A Mulher de Preto/IX

Estevão sahio da casa da viuva agitado por diversos sentimentos, com passo tremulo e a vista turva. A conversa com a viuva fôra um longo combate; a ultima promessa foi um golpe decisivo e mortal. Estevão sahia d’alli como um homem que acabava de matar as suas esperanças em flôr; caminhava ao acaso, precisava de ar e queria metter-se em um quarto sombrio; quizera ao mesmo tempo estar solitario e no meio de immensa multidão.

No caminho encontrou Oliveira, o poeta novel.

Lembrou-se que a leitura da comedia impedíra a remessa da carta, e portanto poupou-lhe um tristissimo desengano.

Estevão involuntariamente abraçou o poeta com toda a effusão d’alma.

Oliveira correspondeu ao abraço, e quando pôde desligar-se do medico, disse-lhe:

— Obrigado, meu amigo; estas manifestações são muito honrosas para mim; sempre te conheci como um perfeito juiz litterario, e a prova que acabas de dar-me é uma consolação e uma animação; consola-me do que tenho soffrido, anima-me para novos commettimentos. Se Torquato Tasso.....

Diante d’esta ameaça de discurso, e sobretudo vendo a interpretação do seu abraço, Estevão resolveu-se a continuar caminho abandonando o poeta.

— Adeos, tenho pressa

— Adeos, obrigado!

Estevão chegou á casa e atirou-se á cama. Ninguem o soube nunca, só as paredes do quarto forão testemunhas; mas a verdade é que Estêvão chorou lagrimas amargas.

Emfim que lhe dissera Magdalena e que exigíra d’elle?

A viuva não era viuva; era mulher de Menezes; viera do Norte mezes antes do marido, que só veio como deputado; Menezes, que a amava doudamente, e que era amado com igual delirio, accusava-a de infidelidade; uma carta e um retrato erão os indicios: ella negou, mas explicou-se mal; o marido separou-se e mandou-a para o Rio de Janeiro.

Magdalena aceitou a situação com resignação e coragem: não murmurou nem pedio, cumprio a ordem do marido.

Todavia Magdalena não era criminosa; o seu crime era uma apparencia; estava condemnada por fidelidade de honra. A carta e o retrato não lhe pertencião; erão apenas um deposito imprudente e fatal. Magdalena podia dizer tudo, mas era trahir uma promessa; não quiz; preferio que a tempestade domestica cahisse unicamente sobre ella.

Agora, porém, a necessidade do segredo expirára; Magdalena recebeu do Norte uma carta em que a amiga, no leito da morte, pedia que inutilisasse a carta e o retrato, ou os restituisse ao homem que lh’os dera. Esta carta era uma justificação.

Magdalena podia mandar a carta ao marido, ou pedir-lhe uma entrevista; mas receiava tudo; sabia que seria inutil, porque Menezes era extremamente severo.

Víra o médico uma noite no theatro em companhia de seu marido; indagára e soube que erão amigos; pedia-lhe pois que fosse mediador entre os dous, que a salvasse e que reconstruisse uma familia.

Não era pois sómente o amor de Estevão que soffria; era tambem o seu amor-proprio. Estevão facilmente comprehendeu que não fôra attrahido áquella casa para outra cousa. É verdade que a carta só chegára na vespera; mas a carta apenas vinha apressar a resolução. Naturalmente Madalena pedir-lhe-hia, sem haver carta, algum serviço análogo áquelle.

Se se tratasse de qualquer outro homem, Estevão recusaria o serviço que lhe pedia a viuva; mas tratava-se do seu amigo, de um homem a quem elle devia estima e serviços de amizade.

Aceitou, pois, a cruel missão.

— Cumpra-se o destino, disse elle; hei de ir lançar a mulher que amo aos braços de outro; e por desgraça maior, em vez de gozar com este restabelecimento de concordia domestica, vejo-me na dura situação de amar a mulher do meu amigo, isto é, de fugir para longe.....

Estevão não sahio mais de casa n’esse dia.

Quiz escrever ao deputado contando-lhe tudo; mas pensou que o melhor era fallar-lhe de viva voz. Embora lhe custasse mais, era de mais effeito para o desempenho da sua promessa.

Adiou, porém, para o dia seguinte, ou antes para o mesmo dia, porque a noite não lhe interrompeu o tempo, visto que Estevão não dormio um minuto sequer.