A Mulher de Preto/VIII

Estevão interrompeu violentamente a leitura, o que desgostou bastante ao poeta novel. O pobre candidato ás musas mal pôde balbuciar uma supplica; Estevão mostrou-se surdo, e o mais que lhe concedeu foi ficar com a comedia para lêl-a depois.

Oliveira contentou-se com isso; mas não se retirou sem recitar-lhe de cór uma falla do protogonista da tragedia, em versos duros e compridos, dando-lhe por quebra uma estrophe de uma poesia lyrica, no estylo dos Djinns de Victor Hugo.

Emfim sahio.

Entretranto havia passado o tempo.

Estevão releu a carta e quiz ainda mandal-a; mas a interrupção do poeta fôra proveitosa; relendo a carta, Estevão achou-a fria e nulla; a linguagem era ardente, mas não lhe correspondia ao fogo do coração.

— É inutil, disse elle rasgando a carta em mil pedaços, a lingua humana ha de ser sempre impotente para exprimir certos affectos da alma; tudo aquillo era frio e indifferente no que eu sinto. Estou condemnado a não dizer nada ou a dizer mal. Ao pé d’ella não tenho forças, sinto-me fraco.....

Estevão parou diante da janella que dava para a rua, no momento em que passava um antigo collega d’elle, com a mulher de braço, a mulher que era bonita, e com quem se casára um mez antes.

Os dous ião alegres e felizes.

Estevão contemplou aquelle quadro com adoração e tristeza. O casamento já não era para elle aquelle impossível de que fallava quando apenas tinha idéas e não sentimentos. Agora era uma ventura realisavel.

O casal que passára dera-lhe nova força.

— É preciso acabar com isto, dizia elle; eu não posso deixar de ir áquella mulher e dizer-lhe que a amo, que a adoro, que desejo ser seu marido. Ella amar-me-ha, se já me não ama: sim, ama-me....

E começou a vestir-se.

Quando calçava as luvas e lançava um olhar para o relogio, o criado trouxe-lhe uma carta.

Era de Magdalena.

« Espero, meu caro doutor, que não deixe de vir hoje; esperei-o hontem em vão. Desejo fallar-lhe. »

Estevão acabou de ler este bilhete na escada, com tal pressa descia e tal urgencia tinha de achar-se em casa da viuva.

O que elle não queria era perder aquelle assomo de coragem.

Partio.

Quando chegou á casa de Magdalena achava-se esta á janella. Recebeu-o com a costumada affabilidade. Estevão desculpou-se como pôde por não ter podido vir na vespera, accrescentando que só com desgosto do seu coração havia faltado.

Que melhor occasião do que era essa para lançar a bomba de uma declaração franca e apaixonada? Estevão hesitou alguns segundos; mas tomando animo, ia continuar o periodo, quando a viuva lhe disse:

— Estava anciosa por vêl-o para communicar-lhe uma cousa de certa importancia, e que só a um homem de honra, como o senhor, se póde confiar.

Estêvão empallideceu.

— Sabe onde foi que eu o vi pela primeira vez?

— No baile de***.

— Não; foi antes d’isso; foi no theatro Lyrico.

— Ah!

— Lá o vi com o seu amigo Menezes.

— Fomos algumas vezes lá!

Magdalena entrou então em uma longa exposição, que o rapaz ouvio sem pestanejar, mas pallido e agitado por commoções intimas. As ultimas palavras da viuva forão estas:

— Bem vê, senhor; cousas destas só uma grande alma póde ouvil-as. As pequenas não as comprehendem. Se lhe mereço alguma cousa, e se esta confiança póde ser paga com um beneficio, peço-lhe que faça o que lhe pedi.

O medico passou a mão pelos olhos, e apenas murmurou:

— Mas.....

N’este momento entrava na sala o filhinho de Magdalena; a viuva levantou-se e trouxe-o pela mão até o lugar onde se achava Estevão Soares.

— Se não por mim, disse ella, ao menos por esta criança innocente!

A criança, sem nada comprehender, atirou-se aos braços de Estevão. O moço deu-lhe um beijo na testa, e disse para a viuva:

— Se hesitei não foi porque duvidasse do que a senhora acaba de contar-me; foi porque a missão é espinhosa; mas prometto que hei de cumpril-a.