Ambições/XVII

XVII


Quando os viscondes, com João e Bella, entraram na sua frisa no D. Amelia, a sala tinha o aspecto buliçoso e alegre das grandes noites de enchente. Já no vestibulo os homens quasi se esmurravam, apesar de apparencias de cortezia, junto do cubiculo do bengaleiro que não tinha mãos a medir para guardar abafos e bengalas.

Alguns, mais impacientes, não duvidavam empurrar as senhoras que aguardavam os maridos para entrar na sala, com o desplante que geralmente usam os homens quando o egoismo os mostra tal qual os tem feito seculos de supremacia social e que torna identicos em todas as classes os processos que usam para se desembaraçarem de importunos.

Toda essa multidão, partindo do vestibulo, se escoava pelas portas e corredores, apressando-se a occupar o seu logar antecipadamente obtido e acariciado como sonho que a fortuna realisára. O pittoresco e o brilho d’esses espectaculos, muito caros e de pouco interesse para o vulgo, accentuavam-se nas poucas noites em que a Duse se apresentava ao publico de Lisboa, ávido de se mostrar á altura da civilisação que lá fóra consagrára a grande actriz.

Não havia logares inferiores, de cima a baixo todos representavam um preço que não admittia a blusa do operario e o vestidinho domingueiro da costureira ou o côco dos pequenos burguezes, bem indifferentes de resto a acontecimentos artisticos, para os quaes lhes falta a educação esthetica.

As casacas pretas crusavam-se nos corredores do terceiro andar como nos do primeiro, e senhoras conhecidas na sociedade, que não tinham podido obter melhores logares, riam de se encontrarem nas varandas com artistas, principalmente litteratos novos, cujas bolsas lhes não abonavam mais commodo logar para satisfazer a necessidade intellectual de ouvir e vêr a genial artista, faziam uma festa picante, com sabôr a extravagancia, d’essa invasão elegante em todo o theatro.

A cada momento se abriam portas de camarotes, e mulheres meio-vestidas de gala, refulgentes de pedrarias, vinham encostar ao parapeito carmezim da balaustrada os braços enluvados. O ruído das conversas enchia a casa de um rumorejar de colmeia e os leques agitavam-se como azas palpitantes de loucas phalenas nocturnas que a luz atrae e queima. Sentia-se uma atmosphera quente de primavera que já floria os primeiros lilazes e enverdecia as arvores do passeio sem embargo da chuva que todo esse inverno se mostrara, com raros intervallos, irritante pela persistencia.

Os homens na plateia voltavam as costas ao proscenio, passavam em revista as espectadoras, punham o monoculo e acariciavam o bigode, sorrindo, satisfeitos, do mundo e de suas pessoas. Outros discutiam politica, liam os jornaes da tarde, ou amodorravam-se nas cadeiras ao lado das esposas.

Como nessa tarde fôra a primeira toirada da época, que terminára sob uma forte batega de agua, espessa como fumo, que n’um abrir e fechar d’olhos evacuára a praça, contavam-se incidentes picarescos da volta sob a chuva violenta que não admittia chapéos e cegava os que na lucta por americanos e carros tinham ficado vencidos, tendo de esperar em qualquer abrigo de porta ou resolver-se a aguentar o peso d’agua caminho de suas casas. Discutia-se Guerrita, que não estivera nas suas melhores tardes de sorte; fallava-se na Duse, que alguns já tinham visto lá fóra, que outros ardiam por vêr, dispostos a acharem extraordinaria essa notabilidade que uma fama universal precedia — Messias de uma arte nova, toda feita de verdade flagrante, commovendo com lagrimas e alegrando com risos copiados da sua maneira de sentir a vida, gritos arrancados ás suas proprias dôres, gestos usados nas scenas reaes em que a superioridade intellectual da artista apreende e estuda no corpo da mulher que a materia despoticamente reivindica.

Sarah, a sacerdotisa — magna, amada sobre todas, vinha aos labios dos fanaticos como um desafio á tragica italiana. Os que as conheciam, a ambas, discutiam apaixonadamente, ora dando a supremacia áquella que na sua voz cantada no ritmo da phrase, no choro contido a custo, consegue hypnotisar a multidão, vencer o bom senso que requer a verdade, subjugar os profanos e os descrentes até que o seu fragil corpo se estorça em gritos que arrepanham a alma, que a esfrangalham n’uma lancinante espectativa e lha atiram aos pés, frenetica de applausos, para se não dar em lagrimas e contorsões de hystería.

Outros desdenhavam a francêsa, vantajosamente apresentada a um povo que vive intellectualmente da França, copiador servil dos seus modelos, e aclamavam como a maior de todas, a mulher de verdade que a Duse se mostra, fazendo do palco uma escola de anatomia em que a sua alma escalpella com a precisão scientifica de um operador retalhando fibra a fibra o corpo que a doença ou a morte lhes trouxeram á mesa das operações.

Na frisa da direita, onde a Viscondessa e a amiga se sentavam entre os maridos, discutira-se arte, evocara-se nomes e situações em que os artistas favoritos se excediam a si proprios, e Bella lembrára Novelli, o artista que para ella, mais ainda do que a Duse, realisava o supremo ideal da arte moderna, a verdade, que é para os nossos espiritos fatigados de sentir e soffrer pela imaginativa o oasis onde nos comprazemos em descançar das orgias poeticas e romanticas de ha vinte annos.

Mas o Visconde não se sentia n’essa noite disposto a conversas que exigissem esforço de maior attenção, e a meia voz, n’uma visivel sobre-excitação de nervos que se mascarava em risos, notava figuras, recordava escandalosinhos que andavam na boca de todos, contava casos que faziam sorrir os companheiros, principalmente na descripção dos raouts que esse inverno inaugurára o Maximiano e onde os jornaes do high-life diziam encontrar-se quanto ha de mais selecto na nossa melhor roda.

— «A nossa é a d’elles, jornalistas — ria com soberano despreso — O que os faz enternecer é a abertura do bufete á meia noite e a possibilidade de um empregosinho disfarçado...

— «Temos então o Maximiano singrando com vento de feição no mar largo das grandezas?! Como a conselheira não exultará com a civilisação britannica das suas reuniões da moda!... — commentou João.

— «É plantio d’estaca, ainda está longe da floração...

— «É ridicula esta gente na sua mania imitadora! — disse, séria, a Viscondessa. — Nem o nosso meio, nem a educação, nem as fortunas, comportam essas festas inventadas pela aristocracia de Londres, que em divertimentos como em negocios não pode esbanjar tempo, e que n’um mesmo dia tem que assistir a muitas reuniões, sob pena de deserção.

— «Mas se o nosso feitio é de perpetuos imitadores, que se lhe hade fazer? Já nos não contentâmos em imitar a França, invadimos agora a nossa perfida alliada, que qualquer dia reclama por indemnisação e contribuição de guerra qualquer das nossas possessões... Com perdão de V. Ex.ᵃ, minha querida prima inglêsa!...

— «Só meia inglesa, meu caro Visconde, e não tiro d’isso motivo de orgulho superior ao de ser portuguêsa...

— «Pois nem todos dirão o mesmo, quantas pessoas desejariam ter uma costellasinha de qualquer país estrangeiro para maior lustre e chic dos seus nomes!...

— «Não vi ainda a Candida — reparou a Viscondessa. — Não virá?

— «Hade vir, mas tarde, com os ares de soberana que se arroga...

— «O camarote está vasio.

— «Mais uma razão. Se ella não viesse já o Braga o teria occupado, para não perder tudo. Não encontrando a quem o passar, o que não seria facil a estas horas, viria elle mesmo, para tirar o seu rico dinheiro a limpo.

— «Pobre homem! Vocês riem-se d’elle e afinal é um bom marido, que faz tudo que a mulher deseja.

— «Oh prima, essa opinião é a das meninas lá da terra, por isso se desesperam de o não ter conquistado — sorriu João á convicta lamentação da Viscondessa.

— «Nem com todas teria a mesma docilidade. A Candida é uma força viva que não convem alienar a quem se arrisca por caminhos de que só a politica conhece as encrusilhadas.

Esta, como todas as outras phrases do Visconde, sahira lhe cortante de ironia, tão amarga, por intencional, que João e Bella se entreolharam surpresos da revelação. O ciume escancarava aquella alma que o estudo e o habito tinham conseguido conter na reserva que a essas ligações exige a hypocrisia social.

Ingenuamente, a Viscondessa continuou:

— «Não acredito nada d’isso que dizem; para que fosse verdade o ministro da fazenda estar ao dispôr do Braga pelo interesse que a Candida lhe inspira, seria preciso que ella o animasse.

— «Sei lá, mulheres!...

— «Nem todas são o mesmo. Apesar de coquette, creio bem que a Candida é honesta.

Para cortar a conversa que lhe indispunha os nervos e como que os tornava cumplices no engano em que a amiga se ridicularisava, Isabella perguntou se não era a baroneza d’Amieira que entrára na frisa correspondente á sua. Tomando habilmente a deixa, o Visconde desviou a conversa scintillante de espirito, exuberante de risos, que, bem observados, se sentiriam falsos e contrafeitos.

De instante a instante os seus olhos interrogavam, manifestamente impaciente, o camarote fronteiro, fechado até ahi com uma persistencia desesperadora.

Eram quasi horas de começar o espectaculo quando a physionomia se lhe illuminou n’um jubilo illimitado ao vêr a Candida apparecer, como que surgindo de entre as rendas da capa de baile, triumphante de belleza, irisante de pedrarias, n’uma opulencia de trajar que attrahiu todos os olhares. Da plateia muitos cumprimentos e sorrisos a procuraram como votivo incenso que se eleva do pó até ao throno das divindades, n’uma offerta de idolatria.

E o Visconde d’Alvora dizia bem alto a um grupo de amigos, cofiando o bigode e empertigando-se na ponta dos pés, — que jurava aos deuses ser a mulher mais linda que em sua vida conhecêra! Isto depois de ter viajado por toda a Europa e ter chegado de Hespanha enjoado, positivamente, de ver caras bellas. Palavra de honra, meninos!...

A campainha electrica deu o signal de se levantar o panno, e os homens, excepcionalmente, apressaram-se a occupar o seu logar antes de começar o espectaculo, o que fez com que a tragica podesse logo ser ouvida desde a primeira scena. Desempenhava n’essa noite o papel de Magda, a mulher soberba de independencia e energia que a traição e a infamia do homem, em vez de quebrantar em baixesas de victimas, faz erguer n’um protesto de indignação.

A actriz, soberana da Arte, dominando em todos os países onde o capricho de artista a leva, sublime bohemia, que o mundo aclama exaltado, faz vivo, arquejante de interesse, esse typo symbolico da mulher de que a sociedade fez uma revoltada e que uma vez lançada fóra do ramerrão comesinho da existencia burguesa, impossivel se lhe torna a vida entre os seus, cujas ideias a amesquinham e irritam, que ella propria escandalisa com as suas palavras e modos, de pessoa que conhece dos preconceitos sociaes o bastante para avaliar a sua hypocrisia.

Quando a Duse (Magda, a grande cantora) entra já fatigada da lucta embóra coroada de loiros em que o dinheiro lhe não faz mingua, mas soffrendo da miseria affectiva em que se vê, como filha espúria de um mundo feito de harmonia e amôr, e vem recorrer á familia, como fonte inesgotavel de carinho, apenas encontra estranheza e hostilidade...

É então que a artista se revella extraordinaria de sentimento, flagrantissima de psychologia feminina, mais ainda do que nas scenas violentas de paixão, reconhecendo quanto differe da pequena irmã que na sua ingenuidade lhe mostra o que já fôra e nunca mais poderá ser, fatal sciencia do mal que uma vez adquirida não mais se pode esquecer nem limpar da memoria.

Magda pensa com horror no brutal egoismo do amante que, fugindo como covarde á responsabilidade do crime, o faz recahir esmagadoramente sobre os hombros mais fracos da mulher, que deixa de ser cumplice para se tornar victima.

A Duse, encarnada n’esse papel, deixa de ser uma pessôa que representa a ficção alheia para se mostrar ella mesma, elevada e transfigurada pelo proprio esforço e talento; tão depressa carinhosa e dôce, como mãe que encontra um filho perdido, junto da irmã, recebendo-lhe as confidencias, revivendo n’ella o seu passado de pureza e sentindo a devastadora mágua dos factos irremediaveis; logo, ironica e vaidosa da leviandade que escandalisa as burguezas puritanas que frequentam a casa dos paes; cheia de nobre dignidade quando recusa o marido que lhe impõe o abandono do proprio filho em respeito ao mundo; extraordinaria de paixão, quando responde com o seu despreso de mulher que só o talento, e um feliz acaso da natureza que lhe deu uma garganta privilegiada, salvaram da miseria e da vergonha de que tantas outras, por desajudadas, se não podem mais erguer. Que lhe importa uma sociedade á qual nada deve?!...

Mas não se tem impunemente uma generosa alma de mulher sequiosa de affectos simples, não se é uma ingenua de que a vida fez uma sincera revoltada; o grito de dôr e de remorso que lhe arranca a subita morte do pae é tão humano e desesperadamente sentido que se fica na duvida se é realmente para applaudir se para retirar respeitosamente, com a commoção propria de quem assiste a um drama de familia.

Logo no primeiro acto, que terminou com ruidosa manifestação, chamadas e applausos delirantes, o visconde sahiu com João, mas appareceu pouco depois, já só, no camarote da Candida, que o Braga prudentemente deixára, protestando urgentes negocios que o chamavam ao jardim d’inverno, a fallar com uns amigos.

Retirados para a penumbra do camarote, reconhecia-se, pelo gesticular phrenetico do visconde, que era de importancia a conversa em que elle punha todo o ardôr da paixão e em que ella o ouvia sem deixar de sorrir vagamente no seu sorriso incolor de imagem.

A baroneza d’Amieira vira Isabela e perguntára duvidosa a mr. William, que a comprimentava na passagem, — se realmente era ella, a querida criança?!...

Á sua affirmação retrucou expansiva que lhe reclamava a companhia até á frisa dos viscondes. — Ha quanto tempo não via a Bellasinha! E mesmo Maria Helena havia muito se não encontrava senão em casa, e ella ultimamente tinha tido outros deveres nas suas noites.

Á entrada d’elles na frisa, onde já estavam o João e o Dr. Ramalho, a conversa animou-se com a discussão da these debatida no drama, que a baronesa achava de grande exagero. — Casada, a Magda seria uma mulher recebida na sociedade, respeitada por todos; mais tarde pensaria no filho...

Bella contestava com indignação, exaltava-se mesmo e parecia-lhe até impossivel que a baronesa, sinceramente despresadora de preconceitos, ainda tivesse tão injustas ideias, applaudisse tal hypocrisia.

— «O que quer, minha querida!? Embora se sinta que é injusto, é mais commodo pensar como toda a gente... Para que serve discutir e protestar? Se o mundo é o que é e não o que devia ser!

— «Mas é dever nosso, dos que pensâmos conforme a razão e aspirâmos á justiça, protestar, luctar pelo futuro — respondeu-lhe João sinceramente.

— «Admiro estes seus sobrinhos, mr. William, são dois verdadeiros apostolos, cheios de fé e de energia.

— «Por isso hãode triumphar, verá.

— «Tambem já o conquistaram, já lhe insuflaram no ânimo o fogo sagrado da nova religião?

— «Parece... e aconselho-a, Baronesa, se tem amôr ao actual estado de coisas, a fugir d’estes terriveis evangelisadores; são perigosos exactamente porque são convictos, o que é raro.

— «Crê que se vença porque se tem fé, tio? Eu, não; se assim fosse não veriamos triumphando tantos cynicos que abraçam qualquer religião, como qualquer ideia que lhes convenha aos seus fins.

— «Esses não têm fé em coisa nenhuma. Triumpham, é certo, mas a sua obra desmorona-se rapidamente, como edificio construido sobre lama. Só a obra dos verdadeiros crentes, dos sinceros, é que pode resistir e fructificar. Crês que fosse a ambição, o orgulho e a mentira dos padres, que fizeram do christianismo uma religião? Não, foi a humildade, a sinceridade e a fé dos convictos... É por isso que creio no futuro da vossa empresa e aconselho a Baronesa a fugir se não quer tornar-se tambem uma convicta...

— «Pois vou-me já, tomo o seu conselho, meu caro. Nada, que não quero dar aos meus conhecimentos o espectaculo grotesco de fazer dançar nos meus salões os criados da lavoura nem de medir pela mesma bitola a moral da cosinheira e a da grande dama...

— «A Baronesa a fingir-se o que não é! Todos sabemos que não ha ninguem melhor para os seus inferiores — contradictou Maria Helena.

— «Tratá-los bem, trato, mas julgá-los meus eguaes, com direitos e deveres como nós, isso, filho, é muito grande inovação para uma velha como eu.

— «Mas não é isso, cada um no seu logar, mas crédor do nosso respeito, tão superior no seu officio como nós no nosso.

— «Sim, eu vejo que a razão está do vosso lado. Mas... eu afinal de contas ainda me não dei mal com o mundo como elle está.

— «Para que V. Ex.ᵃ tenha essa consoladora phylosophia, quantos terão soffrido miserias inconfessaveis, quantos terão amaldiçoado mil vezes a hora em que nasceram!

— «Ora, querida Bella, se fossemos todos a pensar assim, não estaria aqui ninguem dos que deram o seu dinheiro para vêr a Duse.

— «Porque não? Se nós viemos e podémos dar um preço exagerado, porque temos necessidades de espiritos educados e possuimos fortuna para realisar o nosso gosto, justo é que os que menos tem egualmente possam frequentar divertimentos mais baratos e mais em harmonia com os seus gostos e conhecimentos.

— «Ahi está em contradicção, logo não somos todos eguaes, vê?!

— «Jesus, que confusão! Não queremos todos eguaes, queremos todos felizes, o que é differente. Queria a minha amiga que eu, porque detesto os bailes, os passeios, os divertimentos em que ha muita gente, obrigasse os outros, que só assim se divertem, a tornarem-se anachoretas? Imagina que não ha muita gente, muitissima mesmo, que preferisse a uma recita da Duse uma corrida de toiros?!... Até aqui, entre muitos que vieram por luxo, porque é moda vir ao theatro por maior preço quando vem uma celebridade estrangeira...

— «E hade ser cara, porque se fôr pelos preços da casa já não tem o mesmo merecimento. Quando penso no Novelli a representar para as cadeiras, aqui mesmo, pelo centenario da India! — disse a viscondessa.

— «É verdade, até nós viemos cá sempre para protestar — respondeu Bella.

— «Além do prazer de ver representar como poucas vezes na vida se pode vêr!

— «Mas tudo isso não me chega a convencer de que seja o vosso o mais commodo caminho.

— «Isso não é, mas o melhor.

— «O que importa o bem dos outros, no fim de contas? Gente que está habituada a soffrer não lhe custa tanto. Melhor é contentar-se cada um com a sorte que tem.

— «Quando a má fôr para os outros...

— «Claro. — Ria desabusadamente — vejam alli a Candida se precisa pensar no trabalho ou na ignorancia dos pobres, na felicidade ou na infelicidade do proximo, para ser hoje a mulher mais linda de Lisboa. Não digo uma profissional beauty porque a frase é importante demais para a nossa modestia e mesmo porque não tenho a mania de M.ᵐᵉ Vilhegas.

— «Ó Baronesa, mas de que serve ser-se bello sem mais nada?

— «Ora de que serve, mr. William, agrada aos outros. Repare n’ella, veja se no meio de tanta cara vulgar, de tanto rostosinho miúdo de chloroticas caiadas, não é um prazer para os olhos deparar com aquelle typo de perfeita belleza — repostou com leviandade.

— «É uma opinião de artista. Mas é tão fragil o reinado da belleza material — disse por fim o Ramalho, que até ahi se tinha conservado silencioso.

— «É certo, mas emquanto dura, a belleza é um merecimento como outro qualquer. Uma superioridade como a do talento ou a da bondade.

Respondeu a viscondessa, mas de modo tão singelo, que todos se entreolharam na dúvida, se seria uma illudida ou uma cynica. Só Isabella, que a conhecia bem, poderia affirmar a sua completa ignorancia de um facto que para ninguem já era mysterio. Ciumes, dôr pungente de coração offendido, sabia que os não teria, porque o amôr pelo marido lhe desapparecêra ha muito com o despreso que lhe inspirára a leviandade do seu caracter, mas esperava d’elle respeito bastante para a não inferiorisar em convivencias equivocas, para a não obrigar hypocritamente a ter relações que deprimiam a sua dignidade de mulher honesta.

Por isso Isabella, sentindo todo o amargôr da situação, soffria pela amiga tão intimamente que o resto do espectaculo o passou desattendida, apesar do interesse que a artista lhe despertava, a ella cuja alma finamente temperada se enlevava sempre na comprehensão de todas as grandes manifestações de arte, a ella que alheada de si mesma já seguira uma vez, como em extasis, o desenrolar d’esse mesmo drama, só grande pelos interpretes, quando o papel da mulher se subalternisava e quasi desapparecia, vendo Novelli, no papel do intransigente e rigido coronel, tomar toda a scena, encher de assombro todos os espiritos, com a verdade tragica da sua dôr e da sua morte.

Desattendida tambem passou o intervallo do segundo acto, que lhes trouxe á frisa innumeros conhecidos, fatigada de cumprimentos e conversas a que não ligava sentido, com os olhos a fugirem-lhe para a Candida que avultava em proporções quasi tragicas, nova lady Macbeth maculada pela mentira e pela traição, laivada pelo sangue das suas victimas, aquellas que mais acariciadoras achegava ao coração.

Quando entrou finalmente no quarto do Alliança teve a sensação de allivio que sente o dormente acordado do pesadello esmagador.

— «Estou cançada — dizia desapertando o vestido e cobrindo os hombros com uma capa para chegar á varanda, onde João fumava um resto de cigarro — estou fatigada de arte, de luzes, de barulho, de gente, sobre tudo de gente.

— «Ou isto ou o socego da nossa casa! — respondeu João, passando-lhe o braço pela cinta, fatigado tambem de impressões, aborrecido de mentiras e convencionalismos.

— «Que longe já estamos d’essa miseria — accrescentou ella, reclinando a cabeça no hombro do marido — parece que vivemos em outro mundo.

— «N’um mundo que tu criaste, no reino da felicidade pelo amôr e pelo bem, querida.

— «Tenho já tantas saudades da nossa casa, que parece que sahi ha muito de lá. E tu?

— «Tambem eu, muitas, da nossa casa, da nossa familia, das nossas flores, de todas as coisas que lá nos interessam, e sobre tudo da alegria e do descanço que têm os nossos espiritos, crentes na obra redemptora que encetámos e da qual chego a duvidar cá por fóra ouvindo o riso escarninho de todos estes egoistas epicurianos, ou sinceramente desilludidos, como a Maria Helena.

— «D’essa é que tenho pena... quem me déra podê-la levar para a nossa republica de bons! O que terá feito o nosso velhinho agora assoberbado com todo o trabalho?

— «Coitado! O que terá andado do hospital para o asylo, do asylo para as obras!... Que fortuna foi obrigarem-no a sahir da igreja! É assim muito mais util á sociedade.

— «Não ha nada para certos caracteres se depurarem e redobrarem de energia como as injustas perseguições. Outros desanimam na lucta e ficam com a vontade quebrada, como a pobre Maria Helena.

— «Eu acho a na mesma, filha.

— «Não acho eu, desespera-me aquella indifferença resignada que até lhe fecha os olhos para o procedimento do marido com a Candida.

— «Que é infamissima, como sempre. Quanto mais a conheço mais se confirma para mim a opinião que formou d’ella a Engracia. Na sua ingenuidade de ignorante viu melhor do que nós todos. Quando lhe vejo o impudôr, afigura-se-me que a Pillar a aponta ao meu odio.

— «Odio, não; ao teu despreso, João.

— «Tivesse eu a certeza, querida, que não sei se teria coragem de só despresar. Quanto daria por essa certeza, quanto!

— «Não devias dar nada; a responsabilidade dos criminosos é tão limitada, que ninguem tem o direito da vingança.

— «Oh, minha querida, isso não é bom theoricamente, mas criminosos como a Candida, embora irresponsaveis, são um perigo social.

— «Mais do que ella são criminosos os Vilhegas ambiciosos e os viscondes no seu papel de fina hypocrisia. E mais do que elles todos é criminosa a sociedade que os acolhe e os cobre com a sua cumplicidade, que faz d’elles ornamento respeitavel da sua vida.

— «Tens razão, mas a morte da Pillar foi um repelão do destino, tão brutal, tão cruel, que ainda me faz ter ideias de vinganças, se penso que houve culpados!... A sangue frio concordo, a sua morte não será vingada porque ella mesma o não desejaria; de que serve esmagar uma vibora n’um campo juncado d’ellas? Exemplos nunca emendaram ninguem nem eu creio no arrependimento, sublime illusão de Christo. Cada um é filho do seu meio e da sua ascendencia, producto hibrido que só a educação e a remodelação da sociedade poderia orientar para o bem.

— «Jesus, lá vae o meu João ao extremo!... — respondeu Bella rindo mansamente á sua exaltação e afagando-o carinhosa — não vale desanimar, talvez de productos pouco contaminados d’esta floração pantanosa ainda alguma coisa se possa retirar para o novo campo saneado e moralisado.

— «Tudo isso para eu confessar que foi um acto de bôa politica acceitar bondosamente a collaboração da pequena Costa e das Sebastianas, não é verdade?

— «Coitadas, essas não fazem muito mal ao mundo. Mas o que me interessa sobre tudo é a pobre Maria Helena. O que dirá ella em sabendo das relações do marido com a Candida?

— «O que hade dizer? A situação na sociedade em que vivem, está tão vulgarisada que não lhe dará a minima importancia.

— «Não creio! É vulgar sim, tanto que nem chega a ser escandalo, mas é estupido para uma mulher honesta que tem invencivel repugnancia pela mentira reconhecer que tem vivido rodeada d’ellas. Pobre Maria Helena! Quando a vejo tão desgraçada, não sendo feliz nem fazendo feliz o marido, podendo-o ser tanto com quem a ama e... ia jura-lo, ella ama tambem!

— «O dr. Ramalho?

— «Sim. Se houvesse divorcio tudo se liquidava bem.

— «É um triste remedio.

— «Mas sempre era remedio, e assim é a condemnação irremediavel das mulheres honestas.

Calaram-se ambos olhando o céo scintillante d’estrellas, que um vento fresco limpára de nuvens. Pelo Chiado passavam apressados os retardatarios que tinham ido cear aos restaurantes. Raros garotos apregoavam ainda os jornaes da noite humidos de tinta e cheirando fortemente a papel impresso; um cautelleiro gritava n’uma melopeia triste: — é o 3:499, amanhã anda a roda! Quem se habilita?... É o 3:499. Quem quer ser rico sem trabalhar tem o 3:499, tres... mil... quatrocentos... e noventa e nove... — repetia na cantilena que todo o dia tinha gritado pela cidade, que arrastava pela noite fóra como um pungir de saudade e de vaga esperança...

Toda a psycologia dolorosa de um povo, vivendo de aventuras e de milagres, alli estava no pregão do cautelleiro, inconsciente do bem e do mal, cego como o destino que deu a sorte grande um dia a este povo corajoso e submisso para, após longos annos de baldões, seculos de aureas miserias, chegar á suprema inconsciencia de hoje.

— «Quem quer ser rico sem trabalhar? — isto é, quem quer viver para gosar de todos os luxos e commodidades, sem comprar com o seu labor o direito de possui-las?

Trabalhar, para quê?! Se foi a sorte que nos guiou á conquista do mundo; se é a sorte, a cega roda da fortuna que girando sobre si mesma nos pode dar a fruíção dos gosos sem o cançaço do trabalho? Se é a sorte, o arbitrio, o empenho, que eleva os nullos aos primeiros logares, e se é na esperança d’ella ser favoravel uma vez, que todos, desde o operario que arranca á sua miseria os vintens para a cautella até aos ricos que põem nas despesas obrigatorias um bilhete da loteria grande, têm a vaga esperança de um dia a sorte lhes ser favoravel!... A fatalidade, a sorte, o destino, são palavras de desânimo e resignação passiva, palavras que trazem impressas em si mesmas a porção de sangue mosarabe que por cá ficou...

A pouco e pouco toda a vida da cidade parou, suspensa por um pouco, emquanto não começavam os varredores o seu trabalho de forçados.

As estrellas punham tremores nervosos na impassibilidade do céo, uma aragem leve lembrava que a primavera ainda de todo não escorraçara o inverno... João e Bella sentiam-se tranquilisar, como que adormentados de espirito, longe do mundo que os irritava, muito alto sobre a cidade adormecida.