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A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Purgatório, Canto XXX


Acolhida festivamente pelos anjos e pelos bem-aventurados, desce do Céu, Beatriz (a divina sabedoria) e pousa no carro. Nisto Virgílio (a humana sabedoria) desaparece. Ela dirige-se a Dante e lhe exprobra os seus desvios. Dante chora; e os anjos se compadecem dele. Beatriz, dirigindo-se a eles, expõe mais particularmente quais foram as suas faltas depois da sua morte.

Quando o setentrião do céu primeiro,
Que, jamais tendo ocaso, nem nascente,
Da culpa só nublou-se em nevoeiro,

E ali fazia cada qual ciente
Do dever seu, bem como o deste mundo
Do nauta ao porto é guia permanente,

Parou, a santa grei, que ia em segundo
Lugar antes do Grifo, dirigia,
Como à paz sua ao carro olhar profundo.

Um, que do céu arauto parecia,
Veni, sponsa de Libano — cantando,
Três vezes disse, e a turba repetia.

Como, ao soar o derradeiro bando,
Hão de os eleitos ressurgir ligeiros,
Com renovada voz aleluiando,

Assim, da vida eterna mensageiros,
Cem anjos, ad vocem tanti senis
Elevaram-se ao carro sobranceiros.

Diziam todos: — Benedictus qui venis!
Modulavam, lançando em torno flores:
Manibus, oh, date lilia plenis!

Já vi do dia aos lúcidos albores
Em parte o céu de rosicler tingido,
Estando em parte azul e sem vapores,

E o sol, nascendo em nuvens envolvido,
Permitir que se encare em seu semblante,
Entre véus nebulosos escondido:

Tal, em nuvem de flores odorante,
Que de angélicas mãos sobe fagueira
E cai no carro e em torno a cada instante,

De véu neves cingida e de oliveira,
Uma dama esguardei com verde manto
E veste em cor igual à da fogueira.

E o espírito meu que, tempo tanto
Havia já, não fora ao seu conspeito,
Trêmulo, entrando de soçobro e espanto,

Antes que aos olhos se mostrasse o aspeito,
Sentiu, por força oculta que desprende,
Do antigo amor, o poderoso efeito.

Quando essa alta influência em mim descende,
Que desde o alvor primeiro da existência
Da alma as potências me avassala e rende,

À sestra me voltei com diligência,
Qual infante da mãe correndo ao seio,
Se dor ou medo assalta-lhe a inocência,

Por dizer a Virgílio: — “Neste enleio,
Meu sangue em cada gota é convulsado,
De amor na antiga flama eu me incendeio.”

Mas ai! Virgílio havia-se ausentado,
Virgílio, o pai dulcíssimo e amoroso,
Virgílio, a quem, por me salvar, fui dado!

Quanto perdeu neste lugar formoso
Eva, não tolhe as lágrimas no rosto,
Que o rocio me lavara milagroso.

— “Não haja por Virgílio ir-se, desgosto;
Não te entregues ao pranto agora, ó Dante;
Por dor mais viva ao pranto sê disposto.” —

Como em revista às naus sábio almirante
Nas manobras feroz a dura gente
E os corações esforça vigilante,

Do carro à borda, à esquerda, incontinênti,
Quando voltei-me ao nome proferido,
Que por ser dito aqui vem simplesmente,

A dama vi que tinha aparecido
Velada em meio da divina festa,
Tendo, além-rio, o gesto a mim volvido.

Conquanto o véu, que lhe cingia a testa,
Que de Minerva fronde coroava,
A face não deixasse manifesta,

No régio continente que ostentava
Desta arte prosseguiu; porém dizendo
O mais acerto para o fim guardava:

— “Oh! Sou eu! Sim! Beatriz stás vendo!
Pois te hás dignado de ascender ao monte
Ter aqui dita o homem já sabendo?” —

Os olhos inclinando à pura fonte
Vi minha imagem; logo os volto a um lado,
Tanta vergonha me acendia a fronte!

Qual mãe, que o filho increpa em tom maguado,
Pareceu-me: porque se torna amara,
A piedade que pune, ao castigado.

Calou-se ela e dos anjos a voz clara
— “In te, Domine, speravi” — de repente
Entoa, mas em pedes meos pára.

Da terra italiana em serra ingente
Da esclavônia por ventos contraída
Entre as selvas congela a neve algente;

Depois liquesce e corre derretida
Ao quente sopro, que do sul procede,
Como cera de flamas aquecida;

Tal o soçobro as lágrimas me impede
Antes de ouvir a angélica toada,
Que o hino dos eternos orbes mede.

Mas quando, em seus concentos expressada,
Compaixão vejo mais do que se houvessem
Dito: — “Senhora, por que és tanto irada?”,

No peito meu os gelos se amolecem;
Dos lábios e dos olhos irrompendo,
Com lágrimas soluços aparecem.

Firme no carro, à destra se volvendo,
Ela aos pios espíritos dizia,
Do cântico às palavras respondendo:

— “Vigilantes estais no eterno dia;
Jamais por noite ou sono distraída,
Do tempo os passos vossa vista espia.

“Minha resposta, pois, vai dirigida
Àquele, que ora ao pranto os olhos solta:
A culpa seja pela dor medida.

“Dos céus, não pela ação, na imensa volta,
Que para um fim conduz cada semente,
Segundo os astros, que lhe vão na escolta,

“Se não de graças por divina enchente,
Que chovem sobre nós dessa eminência,
A que se alar nem pode a nossa mente,

“Este homem foi na aurora da existência,
De tais dotes ornado, que pudera
Da virtude alcançar toda a excelência.

“Se, porém, a incultura se apodera
Ou semente ruim do bom terreno,
Plantas mali?nas, peçonhentas gera.

“Conservou-se ante mim puro e sereno:
Meus olhos, em menina, o conduziram
Pelo caminho mais seguro e ameno.

“Tanto que umbrais à vista se me abriram
Da idade segunda e desta vida,
Deixou-me; outros enlevos o atraíram.

“Quando em espírito eu fora convertida
E beleza e virtude em mim crescera,
Em menos preço fui por ele havida.

“Por fraguras fugiu da estrada vera,
Em fingidas imagens enlevado,
De que jamais se alcança o que se espera.

“Inspirações em vão hei-lhe impetrado
Em sonhos, em vigília o bem mostrando:
Cego, correu pelo caminho errado.

“Já todo o esforço meu se malogrando,
Para salvá-lo do perigo eterno
Quis que baixasse ao reino miserando.

“Foi neste empenho que desci ao inferno,
E à sombra, que de guia lhe há servido,
Fiz o meu rogo lacrimoso eterno.

“O preceito de Deus fora infringido,
Se ele do Letes transcendesse as águas,
Se lhe fosse prová-las permitido,

Sem seu preço pagar em pranto e mágoas.” —