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A Divina Comédia por Dante Alighieri, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro
Purgatório — Canto XXXIII


Beatriz anuncia, com linguagem misteriosa, que brevemente aparecerá quem libertará a Igreja e a Itália da servidão e da corrupção. Impõe-lhe que escreva o que viu. Pede, depois, a Matilde que o mergulhe nas águas do rio Eunoé. Dante, depois da imersão, sente-se mais forte e disposto a subir às estrelas.

DEUS, venerunt gentes, alternando,[1]
Em coros dois, suave melodia
Cantam as ninfas, pranto derramando.

E Beatriz, a suspirar, ouvia
Tão dorida, que pouco mais, outrora
Junto da Cruz mostrara-se Maria.

Quando lhe coube alçar a voz canora,
Entre as formosas virgens posta em pé,
Com santo ardor, que as faces lhe colora:

“Modicum et non videbitis me,[2]
Caras irmãs, et iterum” — tornava —
“Modicum et vos videbitis me”.[3]

Depois, antes de si as colocava,
E a mim e a dama e ao Vate, que restara,
Pra seguir os seus passos acenava.

Ia assim: que ela houvesse eu não julgara
O seu décimo passo em terra posto,
Eis sua vista na minha se depara.

— “Mais perto” — disse com sereno rosto —
“Caminha; pois falar quero contigo,
E o leves a me ouvir star bem disposto.” —

Beatriz, logo em tendo-me contigo,
— “Por que” — prossegue — “irmão não hás querido
Me inquirir, quando vens assim comigo?” —

Fiquei, como o que o espírito aturdido,
Ao seu superior falando sente,
E apenas balbucia confundido.

Falei, com voz cortada, reverente:
— “Quanto hei mister sabeis mui bem, senhora,
O que seja em prol meu sabeis prudente.” —

— “De temor e vergonha desde agora” —
Tornou — “isento sê, stando ao meu lado:
Como quem sonha as vozes não demora!

“A caixa, que a serpente há devastado,
Já foi: de Deus castigo aos criminosos
Ser não pode por sopa obliterada.[4]

“Não faltarão herdeiros cuidadosos
Da águia, que ao carro as suas plumas dera,
E o tornou monstro e presa aos cobiçosos.

“Vejo o porvir e a voz minha assevera
O que propínquos astros anunciam:
Nada os estorva, nem seu curso altera.

“Um quinhentos dez cinco prenunciam,[5]
Que o céu manda a punir a depravada
E o gigante: ambos juntos delinquiam.

“A narração, talvez, de treva inçada,
Como as do Esfinge e Têmis não a entendas,[6]
Por parecer-te ao spírito enleada.

“Farão, porém, os fatos que a compreendas;
Quais Náiades, darão do enigma a chave,[7]
Sem dano ao trigo, ao gado, sem contendas

“Que na memória tua isto se grave:
Como te falo, assim o ensina aos vivos
Que se afanam em buscar morte insuave.

“Lembra os que hás visto feitos aflitivos.
Da árvore o stado narra, que te espanta,
Quanto sofreu assaltos dois esquivos.

“Quem despoja ou mutila a sacra planta
Blasfema a Deus, de fato o ofende ousado:
Para o seu uso só a criou santa.

“Sperou a primeira alma, que há provado[8]
Do seu fruto, anos mil cinco gemendo
Por quem penas em si deu do pecado.

“Tua alma dorme, se não stá sabendo
A causa singular, que a planta há feito
Tão alta, o cimo tal largura tendo.

“Se da água d’Elsa não trouxesse o efeito[9]
O teu vão cogitar sobre essa mente,
Que escurece, qual sangue à amora o aspeito

“Fora o que eu disse já suficiente
Para o justo preceito compreenderes,
Que Deus há posto sobre o tronco ingente.

“Como te ofusca a luz dos meus dizeres.
Porque de pedra tens o entendimento,
Que, afeito à culpa, não permite veres,

“Uma imagem te guarde o pensamento,
Como palma ao bordão junta, voltando,
Peregrino, em remédio ao esquecimento.” —

— “No cérebro, qual cera conservando” —
Tornei — “a marca do sinete impresso,
Vosso verbo se irá perpetuando.

“Mas por que se sublima em tanto excesso
Vossa palavra, sempre apetecida,
Que, alcançá-la tentando, desfaleço?” —

— “Por veres” — diz — “que escola pervertida,
Hás cursado, o que, pois, sua doutrina
Ao verbo meu não pode ser erguida;

“Pois a vereda vossa da divina
É tão remota, quanto está distante
Da terra o céu que ao alto mais se empina” —

— “Não me lembro” — respondo à excelsa amante
“De ter-me às vossas leis nunca esquivado:
Não diz-mo a consciência vigilante.” —

— “Possível é que estejas olvidado” —
Respondeu-me a sorrir — “tem na lembrança
Que inda há pouco, hás do Lete água tragado,

“E se de flama o fumo dá fiança,
Que o teu querer no erro andou perdido
Demonstra o olvido teu com segurança.

“Será da minha voz claro o sentido,
Por que mais facilmente de ora avante
Da rude mente seja percebido.” —

Mais demorado, entanto, e coruscante
No círc’lo entrava o sol do meio-dia,
Como os climas diversos variante,

Quando as damas, bem como astuto espia,
Que, precedendo a tropa, de andar cessa,
Se acaso novidade se anuncia,

Paravam, ao sair da sombra espessa,
Qual aos frios arroios murmurantes
Dos Alpes bosque verde-negro of’reça.

Julguei ver Tigre e Eufrates não distantes[10]
Brotar da mesma fonte juntamente
E separar-se lentos, quais amantes.

— “Ó glória! ó esplendor da humana gente!
Qual é, dizei-me, essa água, bipartida
Depois de proceder de uma nascente?” —

— “Ser-te deve a pergunta respondida
Por Matilde” — tornou-me então, falando
Em tom de quem por falta fosse argüida,

A dama disse: — “Tudo lhe explicando
Já stive: não podia haver efeito
Do Letes, a lembrança lhe apagando.” —

E falou Beatriz: — “Pode ter feito
Escura a mente sua o mor cuidado,
Que o entendimento às vezes torna estreito.

“Eis Eunoé, que o curso há derivado:
Conduze-o e, como sabes, o imergindo,
Seu coração alenta desmaiado.” —

Como alma nobre, ao bem nunca fugindo,
Faz do estranho querer própria vontade,
Quando um simples sinal o está pedindo,

A gentil dama, usando alta bondade,
Guiou-me e a Estácio disse, que atendia:
— “Segue-o também” — com garbo e majestade

Esse doce licor, que não sacia,
Eu cantara, leitor, se desse ensejo
Da página uma parte inda vazia.

Mas, porque todas ocupadas vejo
E ao meu segundo Cântico aplicadas
Da arte o freio me tolhe esse desejo.

Como de planta as folhas renovadas
Mais frescas na hástea mostram-se, mais belas,
Puro saí das águas consagradas

Pronto a me alar às lúcidas estrelas.

NotasEditar

  1. Deus venerunt gentes, Salmo 78, no qual David lamenta a contaminação do templo de Jerusalém: “Senhor, as nações entraram no teu domínio e contaminaram o teu templo.” [N. T.]
  2. Modicus et non videbitis me, “pouco tempo passará e não me vereis mais”, S. João Ev. XVI, 16 [N. T.]
  3. Beatriz responde: “e novamente passará pouco tempo e me vereis.” Provável alusão ao pouco tempo que a Santa Sé teria ficado em Avinhão. [N. T.]
  4. Sopa, a sopa que, em sinal de expiação, o homicida comia sobre o túmulo do assassinado. [N. T.]
  5. Um quinhentos dez cinco, um DVX, isto é, um chefe, um capitão, enviado de Deus, o qual punirá a Cúria Romana e o rei da França. [N. T.]
  6. Esfinge, que propôs o enigma a Édipo. — Têmis, que respondeu em forma obscura a Deucalião, que a foi consultar. [N. T.]
  7. Náiades, ninfas das fontes. [N. T.]
  8. A primeira alma, etc. Adam esperou cinco mil anos a vinda de Jesus Cristo, que tomou sobre si o seu pecado. [N. T.]
  9. Elsa, confluente do Arno. [N. T.]
  10. Tigre e Eufrates etc., o Letes e o Eunoé pareciam esses dois rios; pois nasciam na mesma fonte e, depois, se afastavam, aos poucos, um do outro. [N. T.]