A Moça Mais Bonita do Rio de Janeiro/XI

A Moça Mais Bonita do Rio de Janeiro por Artur de Azevedo
Capítulo XI


— "Remígio!... Meu Remígio!..." - essas palavras proferidas inconscientemente no delírio da febre não saiam do espírito do barão de Moreira, ferido por um sentimento amargo, que não sabia bem se era o ciúme ou o amor-próprio ofendido.

Ele interrogava todos os escaninhos da alma, e já supunha transformado em verdadeiro amor o frívolo capricho que o fizera noivo. Procurava iludir-se, buscava convencer-se de que o "Remígio!... Meu Remígio!..." era uma frase insignificante, sem a menor importância; mas a triste verdade aparecia-lhe em toda a sua nudez, e o negociante rememorava a noite em que Fadinha, num assomo de despeito, produzido por circunstâncias misteriosas, cedendo, talvez, aos rogos dos parentes, lhe oferecera a mão de esposa, antes mesmo que ele a pedisse.

Todavia, esta lembrança dolorosa, este azedume d'alma, em vez de o afastar da idéia do casamento, mais o impelia para ela; o seu orgulho, o seu prazer, a sua vitória seria conquistar, com o seu próprio merecimento, a formosa mulher que ia ser sua e o não amava ainda; seria disputá-la ao pobre amanuense indigno dela, exibi-la aos olhos da sociedade como um troféu glorioso, dar àquele belo quadro a moldura do ouro que lhe convinha.

O mísero deitou-se, mas não pôde conciliar o sono. Duas coisas o agitavam: a doença de Fadinha, que se apresentava com um caráter inquietador, e aquela frase proferida pelos seus lábios em febre: "Remígio!... Meu Remígio!..." Ela ia entregar-lhe um corpo vendido; o coração ficava com outro homem...

Tinha agora uma profunda inveja do seu rival, e uma dor, ainda mais profunda, causada pela injustiça da preferência da moça. O Remígio não era bonito, nem elegante, nem rico, nem talentoso, nem titular - por que era o preferido? - E sentia pelo amanuense uma espécie de ódio. Tinha ímpetos de sair para a rua àquela hora, procurá-lo, assassiná-lo, vingando-se daquela frase terrível: "Remígio!... Meu Remígio!..."

Seriam três horas da madrugada quando o barão afinal adormeceu; mas logo um pesadelo horrível o despertou de novo. Fadinha apareceu-lhe, mais formosa que nunca, nos braços de Remigio, lançando-lhe motejadores olhares, soltando gargalhadas irônicas. Remígio, que o barão não conhecia, tinha no sonho a figura de um gigante espadaúdo e musculoso, contra o qual seria baldada qualquer violência; entretanto, o noivo cresceu para ele, oferecendo-lhe combate. Remígio empurrou-o desdenhosamente com o pé, e, vendo-o por terra, pisou-o como um elefante pisaria um cão. O desgraçado sentia-se esmagar por aquele peso; nada lhe doía, mas faltava-lhe a respiração, e não podia mover-se nem gritar.

Despertou alagado em suor, opresso, aniquilado de vergonha pela humilhação que passara, embora em sonho. Dirigiu-se a um magnífico banheiro de mármore e tomou um banho frio; depois, vestiu-se e saiu para a rua, errando ao acaso, até que deu consigo na estação da estrada de ferro. Sentia-se agora tomado de um desejo súbito e imperioso de ver Fadinha, e estreitá-la nos braços, dizendo-lhe: Amo-te! Quero que sejas minha, só minha, exclusivamente minha!...

Quando chegou à casa da noiva, encontrou de pê d. Firmina, que o recebeu surpresa e contente: já não contava com ele.

— Então?

— Passou muito mal a noite... Queixando-se de muitas dores na garganta e nas cadeiras... muito agitada... muito nervosa...

— E a febre?

— Não diminuiu, mas também não aumentou.

Daí a instantes entrava o médico.

— Então, doutor? - perguntou d. Firmina depois que o velho clínico examinou a doente.

— Minha senhora, aquela febre tem todo o caráter de eruptiva.

— Eruptiva! - exclamou o barão.

— Sim, podem ser sarampos... mas também podem ser bexigas... Elas têm andado cá pelo bairro... Mas não se aflijam... Talvez sejam benignas... Não há de ser nada...