, não discerne um do outro estilo.”
Disse e calou-se de o dizer contente.

Como aves, que no inverno o noto asilo
Buscando ora num bando incorporadas,
Ora em fila apressadas vão-se ao Nilo,

Essas almas assim já demoradas,
Volvendo o rosto rápidas fugiram,
Da magreza e vontade auxiliadas.

Como aquele a quem forças se esvaíram
Correndo afrouxa os passos para o alento
Cobrar, em quanto os sócios se retiram;

Forese assim que a passo andava lento
Deixou passar a santa grei dizendo:
— “Quando de ver-te inda terei contento?” —

— “Quanto haja de viver” — fui respondendo —
“Não sei; por menos que me dure a vida
Mais ao seu termo os meus desejos tendo.

“Que onde foi a existência concedida
Mais escassa a virtude é cada dia:
Ruína espera triste e desmedida.

— “O que mor culpa tem” — me retorquia —
“À cauda de um corcel vejo arrastado
Ao vale, onde o pecado não se expia:

“Vai sempre, sempre mais acelerado
Aquele bruto na carreira fera:
Fica vilmente o corpo lacerado.

“Não há de girar muito cada espera
(Para o céu se voltava) antes que seja
Claro o que te explicar eu não pudera.

“Adeus, porém: quem neste reino esteja
Ao tempo dê seu preço verdadeiro;
O que eu perco ao teu lado já sobeja.”

Como a campanha deixa um cavaleiro,
A galope veloz se arremessando,
Por ter na liça as honras de primeiro:

Forese assim de nós foi-se alongando.
Fiquei dos dois espíritos ao lado,
Que o mundo está por mestres proclamando.

Quando em distância tanta era apartado,
Que as vistas nesse andar o acompanharam,
Como a mente ao que havia revelado.

Eis perto aos olhos meus, que se voltaram,
De outra árvore de pomos carregada
Os ramos vicejantes se mostraram.

As mãos alçava multidão cerrada
À fronde em brados; turba semelhava
De infantes, por desejos vãos turbada,

Um objeto implorando a quem negava,
E que o mostrando ainda mais acende
Desejo, que a cobiça lhes agrava.

Foi-se, porém, porque ninguém a atende.
Da grande árvore então nos acercamos,
Que a todo o rogo e pranto desatende.

Uma voz de entre as folhas escutamos:
— “Ide-vos logo; não chegueis ao perto!
Eva o fruto há mordido de outros ramos:

“Stão longe estes de lá provêm de certo.” —
Então de lado os passos dirigimos,
Unidos no caminho, que era aberto.

— “Lembrai esses malditos” — inda ouvimos —
“Filhos das nuvens, duplos na figura,
Que atacaram Teseus, ébrios cadimos;

“E os que em beber acharam tal doçura,
Que os não quis Gedeão na companhia,
A Madiã marchando lá da altura.”

Por junto à borda o passo se volvia,
E as penas escutamos dos pecados
Mortais, que outrora a gula cometia.

Já pela estrada solitária entrados,
Demos mais de mil passos inda avante,
Contemplando, em silêncio mergulhados.

— “Em que cismais vós outros?” — retumbante
Soou voz. — Fiquei logo em sobressalto
Como o corcel de medo titubante.

Para ver levantei a fronte ao alto:
Aos olhos, dera em fusão, no forno ardente,
Vidro ou metal não dera igual assalto,

Como o anjo que eu vi resplendecente.
Dizia: — “A volta dai para a subida!
Quem quer paz para aqui vai certamente.” —

Daquele aspecto a vista foi tolhida:
Como quem pelo ouvido os passos guia,
Fui caminhando, aos Vates em seguida.

E qual aura de maio, que anuncia
A alvorada, das flores espalhando
E das ervas o aroma, que extasia,

Tal sobre a fronte um sopro senti brando,
Senti mover-se a pluma: então rescende
Odor celeste, o olfato me enlevando

Dizer senti: — “Feliz o que se acende
Na Graça o que, da gula desligado,
Ao sabor do apetite não se prende,

Comendo quanto é justo sem pecado!” —