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A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Purgatório, Canto XXXII


Dante olha com amor a Beatriz. No entanto o carro, seguido pela procissão dos bem-aventurados, se move em direção a um árvore elevadíssima e despida de folhagem. O grifo ata o carro à árvore e esta logo cobre-se de flores. O Poeta adormece. Ao despertar vê Beatriz, rodeada das sete damas, sentada ao pé da árvore. Acontecem, depois, no carro fatos maravilhosos que causam ao Poeta surpresa e medo.

Com tão sôfregos olhos saciava
A sede, em que anos dez eu me incendia,
Que aos mais sentidos toda a ação cessava.

Quase murada a vista se imergia
No santo riso ao mais indiferente,
E nos laços de outrora me prendia.

Desse êxtase arrancou-me de repente
A voz das santas, que da esquerda soa:
— “Demais contemplativa tens a mente!” —

Os ofuscados olhos me nevoa
Torvação semelhante ao vivo efeito,
Que do sol causa a face em quem fitou-a.

Mas quando à pouco luz estive afeito
(Pouca em confronto ao lume deslumbrante,
Que por força deixara e a meu despeito),

Vi que à destra volvia o triunfante
Exército celeste à frente estando
Os candelabros sete e o sol flamante.

Qual hoste a se salvar broquéis alçando,
Se volta, e co?a bandeira não prossegue
Senão mudada a direção, girando;

A celeste milícia avante segue,
Na marcha procedendo desfilava
Antes que o santo carro a volver chegue.

Cada coréia as rodas escoltava,
E o Grifo a carga santa removia
Sem parecer que as penas agitava.

Quem pelo rio me arrastado havia,
Estácio e eu a roda acompanhamos,
Que por arco menor volta fazia.

Na alta floresta caminhando vamos,
Erma por culpa da que a serpe ouvira:
Pelo cântico os passos regulamos.

Andáramos espaço que medira
Uma seta três vezes disparada:
Desceu Beatriz do carro, em que eu a vira.

“Adam!” — disse em murmúrio a grei sagrada,
Todos depois uma árvore cercaram,
De folhas e de flores despojada.

Tanto aos lados seus ramos se alargaram,
Quanto erguiam-se ao céu: como portento
índios nas selvas suas os mostrariam.

“Ó Grifo! Glória a ti! De culpa isento,
Não provaste do lenho doce ao gosto,
Que tanta dor causou, tão cru tormento!” —

Daquele tronco excelso em torno posto,
Diz o préstito; e o Grifo lhe contesta:
— “Assim justiça é sempre no seu posto.” —

E ao carro que tirara na floresta,
Voltou-se e o conduziu ao tronco anoso:
Dele foi parte, a ele atado resta.

Quando o astro rebrilha poderoso,
Juntando os seus clarões aos que desprende,
Depois do Peixe o signo luminoso,

Brotando as plantas cada qual resplende
De esmalte novo, e ainda de outra estrela
Abaixo os seus frisões o sol não prende:

Súbito assim refloresceu aquela
Árvore nua, gradações formando
Entre rosa e violeta em cópia bela.

Então de um hino as notas escutando,
Quais nunca sobre a terra se cantaram,
Não pude resistir a som tão brando.

Se eu narrasse como olhos se fecharam
De Argo impiedosos, de Sírius ao conto
Que o seu nímio velar caro pagaram,

Pintor, tirara ao natural e em ponto
O sono em que engolfei-me docemente;
Mas faça-o quem nessa arte forma pronto!

Passo ao momento em que espertou-se a mente:
Fulgor ao sono intenso o véu rompia,
— “Eia! que fazes?” — ouço incontinênti.

Quais vendo que de flores se cobria
O linho cujo pomo apetecido
Na boda eterna os anjos extasia,

João, Pedro e Tiago ao seu sentido,
Depois da prostração à voz tornaram,
Que sono inda maior tinha vencido,

E a companhia decrescida acharam
De Elias e Moisés enquanto as cores
Sobre a estola do Mestre se mudaram:

Tal despertei da luz aos esplendores,
Vi perto a dama que me fora guia
Do rio à margem sobre a relva e as flores.

— “Onde é Beatriz?” — cuidoso lhe dizia.
— “Da fronde nova à sombra a vês sentada,
Junto à raiz” — Matilde respondia.

“Da companhia sua é rodeada;
Ao céu após o Grifo os mais subiram,
Com mais doce canção, mais sublimada.” —

Não sei se as vozes suas prosseguiram
Pois aquela aos meus olhos se mostrara,
Em quem meus pensamentos se imergiram.

Sobre a terra bendita se assentara,
Só, como em guarda ao plaustro portentoso,
Que ao tronco antigo o Grifo vinculara.

Rodeiam-na, com círculo formoso,
As ninfas sete, os lumes empunhando,
Seguros de Austro e de Aquilão ruidoso.

— “Na selva a tua estada abreviando,
Serás comigo na eternal morada
Da Roma, onde tem Cristo o régio mando.

“Do mundo em prol, perdido em rota errada,
O carro observa e cada cousa atento
Guarda, por ser ao mundo registrada.” —

Falou Beatriz; e eu, pois, que o entendimento
Do seu querer aos pés tinha prostrado,
Fitei no carro a vista e o pensamento.

Dos etéreos confins arremessado,
Não rasga o raio à densa nuve, o seio,
Com tanta rapidez precipitado,

Como da alta ramada pelo meio,
Córtice fronde, flores destruindo,
O pássaro de Jove irado veio.

Com força imane o carro foi ferindo,
Que aos golpes, qual navio, se agitava,
Que o mar combate os bordos lhe investindo.

E logo após eu vi que se enviava
Ao carro triunfal uma raposa,
Que bom cibo não ter manifestava.

Increpando-lhe a vida criminosa,
Beatriz pô-la em fuga, e em tanta pressa,
Quanto sofreu-lhe a ossada cavernosa.

Depois do carro à caixa a Águia se apressa
A vir por onde, há pouco, descendera;
De inçar de plumas seus coxins não cessa.

Qual gemido que a dor no peito gera,
Ouvi do céu baixar voz, que dizia:
— “Ó barca! bem má carga ora se onera!” —

A terra então me pareceu se abria,
Entre as rodas um drago arrevessando
Que pelo carro a cauda introduzia.

Depois a cauda atroce retirando,
Qual vespa o seu ferrão, feita a ferida,
Arranca o fundo e vai-se coleando.

Como em terra vivaz relva crescida,
Cobre o resto plumagem de repente,
Com tenção casta e pura oferecida;

Timão e rodas vestem-se igualmente
Tão presto, que um suspiro vem lançado
À flor dos lábios menos prontamente.

Daquele plaustro santo, assim mudado,
Nos ângulos cabeças irromperam,
Três no timão e uma em cada lado.

Essas, como as de boi, armadas eram;
Uma só ponta as quatro guarnecia:
Monstros iguais já nunca apareceram.

Qual penhasco em montanha excelsa, eu via
No carro nua meretriz sentada,
Lascivos olhos em redor volvia.

Como para não ser-lhe arrebatada
Em pé ao lado seu stava um gigante,
Com quem trocava beijos despejada.

Que os olhos requebrava a torpe amante
Pra mim notando, fero a flagelava
Dos pés a fronte o barregão farfante.

No ciúme e na ira, que o inflamava
Desprende o carro e à selva o vai tirando,
Que depressa aos meus olhos ocultava

A prostituta e o novo monstro infando.