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A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Purgatório, Canto XXV


Subindo por estreita senda, do sexto ao sétimo e último compartimento, Dante pergunta a Virgílio como podem emagrecer as almas, que não precisam de alimento. Respondem-lhe Virgílio, antes, e depois Estácio. Este fala da geração do corpo do homem, da alma que nele Deus infunde, e da maneira de existência depois da morte. O compartimento no qual acabam de chegar está cheio de flamas, nas quais estão se purificando as almas dos luxuriosos.

Para subir o tempo nos urgia;
Meridiano ao Tauro o sol já dera,
Bem como a noite ao Scorpião cedia

Qual viajor, que o passo não modera,
Que em nada atenta e sempre segue avante,
Se em seu querer necessidade impera,

Nós penetramos no rochedo hiante,
Por escada estreitíssima subindo,
Que obriga um ir atrás outro adiante.

Da cegonha o filhinho, asas abrindo,
Por voar logo, encolhe-as e não tenta
Deixar o ninho, esforço não sentindo:

Tal o desejo em mim ferve e arrefenta
De perguntar chegando quase ao ato
De quem para dizer se experimenta.

O Mestre, sem parar, pressente o fato:
— “Tens da palavra o arco” — diz — “tendido,
Deixa a seta partir; não sê coato“. —

De confiança então já possuído,
Falei, — “Como é possível fique magro
Quem não precisa mais de ser nutrido?” —

— “Se recordaras” — torna — “Meleagro
Que, em ardendo um tição se consumia
Isso não fora de entender tão agro.

“Também de fácil crença te seria,
Se no espelho notaras que o teu rosto,
Segundo te movesses, se movia.

“Por dissipar-se a dúvida ao teu gosto,
Eis Estácio, a quem rogo fervoroso
Seja a dar-te o remédio bem disposto.” —

— “Se eu o eterno conselho explicar ouso”
— Disse Estácio — “quando és, Mestre, presente,
Ao teu querer me curvo respeitoso.

“Se, filho, o que eu disser guardas na mente,
Hás de ter — prosseguiu — “esclarecidas
Essas dúvidas tuas prontamente.

“Sangue puro, que as veias ressequidas
Não bebem, que de parte permanece
Quais viandas em mesas bem providas,

“Do coração tomou que lhe oferece
Virtude de que a forma aos membros veio,
Como o que às veias por fazê-los desce;

“Ainda, elaborado, desce ao seio
De canal que não digo; após, unido
Em vaso é natural com sangue alheio.

“É ali com outro confundido,
Paciente sendo um, sendo outro ativo,
Pela perfeita sede, em que há nascido.

“Trabalho então começa produtivo
Coagulando e depois vivificando
O condensado efeito primitivo:

“Em alma a força ativa se tornando,
Como em planta, é, no entanto, diferente:
Pára a planta, vai a alma caminhando.

“Prosseguindo, já move-se, já sente,
Como o fungo marinho; e logo emprende
Os sentidos, que em si tem qual semente.

“Ora contrai-se, filho, ora se estende
A força genetriz, do peito vinda,
Donde natura em todo o corpo entende.

“Mas, filho meu, não sabes certo ainda
Como a ser vem um ente cogitante:
É ponto em que um mais sábio no erro finda;

“Pois, na doutrina sua extravagante,
Distinto da alma fez o entendimento
Possível, não lhe vendo órgão bastante.

“Abre à luz da verdade o pensamento:
Vê que, no feto os órgãos em chegando
Do cérebro ao perfeito acabamento,

“O Primeiro Motor, ledo encarando
Da natureza tal primor, lhe inspira ,
Esp?rito, em que virtudes stão brilhando,

“E que ativo alimento dali tira
Para a própria substância; e alma se forma,
Que vive e sente e pensa e em si regira.

“Com meu dizer tua mente se conforma,
Notando que do sol calor em vinho,
Da uva ao sumo unido, se transforma.

“O esp?rito, se Laquésis não tem linho,
Deixa a carne e virtude, traz consigo
Dotes, que teve no corpóreo ninho.

“Sobem de ponto no valor antigo
A memória, a vontade, o entendimento,
Da mudez o mais fica no jazigo.

“Cai logo, de espontâneo movimento,
Por maravilha, numa ou noutra riba,
Onde há do rumo seu conhecimento.

“Vindo a lugar, que o circunscreva e iniba,
Da força informativa é rodeado,
Como em membros que a morte nos derriba.

“Bem como o ar de chuva carregado,
Se dos raios solares é ferido,
De cores várias mostra-se adornado,

“O ar vizinho assim fica inserido
Nessa forma, que desde logo amanha
Virtualmente o esp?rito ali contido;

“E semelhante ao fogo, que acompanha
Labareda, com ele se movendo,
Cada alma segue aquela forma estranha.

“Aparência de forma nela havendo
Sombra se chama; e, após, ela organiza
Sentidos, o da vista compreendendo.

“Fala, ri-se, ama, odeia ou simpatiza,
Exala dor, carpindo ou suspirando:
Neste monte já tens prova precisa.

“Segundo está sofrendo ou desejando,
Da alma também altera-se a figura:
Vê, pois, o que a magreza está causando.” —

Voltando à mão direita, da tortura
Entramos pela estância derradeira:
Então preocupou-nos outra cura.

Flamas brotava aqui a ribanceira,
Aura ativa da estrada respirava:
Subindo, as rechaçava subranceira.

Ao longe da árdua borda caminhava
Um por um: precipício temoroso
De um lado, e do outro o fogo eu receava.

Disse Virgílio: — “Aqui bem cauteloso
Deve aplicar aos olhos seus o freio
Quem não quiser dar passo perigoso.” —

Summae clementiae Deus stavam no seio
Do grande incêndio as almas entoando,
E de voltar-me o ardor então me veio.

Vi nas chamas espíritos andando:
Aos movimentos seus, aos meus estava
Atento, a vista a uns e a outros dando.

E quando aquele cântico findava
Virum non cognosco alto se ouvia,
E o cântico em tom baixo renovava.

E, terminando, o coro repetia:
“Diana expulsa da floresta Helice
Que o veneno de amor tragado havia.” —

Cantaram; cada qual como antes disse
Esposas e maridos, que hão guardado
A fé, que Deus mandou sempre os unisse:

Este modo há de ser, creio, alternado,
Enquanto os rodear a chama ardente:
A chaga por tal bálsamo e cuidado

Há de ser guarnecida finalmente.