A Viúva Simões/VIII

A Viúva Simões por Júlia Lopes de Almeida
Capítulo VIII

A Simplícia aproveitava a ausência de Ernestina, enchendo-se de goiabada, queijo do Reino e cálices de licor, muito bem repimpada numa cadeira da sala de jantar. Sara conversava com a amiga na casa vizinha, Augusto fora à cidade, a Ana estava no tanque às voltas com a roupa e a Benedita cochichava com o hortelão lá para os fundos da casa; podia estar tranqüila.

A Simplícia arremedava a senhora na maneira de estar à mesa, movia com delicadeza o cálice e dava dentadinhas pequenas no doce, sorrindo sua finura, a remoer idéias.

A tola Iaiá estava-lhe nas unhas. Conhecera-lhe o seu amor por Luciano desde o primeiro dia... não que ela não tinha só habilidade para encontrar as coisas que as outras perdiam, nem para subtrair das gavetas moedinhas e fitas... Ria-se da cegueira de Sara... ainda havia de ser ela quem lhe abrisse os olhos!...

Os cálices de licor sucederam-se até cair do frasco a última gota. Que estupidez! Ela ainda tinha tanta goiabada no prato... lembrou-se do cognac. Foi ao armário, mas deu-lhe uma tontura; o chão fugia-lhe embaixo dos pés, o guarda pratos inclinava-se, a mesa recuava, as cadeiras tomavam atitudes de dança e as aves mortas dos quadros das paredes agitavam-se todas, sacudindo as penas.

- Uê! exclamou a mulatinha, esfregando os olhos; e demorou-se, percebendo a verdade, com tato bastante para esconder a garrafa e levá-la para o quarto... Beberia à noite, na cama. Não lhe convinha embebedar-se de dia; e foi pedir à Benedita uma xícara de café. Estava com uma enxaqueca!

Quando Ernestina entrou, a Simplícia correu a tirar-lhe o chapéu e guardar as luvas. Ernestina deu-lhas maquinalmente.

- Então, Iaiá, me deixa ir na festa?

- Não.

- Por quê?... Seu Luciano não quer?

Ernestina deu um salto, assustada; sem atinar com o que dissesse, repetiu:

- Seu Luciano!

- Sim, senhora... pois então ele não está para casar com a senhora?

- Estás doida! Cala-te; repreendeu a viúva, mas a Simplícia ajuntou com ar malicioso:

- Iaiá não se zangue não... mas eu vi outro dia seu Luciano dar um beijo na senhora... lá na sala... perto da janela... Eu não conto nada a nhá Sara... mas a senhora há de me deixá i na festa...

Ernestina estava vencida; entretanto levantou-se, colérica, erguendo a mão para bater na negrinha. Àquela ameaça Simplícia saltou:

- Iaiá, já não sou sua escrava! Se a senhora não me fizé as vontades eu juro em como vou direitinha dizê tudo a nhá Sara: que seu Luciano tem raiva dela, e que dá beijinhos na senhora!...

O licor fazia-a ir muito mais longe do que premeditara; a cabeça girava-lhe ainda um pouco e ela não podia conter a língua. Via o seu erro, mas já não o sabia emendar; declarara tudo; tinha um plano antigo: ir confidenciando aos caixeiros das vendas o segredo da ama... e ser a primeira a declará-lo a Sara, se Ernestina não lhe desse consentimento para ir à festa, e ainda mais dinheiro e mais ainda a ordem para que a acompanhasse o Augusto!

A viúva estava aterrada, com medo de levantar um escarcéu despedindo a rapariga e sem vontade de lhe fazer o gosto. Mas a mulata venceu; e ainda Ernestina lhe pôs nas orelhas uns brincos de coral e nas mãos uma nota de dez mil réis.

- Vai...

Ernestina chorou de raiva. Por ela, chamaria imediatamente Sara, e diria toda a verdade; mas Luciano opunha-se a isso tenazmente e ela mesmo esperava fazê-lo quando o visse mais propenso a estimar a filha. O seu terror agora era que Sara viesse a saber de tudo pela boca asquerosa da mulata.

Resolveu mandá-la passar um tempo em Friburgo, com a tia Mariana, viúva de Gustavo Ferreira. Naqueles dias ao menos estaria livre de qualquer intriga ou revelação desagradável. Escreveu a Luciano largamente. Pedia que decidisse o casamento. A convivência fá-lo-ia depois amar a enteada. A seu ver, Luciano não esperava outra coisa senão vencer a antipatia pela pequena...

No dia seguinte a Simplícia, toda vestida de branco, com fitinhas verdes, descia o jardim ao lado do Augusto, muito sério e bem arranjado.

A Benedita acompanhava-os com a vista, e quando eles, embaixo, abriram o portão, ela disse alto, em cima sacudindo no ar a mão engordurada:

- Sapeca do diabo! Que boasova!