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A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Purgatório, Canto XXIX


Da floresta aparece um súbito esplendor. Dante vê avançar uma procissão de espíritos bem-aventurados em cândidas vestes, e, no fim da procissão, um carro tirado por um grifo. Ouve-se um trovão e o carro e o grifo param.

As vozes, que eu lhe ouvia, ela remata,
Qual dama namorada, assim cantando:
Beati quorum tecta sunt peccata!

Como das ninfas o formoso bando,
Que nas umbrosas selvas sós andavam,
Qual ver, qual evitar o sol buscando:

Contra o ribeiro os passos a levavam,
Sobre a margem seguindo lentamente;
E pelos seus os meus se regulavam.

Cinqüenta assim andáramos somente,
Quando o álveo curvou a linfa pura,
E, pois, da banda achei-me do oriente.

Pouco éramos avante na espessura,
Eis, voltando-se, a dama desta sorte
Falou-me: — “Escuta, irmão, e ver procura.” —

Refulge de repente uma luz forte,
Por todo o espaço imenso da floresta.
Relâmpago julguei, que os ares corte.

Mas luz após relâmpagos não resta;
E o fulgor mais e mais resplendecia.
Disse entre mim: — “Que maravilha é esta?” —

Pelo ar luminoso se esparzia
Dulcíssima harmonia: e em zelo ardendo
De Eva o feito imprudente eu repreendia,

Pois, céu e terra a Deus humildes vendo,
A mulher só, que a vida começara,
Violava o preceito, os véus rompendo.

Se fiel fora e as ordens respeitara,
Mais cedo e por mais tempo essa morada,
Em delícia inefável, eu gozara.

Prosseguia, tendo a alma transportada
Nas primícias da eterna f?licidade,
Em desejos mais vivos abrasada,

Quando vimos de intensa claridade
Sob a rama tornar-se o ar brilhante
E o som tomou de um hino a suavidade.

Ó Musas, santas virgens, se, constante
Fome, frio, vigílias hei sofrido,
Da mercê vos rogar assoma o instante:

Das águas de Hipocrene bem provido
Para em metro cantar idéia imensa
De Urânia e das irmãs seja eu valido!

De ver, um tanto além, eu tive a crença
Árvores sete de ouro: era aparência,
Emprestava a distância parecença.

Mas, quando me acerquei, quando a evidência
Provou-me quanto a semelhança engana,
Dando das cousas falsa inteligência,

A faculdade, que à razão aplana
O discurso, fez ver distintamente
Candelabros e ouvir no hino: Hosana!

Cada qual flamejava refulgente,
Mais que no azul do céu rebrilha a lua
Da noite em meio, em seu maior crescente.

De pasmo, que no espírito me atua,
A Virgílio me volto; ele me encara:
Também revela espanto a vista sua.

Tornei-me ao lampadário, que não pára,
Prosseguindo, porém, solene e lento:
Noiva ao altar mais presta caminhara.

Eis a dama gritou-me: — “Por que atento
Às vivas luzes stás com tanto excesso,
Que desvias do mais o pensamento?” —

Trajadas de alva cor a ver começo
Pessoas, que os luzeiros têm por guia:
Candor igual na terra não conheço.

Do rio a linfa à sestra resplendia:
Espelho, minha imagem, desse lado,
Oscilando, aos meus olhos refletia.

Dos lumes tanto estava apropinquado,
Que pelo rio só fiquei distante:
Parei, por ver melhor, maravilhado.

Esses clarões eu vi passar avante;
Trás si no ar matiz vário espalhavam,
A pendões desfraldados semelhante.

Sete listras bem claras desenhavam,
As cores que contém de Delia o cinto
Ou stão do sol no arco, figuravam.

Cada estandarte, atrás asas distinto,
Se perdia â vista; entre eles pareciam
Dez passos se no cálculo não minto.

Por baixo de tão belo céu seguiam
Vinte e quatro anciões emparelhados:
Brancos lírios as frontes lhes cingiam.

Todos cantavam juntos: compassados
— “Entre as filhas de Adam sejas bendita!
Benditos teus excelsos predicados.” —

Quando da margem bem de fronte sita,
De fresca relva e flores guarnecida,
A grei se foi que alcançava a santa grita,

Como no céu a luz de outro é seguida,
Quatro animais após se apresentavam,
Coroados de fronde entretecida:

A cada qual seis asas adornavam,
Cobertas de olhos tantos, quantos Argo
Tinha, quando os seus vida gozavam.

De descrevê-los não faço cargo,
Leitor; a tanto ora me falta ensejo:
Nem posso neste ponto ser mais largo.

Contenta Ezequiel o teu desejo:
Ele os viu, que, do norte se arrojando,
Vinham com vento, nuve?, ígneo lampejo.

Como os pintou, estava os contemplando:
Dif?rença quanto às asas há somente;
João eu sigo, Ezequiel deixando.

Entre os quatro volvia resplendente
Com dupla roda um carro triunfante,
Por um grifo tirado altivamente,

As asas estendendo ia pujante;
No meio às listras três de cada lado,
Sem nenhuma empecer seguia avante.

Não sobe a vista ao ponto sublimado
A que se erguem; são d?ouro os membros d?ave
No mais o róseo e o níveo misturado.

Roma um plaustro não viu tão belo e grave
Do Africano em triunfo ou no de Augusto;
O do sol fora ante ele humilde trave:

Esse que, transviado foi combusto,
Da Terra quando as súplicas bradaram
E em seus arcanos Júpiter foi justo.

Dançando à destra aos olhos se mostraram
Três damas: tão rubente uma parece,
Que chamas se a cercassem a ocultaram.

A segunda tão verde resplandece,
Como composta de esmeralda bela;
A candura da neve outra escurece.

A dança dirigindo, se desvela
Ora a branca ora a rubra: o canto desta
Detém, apressa o passo ao querer dela,

À sestra fazem outras quatro festa
De púrpura vestidas: uma guia
As outras e três olhos tem na testa.

Dous anciões no couce depois via
Dif?rentes no vestir; mas igualdade
Nos gestos seus e acatamento havia.

Aluno um parecia na verdade
De Hipócrates sublime que criado
Natura tem por bem da humanidade.

Mostrava o companheiro outro cuidado
Trazendo espada tão aguda e clara,
Que onde eu stava de susto fui tomado.

De humilde aspeito a vista me depara
Mais quatro: segue o velho, que, distante,
Cerra os olhos mas luz a face aclara.

Os sete como os quatro de diante
Trajando a fronte sua têm cingida,
Não de c?roa de lírios alvejante,

Mas de purpúreas flores rubescida:
Um tanto longe ao vê-los me parece,
Que a testa a cada qual stava incendida.

E, quando o carro em face me aparece,
Rompe um trovão e a santa companhia,
Atendendo ao sinal pronta obedece:

Pára o cortejo e quanto o antecedia.