Sala muito rica. Portas laterais e ao fundo. Candelabros com luzes.

Cena I Editar

Cocotes, sentadas aqui e ali; entre elas Cidalisa, Leonor, e Mademoiselle X; Sampaio, de pé, depois, Chica Valsa.

Coro de Cocotes - É decerto muito engraçado

O que acaba de nos contar!

Realmente faz espantar

O poder de um subdelegado,

Que até mesmo pode matar!

Se bem que em lugar afastado

Se desse o caso singular,

É decerto muito engraçado

O que acaba de nos contar!

Sampaio - Pois é verdade, minhas senhoras; foi assim que o caso se passou, em plena praça, e com uma rapariga que ia casar naquele dia!

Leonor - Na roça dão-se coisas!

Mademoiselle X - C’est incroyable!

Cidalisa - Mas que escândalo!...

Sampaio - Não há como ser subdelegado lá fora! Faz-se o que se quer, e mais alguma coisa!

Chica Valsa (Entrando.) - Seu Sampaio, veja se fala de outra coisa. Não há mais assunto para a conversa senão a sua subdelegacia?

Sampaio - Lá na freguesia eu posso quero e mando! Um vagabundo, vendo que aqui na Corte não arranjava farinha, arvorou-se em redator de gazeta, foi para lá, e fundou um pasquim, o Imparcial.

Chica Valsa (À parte.) - É ele!

Sampaio - O patife embirrou comigo, e toca a dar-me bordoada. Tenho apanhado como boi ladrão. No último número descobriu os meus amores aqui com a Chiquinha...

Chica Valsa (À parte.) - Deveras? (Alto.) Se você não fosse se gabar lá na roça do que faz aqui na cidade...

Sampaio - Eu gabar-me! Por meu gosto ninguém o sabia! Tenho três filhas solteiras!

Cidalisa - Adiante.

Sampaio - O tratante descobriu também que eu ia todas as noites jogar o vira-vira em casa de Lopes Boticário, e pôs-me a calva à mostra. Se eu não tivesse autoridade e se não tivesse dinheiro, estava a estas horas desmoralizado!

Mademoiselle X - C’est incroyable!

Sampaio - Mas que fiz eu? Proibi a leitura do Imparcial em público sob pena de cadeia!

Todas - Oh!...

Sampaio - Depois encontrei o troca-tintas a jeito e, vendo que com a cadeia nada arranjava (pois já o tinha mandado prender meia dúzia de vezes) prometi-lhe cinco contos de réis para acabar com o pasquim e bater a linda plumagem.

Chica Valsa - E ele aceitou essa proposta?

Sampaio - Aceitou, mas depois disso já saiu mais um número do jornaleco... e até essa data ele ainda não foi buscar os cobres.

Chica Valsa(À parte.) - Pois Bitu faria isso? (Alto.) Então? Joga-se ou não se joga hoje?

Mademoiselle X - Mais, dame! Le rende-vouz est à minuit!

Sampaio - O meu Escrivão foi prevenir os parceiros para a meia-noite. O Sota-e-ás incumbiu-se de trazer mais algUns.

Chica Valsa - O diabo é a polícia... Moramos num lugar tão público! Para evitar suspeitas, lembrei-me de iluminar a casa para um baile, como estão vendo.

Sampaio - É o diabo! os morcegos não dormem!

Chica Valsa - Tive outra lembrança. Os sujeitos que vêm cá jogar são muito conhecidos da polícia. Preveni-lhes que trouxessem barbas postiças e casacões. Com os senhores Urbanos é preciso muita cautela.

Mademoiselle X - C’est incroyable!

Chica Valsa - São finos como lã de cágado!


Coplas


Chica Valsa - Respeitai os senhores Urbanos!

Coro - Os Urbanos!

Chica Valsa - Não são pra graça tais maganos;

Tem olho vivo, espertos são,

E contra nós, paisanos,

Em guarda sempre estão!


I


- Como um corcel bem ardido a galope.

A morcegada avante vai!

Ninguém com ela tope,

Porque por terra cai!

Se acaso encontra uma senhora,

Bem pouco se lhe dá! esteja muito embora!

Aqui é cutilada!

Ali é pescoção!

Pontapé! Cabeçada!

Cachaça! Bofetão!

Coro - Respeitai os senhores Urbanos, etc.


II


Chica Valsa - Já não se pode estar tranqüilamente

Jogando numa reunião:

Na sala de repente

Os morcegos estão!

Abre de par em par a porta

A morcegada, e investe, arranha, fere e corta!

Uns correm pr’este lado

E os Outros para ali!

Metida em tal assado

Mais de uma vez me vi!

Coro - Respeitai os senhores Urbanos, etc.

Cena II Editar

Os mesmos, Sota-e-ás

Sota - Boa noite! boa noite! Cada vez mais béias, mais aebatadoias!(A Chica Valsa.) Góia à deusa desta casa! (A Mademoiselle X.) Bom soir; passez-vous bien?

Mademoiselle X - Oh! quel français! C’est incroyable!

Sota - Fancês muito bom! Apendi-o no Acazá! Tou aebatado! Boa noite, seu Sampaio... você tá na pesença de um home aebatado! (Dá um pulo e pisa Sampaio.)

Sampaio (Gritando.) - Oh! muito arrebatado!

Mademoiselle X - Quelle grâce!

Cidalisa - Como ele pula!

Leonor - E como cai tão chique!

Sampaio - Em cima do meu melhor calo! Muito obrigado!

Sota - Eu sei puiá! E dançá! Quem dança na Cote como eu? Sou um dançaino! (Dá viravoltas.)

Chica Valsa - O que admiro é sua imprudência de entrar aqui a estas horas, sendo jogador conhecido e sabendo que a polícia...

Sampaio - E que os Urbanos...

Sota - Óia! A poícia! os ubanos! Passei no meio deis!

Todos - No meio deles?

Sota - Acotoveiando-os assim! (Acotovela-os.)

Sampaio - Mas o senhor estava só?

Sota - Sozinho com a gaça de Deus e meu podê excutivo! (Brande a bengala)

Mademoiselle X - Aussi beau que charmant!

Cidalisa - E como é leve!

Sota - Como uma pena! Qué vê? (Vai para pular, Sampaio pega-lhe no pé.)

Sampaio - Deixe disso!

A Voz de Barnabé - Deixem-me entrar! deixem-me entrar!

Chica Valsa - Quem é? Quem é? (Entra Barnabé esbaforido, com uma mala debaixo do braço.)

Cena III Editar

Os mesmos, Barnabé

Barnabé - Com licença, minha senhora... Desculpe... é que...

Sampaio (À parte) - Valha-me Nossa Senhora! É o barbeiro lá da freguesia! (Escondendo-se atrás de uma cadeira.) Vem atrás da noiva. Não há que ver!

Chica Valsa - Quem é este homem? que deseja?...

Barnabé - Minha senhora... preciso falar-lhe... eu... minha noiva...

Chica Valsa - Tome fôlego, senhor!

Sota - Como ei tem os cabeios eiçados!

Chica Valsa - E o olhar esgazeado!

Todos - Fale! fale!

Sampaio (À parte.) - Estou metido em boas!

Barnabé - Se tenho os cabelos esgazeados e o olhar eri... não!... o olhar esgazea... não...

Chica Valsa - Veja lá no que fica!

Barnabé - É que me sucedeu uma grande desgraça!...

Chica Valsa - E que tenho eu com isso?

Barnabé - Ia casar-me com um anjo que adorava, e...

Chica Valsa - E foi traído?

Barnabé - Por ora não; mas ouça: no próprio dia de nosso casamento, ela foi presa por ler uma gazeta que se imprime lá na freguesia, apesar de estar proibida a leitura pelo subdelegado. No outro dia quiseram soltá-la e não a encontraram mais na prisão. O Escrivão do juiz de paz, a quem costumo ir aos queixos, contou-me tudo: minha noiva fugiu aqui para a Corte em companhia do senhor subdelegado.

Chica Valsa - Mas de onde é o senhor?

Barnabé - Eu sou de Maria Angu!

Chica Valsa - E o subdelegado chama-se?

Barnabé - Chama-se Seu Sampaio;

Chica Valsa - Ah!

Barnabé - Ora, como O senhor subdelegado, sempre que vem à Corte, hospeda-se em sal casa, eu vim pedir-lhe, Senhora Dona, que...

Sampaio (À parte.) - Estou arranjadinho...

Barnabé - Oh! se a senhora conhecesse a minha noiva... É tão inocente, coitadinha... Acredite que não fez aquilo por mal.


Romance


I


- Ela é muitíssimo inocente!

Supôs que não fizesse mal,

E pôs-se a ler o Imparcial

Pra que o ouvisse toda a gente!


Não julgou ser coisa imprudente

Em alta voz ler um jornal,

De mais a mais imparcial!

Ela é muitíssimo inocente!


II


- Ela é muitíssimo inocente;

Tem bem formado o coração;

Não tinha visto a proibição.

E foi filada incontinente!

Dói-me bastante vê-la ausente,

Porém não devo recear

Que alguém ma possa conquistar!

Ela é muitíssimo inocente!

Chica Valsa - Muito bem! Onde está o Senhor Sampaio? (Vendo-o.) Que faz aí escondido? Venha, que temos contas a ajustar! (Sampaio sai do seu esconderijo.)

Sota - C’est bon ça... c’est bon ça...

Barnabé - (Vendo Sampaio.) - Olé! Vai dar-me contas de minha noiva! (Avança.)

Sota (Suspendendo-o.) - Não se deite a pedê!

Sampaio (Atrapalhado.) - Espere, senhor! Vou explicar-lhe tudo. (À parte.) Esta gente não entende de justiça: posso mentir a meu gosto. (Alto e arrogante.) Nós somos subdelegado, entendem? Muito bem! A noiva deste senhor leu publicamente um jornal cuja leitura havíamos por bem proibir entendem? Tratava-se de uma menor branca e de bons costumes...

Barnabé - Eu arrebento!

Sota - Não aebente!

Sampaio - O código não previne este caso..

Barnabé - Eu é que o previno de que...

Sota - Não se deite a pedê. É a poícia que tá faiando. (A Sampaio) Continue a poícia...

Sampaio - Nós, como tínhamos que vir para a Corte, trouxemos a presa conosco.

Barnabé - Nós quem?

Sampaio - Nós eu! Quando A Autoridade fala, é nós!

Chica Valsa - Adiante!

Sampaio - Trouxemo-la conosco... e temo-la em depósito... Vamos apresentá-la ao chefe de polícia. (À Parte.) Foi bem sacada!

Chica Valsa - Sabe que mais? Vá buscá-la!

Sampaio - Hein?

Chica Valsa - Bem te conheço, quaresma mas não posso jejuar! Como o senhor, contando-nos a prisão dessa moça, não nos disse que a tinha trazido? Ande! vá buscá-la! (A Barnabé.) Você volte logo.

Barnabé - E a senhora promete-me?...

Chica Valsa - Sim, sim, mas volte logo!

Barnabé (Já risonho.) - Então vou ver as figuras de cera na Guarda-velha, e volto.( Vai saindo e dá um encontrão em Sampaio.)

Sampaio - Irra!... (Atira-o sobre Sota-e-ás.)

Sota (Empurrando-o.) - Passa f´óia!

Barnabé - Perdoem! (Sai.)

Chica Valsa - Esta rapariga é bonita?

Sampaio - Fazenda.

Chica Valsa - Foi um achado. Vá buscá-la.

Sampaio - Mas...

Chica Valsa - Não ouve? Nós o queremos!

Sampaio - É que...

Chica Valsa - Eu também sou autoridade!... eu também sou nós!...

Sampaio - Eu vou... eu vou... (Sai.)

Chica Valsa - Seu Sota, você hoje tem ocasião de falar ao Barão de Anajámirim?

Sota - Tavez

Chica Valsa - Diga-lhe que pode vir ver aquilo de que falamos. Olhe, vá procurá-lo. Adeus, até a meia noite. Não falte!

Sota - Vou num puio! Como um zéfio!... (Antes de sair, dirige-se à Mademoiselle X e dá-lhe um pequeno embrulho.) O Amará lhe manda esse presente. Vem uma catinha dento. Adieu! Adieu! (Sai dançando.)

Chica Valsa (Às cocotes.) - Vocês por que não vão até o jardim do cassino que é tão perto? Ainda é cedo; até as onze e meia há tempo para fintar um paio.

Leonor - Ou mesmo dois! (Às outras.) Vamos?

Todas - Vamos! Até logo..

Cena IV Editar

Chica Valsa, depois Genoveva

Chica Valsa (Só.) - O Sampaio e o jogo não me bastam. A incumbência é lucrativa, e não é a primeira que desempenho com felicidade. Se a pequena é realmente bonita, o barão me pagará bem... Hoje é um dia completo! Só me falta o meu Bitu!...

Genoveva (Entrando.) - Minh’ama, Senhô Sampaio trouxe uma moça vestida de noiva, que está esperando que vossemecê a mande entrar.

Chica Valsa - Já?! O tal depósito era perto! Diga-lhe que entre!

Genoveva (À parte.) - Entre, Sinhá! (Sai.)

Cena V Editar

Chica Valsa, Clarinha

Clarinha (Ao fundo, consigo.) - Como isto é bonito!... Que luxo!... Como se deve viver bem aqui!...

Chica Valsa - Aproxime-se, moça!

Clarinha - Aqui estou, minha senhora!

Chica Valsa - Chegue-se mais!... (Reparando.) Gentes!

Clarinha - Que vejo!

Chica Valsa - Clarinha!

Clarinha - Tu aqui?! Conheces a dona da casa?...

Chica Valsa - A dona da casa sou eu...

Clarinha - Será possível?...

Chica Valsa - Nunca ouviste falar na célebre Chica Valsa? Sou eu!

Clarinha - Tu?... Mas no colégio chamavam-te Chiquinha Morais...

Chica Valsa - Deitei fora a moralidade, e o povo entrou a chamar-me Chica Valsa, porque ninguém Valsava como eu nos bailes do Pavilhão.

Clarinha - E o caso é que ficaste, mais do que eu, com este Sotaquezinho que nos deixou a educação entre franceses.

Chica Valsa - Eu faço de propósito para que tomem por francesa.

Clarinha - Eu já tenho perdido todo o Sotaque.

Chica Valsa - Mas conta-me a tua história, pelo menos de anteontem para cá.

Clarinha - É muito engraçada. Queriam casar-me contra a minha vontade com o mestre barbeiro lá da terra.

Chica Valsa - Continua.

Clarinha - Ora, eu não podia nem casar-me nem deixar de me casar.

Chica Valsa - Como assim?

Clarinha - Primeiro que tudo, porque há lá um bonito rapaz que julgo preferir...

Chica Valsa - Que julgas?

Clarinha - Que... prefiro, se assim o queres.

Chica Valsa - Agora entendo.

Clarinha - Segundo que tudo, esse rapaz tinha jurado matar-se, se eu me casasse com o barbeiro!

Chica Valsa - E tu acreditaste nisso, criança?

Clarinha - Se o conhecesses? É um rapaz destemido... meio maluco! - Esse casamento era imposto pelos,Operários da fábrica do Pinho, que me educaram...

Chica Valsa - Lembra-me bem: teus pais e tuas mães. Como vão eles?

Clarinha - Bem, obrigada. Enfim, para sair do embaraço em que me via, só tive um meio: deixe-me prender lendo um jornal cuja leitura...

Chica Valsa - Eu sei disso. Foi uma boa idéia.

Clarinha - O subdelegado foi à minha prisão, achou-me bonita, e perguntou-me: - Menina, quer ir para a Corte comigo? - Eu disse aos meus botões: Uma vez na Corte, escrevo ao meu namorado, reunimo-nos, casamo-nos,... aceitei a proposta do subdelegado.

Chica Valsa - E daí?

Clarinha - Daí, cá estou. Passarei pelo perigo e ficarei incólume, compreendes? O que não sei é para que me trouxeram à tua casa. Ele havia-me alugado um quarto no Hotel dos Príncipes.

Chica Valsa - Mas que lembrança a tua!

Clarinha - Lembranças as que tínhamos no colégio, hein? Aquilo sim!..

Chica Valsa - Ah! bom tempo! bom tempo!

Clarinha (Suspirando) O colégio!..

Chica Valsa (Suspirando.) - O colégio...

Dueto

Juntas - Tempo feliz da infância pura,

Em que há mamãe, em que há papai!

Tanto prazer, tanta ventura,

Fugiu veloz, bem longe vai!

Chica Valsa - Lembrada estás quando fui ao portão

Pra conversar cum estudante

Do qual conservo ainda - e por que não?

Muita cartinha interessante?

Clarinha - Lembrada estás de um professor

Que, me encontrando um dia a jeito,

Apertou-me contra o seu peito

E quatro beijos me pregou?

Chica Valsa - E felizmente o tal sujeito

Com isso só se contentou...

Juntas - Tempo feliz da infância pura, etc.

Chica Valsa - Hoje aqui - deixa que te diga!

Passo uma vida de invejar!

Clarinha - Eu não invejo, minha amiga,

O teu viver de lupanar!

Chica Valsa - Ah! naquele belo tempo,

Que passou, não volta mais,

Eu dar-te-ia esta resposta

Na linguagem dos teus pais:

(Pondo as mãos à ilharga.)

Eh! Olá! Não grimpes, não!

Ou retiras a expressão,

Ou co’esta mão

Dou-te muito pescoção

Clarinha - Eu poderia responder


(mesmo jogo de cena.)

Vosmecês não querem ver

Esta tipa sem pudor,

Negociando o seu amor,

E vendendo a quem mais der

Seus encantos de mulher!

Juntas - Ai que prazer!

Chica Valsa - Isto é melhor, pudera não!

Do que a linguagem de valão!

Juntas Ah! ah! ah! bonitas coisas

No colégio fui saber,

E hoje em dia,

Todavia,

Tenho ainda que aprender!

Que prazer a infância dá!

Outro assim não há!...

Chica Valsa Lembrada está de algUns dizeres

Que sem querer fui saber eu?

Diziam que teu pai morreu

Dois anos antes de nasceres

Clarinha Lembrada estás de certa história

Que foi bem pública e notória

No bom tempo que lá vai?

Nós não soubemos nunca o nome de teu pai!

Juntas Ah! ah! ah! bonitas coisas, etc.

Chica Valsa - Tu serás muito feliz, muito feliz, Clarinha; quem to assegura sou eu. (À parte.) O resultado é duvidoso...

Cena VI Editar

As mesmas, Genoveva, depois o Escrivão

Genoveva (Entrando.) - Minh’ama, posso falar a vossemecê?

Chica Valsa - Por que não?

Genoveva - A vossemecê só?

Chica Valsa - Que temos?

Genoveva - Uma preta velha, acompanhada por um moço, que querem falar a vossemecê. Estão no corredor.

Chica Valsa (À parte.) - Oh! meu Deus!... Já nem me lembrava que Bitu podia chegar agora!

Clarinha - Estou te embaraçando?

Chica Valsa - Não, mas...

Escrivão (Entrando.) - Perdão, minha senhora, onde está sua senhoria, o senhor subdelegado? (À parte.) - A noiva do Barnabé aqui!

Chica Valsa - Não sei: está no meu bolso!

Escrivão - Vou procurá-lo. (Cumprimenta e diz à parte.) E no corredor o Nhonhô Bitu... Aqui há coisa... hei de saber! (Vai saindo e escorrega.)

Clarinha - Não caia, seu aquele!

Escrivão - Escorreguei no ispermacetes...

Chica Valsa - Tu, minha querida Clarinha, entra para este quarto; hei de ir ter contigo. Fica sossegada: não te casarás com o Mestre Barnabé.

Clarinha - Obrigada. (Sai.)

Chica Valsa - Manda entrar...

Genoveva - A preta velha e o moço?

Chica Valsa - O moço só, estúpida! (Genoveva sai.)

Cena VII Editar

Chica Valsa, Bitu

Bitu (entrando.) Ora esta! era você?!...

Chica Valsa - Sim, era eu! Venha de lá esse abraço!

Bitu - Mas isto foi uma traição! (Á parte.) Ainda está mais bonita!

Chica Valsa - Não tenhas medo! Abraça-me...

Bitu (Abraçando-a.) - Medo de que ?

Chica Valsa - Estava com muitas saudades suas. Chamei-te para fazermos as pazes.

Bitu - Estão feitas! (À parte.) E Clarinha, que deixei presa em Maria Angu. (Alto.) Julguei que não tivesse voltado da Europa.

Chica Valsa - Há quinze dias... Havemos de conversar.

Bitu - E... o motivo da nossa separação?

Chica Valsa (Embaraçada.) Hein?

Bitu - O pomo?

Chica Valsa - Que pomo?

Bitu - O pomo da discórdia! O Sampaio!

Chica Valsa - E você a dar-lhe com o Sampaio! Que diabo! Seja razoável, Bitu!

Bitu - Não importa! Estou bem vingado!

Chica Valsa - Já sei que você pintou a manta em Maria Angu.

Bitu - A manta, o sete, o padre, o simão de carapuça e até a saracura! Pintei tudo! Mas...

Chica Valsa - Mas... falemos de nós.

Duetino

Chica Valsa - Até que enfim, Bitu, eis-me a teu lado!

Bitu - Enfim ao lado meu estás!

Chica Valsa - Ingratatão!

Bitu - Não me dirás

Por que é que fui por ti chamado?

Chica Valsa - Quero, ó Bitu, saber por quê

Lá em Maria Angu você

Me injuriou num papelucho!

Pois tu não sabes, meu Bitu

Que sem dinheiro não podias tu

Agüentar tamanho repuxo?

Bitu - Oh! Não me digas isso, não!

Eu te adorava, coração!

Se dispensasses tanto luxo,

Se não andasses tão liró,

Podias tu ser minha só!

Se bem que pobre como Jó,

Eu agüentava tal repuxo!

Chica Valsa - No peito meu rebenta uma esperança!

Inda és o mesmo, eu logo vi!

Meu coração enfim descansa!

Saudades tuas tive em França...


Bitu - Se tais saudades mereci,

Não me trouxeste uma lembrança?

Chica Valsa -Nem mesmo numa sepultura

Eu poderia me esquecer de ti;

Trouxe-te uma abotoadura...

Bitu - Oh! não me digas isso, não!

Talvez custasse um dinheirão!

Chica Valsa - Oh! não!

Bitu - Não me esqueceste, oh! que ventura!

É teu de novo o meu amor!

É tua a pena do escritor

E a tesoura do redator!

Eis-me a teus pés, ó minha flor!

- Mostra-me a tal abotoadura!

Cena VIII Editar

Os mesmos, Genoveva, depois Clarinha

Genoveva (Entrando.) Minh’ama! Minh’ama!

Chica Valsa (Dirigindo-se a ela.) - Que temos?

Genoveva (Baixo.) - Aquele home, Escrivão de sinhô Sampaio, falou à preta velha que acompanhou aquele moço, depois foi muito apressado dizer não sei o quê a Sinhô Sampaio e Todos dois vêm aí. Sinhô Sampaio estava no Largo do Rossio. Vem furioso!

Chica Valsa (À parte.) - Fazer sair Bitu? Não! Há tão pouco tempo chegou... Ah! (Chamando.) Clarinha! Clarinha!

Bitu (À parte.) - Clarinha! Que coincidência de nomes!

Clarinha (Entrando.) - Que é?

Bitu - Que vejo! Ela!

Clarinha - Ah!

Chica Valsa - Conhecem-se?

Genoveva - Minh’ama, ele aí chegam.

Chica Valsa (A Clarinha e Bitu.) - Por favor, não me desmintam! A tudo quanto eu disser, Ora pro nobis; confirmem, ou estou perdida!

Clarinha E Bitu - Perdida!

Chica Valsa - Silêncio!

Cena IX Editar

Os mesmos, Sampaio, o Escrivão

Sampaio (Entrando, zangado.) - Sei tudo! Sei tudo!

Chica Valsa - Que isto quer dizer?

Sampaio - Sei que a senhora e este senhor entendem-se perfeitamente!

Clarinha (À parte.) - Hein?

Sampaio - E que o recebeu em sua casa, isto é, em minha casa!

Clarinha - É só isso? É verdade que recebi este senhor em minha casa!

Sampaio - Minha! La maison est de moi! Je suis le subdelegué qui mande ici!...

Chica Valsa - Esta senhora é a minha melhor amiga. O Senhor Ângelo Bitu ama Dona Clarinha Angu, e é correspondido. Eu quis aproximá-los... (Baixo.) e malograr o seu intento, percebe?...


Quinteto

Sampaio - Hein?

Escrivão - Ih!

Sampaio - Oh!

Clarinha - Eu cá zombar não quis...

Chica Valsa - Se o senhor de mim desconfia,

Faz-me chegar a mostarda ao nariz!

Sampaio - Pois bem! que jure aqui reclamo

Que gosta do Bitu!

Clarinha - Já que assim quer, eu lhe juro que o amo!

Chica Valsa (À parte.) - A pobrezinha corada ficou,

Repetindo tais c’raminholas!

Escrivão( À parte.) - Vai dizer que sou um bolas!

Sampaio (A Bitu.) - E você lá, seu redator,

Aqui só está por causa dela?

Bitu - Juro, caríssimo senhor,

Que aqui vim ver a minha bela!

Escrivão -Uh!

Chica Valsa - Meu caro senhor, é por ela

Que se acha aqui Nhonhô Bitu,

E não foi senão para vê-la

Que ele deixou Maria Angu.

Juntos - Meu caro senhor, é por ela, etc.

Sampaio e Escrivão - Pois não será por causa dela

Que se acha aqui Nhonhô Bitu!

Foi para ver a tal donzela

Que ele deixou em Maria Angu.

Bitu e Clarinha - Não, não senhor, não é por ela

Que se acha aqui Nhonhô Bitu!

{vê-la e dar-lhe trela

Foi para {

{ ver-me e dar-me trela

Que lá deixei }

} Maria Angu!

Que ele deixou }

Sampaio (A Clarinha) - Mas não! Com Barnabé casar-se deveria!

Zombando estão de mim!

Chica Valsa - Aí com que perfeição

Mente aquele ladrão!

Sampaio - Isso é sério?

Bitu - Sério sou!

Escrivão (À parte.) - O pobre diabo acreditou!

Todos - A coisa está patente!

A Chica tem razão!

Não pode tanta gente

Fazer combinação!


Sampaio - Seu Escrivão, que diz a isto?

Você é um bolas, um grande animal!

Escrivão - Perdão! Enganei-me, está visto...

Julguei mal...

Eu fiz uma apreciação falsa...

Mas vendo estou....

Sampaio - Que vês tu?

Escrivão - Que a Senhora Chica Valsa

Não faz caso do Bitu!

Chica Valsa - Ora aí está que sem malícia

Me defende este Escrivão!

O Escrivão é da polícia;

Tem valiosa opinião.

Todos - Ora aí está que sem malícia

Me defende este Escrivão, etc.


Sampaio - Está tudo acabado! (Estendendo a mão a Bitu.) Seja meu amigo.

Bitu (Apertando-lha.) Obrigado, senhor.

Sampaio (Ao Escrivão.)- Você é um bolas, seu Escrivão!... Vá se deitar...

Escrivão - As ordens de Vossa Senhoria serão cumpridas à risca. (Vai saindo.) Sobem a escada...

Chica Valsa - Serão já os rapazes?

Escrivão - É o mestre barbeiro Barnabé. (À parte.) Decididamente, todo o Angu mudou-se para esta casa. (Sai.)

Chica Valsa - É o Barnabé!

Clarinha - Meu noivo!

Chica Valsa - É preciso que ele não te veja! (Conduzindo Clarinha e Bitu à direita.) Entrem para a sala de jantar. (Bitu e Clarinha saem.) Oh! que idéia! É preciso desfazermo-nos deste Barnabé! Já nem me lembrava dele! Clarinha deve pertencer-me! (A Sampaio.) Dê-me o seu apito.

Sampaio - Para quê?

Chica Valsa - Não ouve? Sampaio dá-lhe um apito, Chica Valsa tira uma pulseira do braço.)

Cena X Editar

Os mesmos, Barnabé, depois dois Urbanos

(Música na orquestra.)

Barnabé (Sempre com a mala.)- Com licença! Já vim das figuras de cera. Mal empregados cinco tostões. Onde está minha noiva? (Enquanto Barnabé fala, Chica Valsa mete-lhe a pulseira no bolso: depois corre ao fundo e apita.)

Sampaio - Que é isto?

Barnabé - Que quer isto dizer?

Chica Valsa (Gritando.) - Um gatuno! um gatuno!...

Barnabé - Onde está o gatuno, minha senhora? onde está o gatuno? Socorro! pega! Pega!... (Entram dois Urbanos.)

Chica Valsa (Aos Urbanos, mostrando Barnabé.) - Camaradas, este homem introduziu-se em minha casa; é um gatuno! Vejam se ele não tem no bolso uma pulseira! (Os Urbanos revistam os bolsos de Barnabé.)

Barnabé - Mas que é isto?! eu não sou gatuno!... Não me meta a mão no bolso! Onde já se viu isto?!...

Chica Valsa - Prendam-no! (Os Urbanos acham a pulseira e entregam-na a Chica Valsa.)

Urbanos - Venha... venha! (Desembainham os refes e arrastam Barnabé para fora. Cessa a música.)

Sampaio (À parte.) - Esta mulher é da pele do diabo! Eu safo-me, senão é capaz de me mandar também para a cadeia! (Sai apressado.)

Chica Valsa - Venham... venham...

Clarinha (Entrando.) - Dali vimos e ouvimos tudo.

Bitu (Entrando.) - Para que prendê-lo?

Clarinha - Que prisão esquisita!

Chica Valsa (À parte.) - É quase meia noite: os rapazes não tardam... (Genoveva entra.) Clarinha, vai com a criada. Genoveva, leva esta moça para a saleta, onde passará a noite.

Bitu (Á parte.) - Ela vai dormir aqui?!

Chica Valsa - Deita-te, dorme bem, a amanhã conversaremos.

Cena XI Editar

Chica Valsa, Bitu

Chica Valsa - Eis-nos sós. Não percamos tempo! Sabes jogar o bacará?

Bitu - Por quê?

Chica Valsa - Responde! anda!...

Bitu - Eu sei jogar tudo, desde o burro e o pacau até o xadrez.

Chica Valsa - Tens dinheiro? (Bitu coça a cabeça.) Empresto-te duzentos mil réis. (Dá-lhos.) Estás numa casa de jogo; não sabias?

Bitu - Deveras?

Chica Valsa - Quero-te ao pé de mim, e só jogando poderei consegui-lo... Depois, acharei meio de me ver livre do Sampaio.

Bitu - Bem.

Chica Valsa (Com mistério.) - Eles aí vêm.

Bitu - Eles quem?

Chica Valsa - Os parceiros... Vem comigo... (Saem.)

Cena XII Editar

Sota-E-ÁS, Jogadores, depois Chica Valsa, Bitu

(Sota-e-ás e Os Jogadores trazem Todos suíças postiças, casacões e bengalas.)

Coro - Dizem que é vício

Jogar, mas é

Amargo ofício,

Penoso até!

Dá-nos canseira,

Faz-nos suar

A noite inteira

Aqui passar!

A morcegada,

Que é muito sagaz,

Anda assanhada,

De pé atrás...

Estas suíças

É convenção

Trazer postiças

E casacão

Chica Valsa (Entrando.) Vêm disfarçados que faz gosto vê-los!

Sota-E-ÁS - Sim! sim! de jogadois nós somos os modeios!

Ente nós, ente nós não há nenhum potão!

Bitu (Entrando.) - Inda bem!

Os Jogadores - Céus! (Procuram esconder-se.)

Chica Valsa - Não tenham medo, não!

(Apresentando Bitu aOs Jogadores.)

Ora aqui têm mais um parceiro!

Não joga mal, mas tem dinheiro...

Vamos jogar! Fora a preguiça!

Então! Então!

Cartas na mão!

Sota - Mas ei não tem casacão...

Não tem também baba potiça...

Os Jogadores - Mas ele não tem casacão...

Não tem também barba postiça..

Dizem que é vício

Jogar, mas é, etc.

Cena XIII Editar

Os mesmos, Clarinha, depois As Cocotes

Clarinha (A Chica Valsa.) - Enfim te encontro!

Os Jogadores - Uma moça!

Chica Valsa - Imprudente!

Que vens aqui fazer?

Clarinha - Prevenir-te que vi

Pelos vidros da janela muita gente

E algUns Urbanos que vêm para aqui!

Os Jogadores -Os Urbanos, oh, céus!...

Oh, meu Deus! oh, meu Deus!...

As Cocotes (Entrando assustadas.)

- A casa está cercada! a fuga é impossível

A gente toda é presa

E vai para a estação!

Ah! meu Deus! Com certeza

Temos multa e prisão!

Sota - Pisão!

Todos Pisão!

(Apitos fora.)

Chica Valsa - Não! Não! Não! Não!

Ninguém vai para a prisão!

Todos - Como assim?

Chica Valsa - O caso é já, neste momento,

Improvisar um casamento!

(Apontando para Bitu e Clarinha.)

E os noivos, ei-los aqui estão!

(AOs Jogadores.) Mas essas barbas? Visto

Está que nos denunciarão!

Sota - Pa não imos para a prisão,

É já escondê tudo isto!

Os Jogadores - É já esconder tudo isto!

(Durante o Coro que se segue, Sota-e-ás e Os Jogadores tiram e escondem os casacões, os chapéus, as barbas e as bengalas. Dois criados entram, e levam para dentro Todos os móveis.)

Coro de Urbanos(Fora.) - Quem estiver aqui jogando

Pra estação vai já marchar!

Guerra a vício tão nefando!

Guerra, guerra a quem jogar!


Chica Valsa (Declamando.) Eles aí vêm! Vamos, senhores, tirem pares para uma Valsa!

(Valsa com Sota-e-ás.) Valsai! Valsai!

Não parar nem um segundo!

Os desgostos deste mundo

A Valsar olvidai!

Valsai!

Todos (Valsando.) - Valsai! Valsai!, etc.

Cena XIV Editar

Os mesmos, umA Autoridade, Urbanos

Urbanos - Quem estiver aqui jogando, etc.

Chica Valsa - Queiram dizer o que desejam.

A Autoridade - Os Jogadores que aqui estão!

Chica Valsa - Jogadores aqui não sei quais sejam!

Temos dois noivos... estes são!

(Mostra Bitu e Clarinha.)

Tivemos hoje um feliz casamento,

E o nosso baile vem cá perturbar!

porém não damos cavaco um momento.

E os convidamos até pra dançar!

Aos bons Urbanos

Nós, os paisanos,

Urbanamente queremos tratar...

Escolham pares,

E aos calcanhares

É dar sem dó.

(Á autoridade.) - Eu serei o seu par.

(Valsa com A Autoridade, enquanto os Urbanos Valsam com algumas dAs Cocotes.)

Coro - Valsai! Valsai!, etc.

Clarinha (Valsando com Bitu.)- Como isto é bom! Valsemos mais depressa.

Bitu - Dize, ó Clarinha, que me queres bem!

Clarinha - Teu desespero, benzinho, não cessa!

Sou tua, tua, e de mais ninguém!

Chica Valsa (Que ouviu.) - Será possível

(Deixa seu par.)

A Autoridade (Valsando só.) -Diga o que tem!

Chica Valsa - Eu... eu...

A Autoridade - Se quer, eu pararei também...

Chica Valsa (Disfarçando.) - Oh! céus! que vejo!

(Reparando nalguma coisa na sobrecasaca dA Autoridade.)

Um percevejo!

(À parte.) - Traída fui, mas eu me vingarei!

Vingada, sim, serei!...

Coro - Valsai! Valsai! etc.

(Valsa geral e muito animada.)


[(Cai o pano.)]