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Anti-pavorosa - parodia christã
por Manoel Thomaz Pinheiro Aragão
Um dos textos de refutação à Epistola a Marilia, de Bocage.[1]
Poema agrupado posteriormente e publicado em Poesias eroticas, burlescas e satyricas
I

Fatal maldição da Eternidade,
Dos vivos illusão, vida dos mortos;
Ou gloria para sempre, ou sempre inferno
De desordens, de crimes oppressora.
Não forjada por despotas, por bonzos.
Mas sim por divinal credulidade;
Dogma infallivel, que o prazer arreigas
Quando a sizania c′o remorso arrancas;
Dogma infallivel, favoravel crença.
Digno premio de peitos innocentes,
Das delicias gosando, que mal fingem
Impávidos á furia Centimanos,
Que vomitando estão perpetua chamma;
Superiores motejam o seu engano.
No limiar das Parcas, eis o quadro
Que observa em vivas côres a ignorancia,
Igualmente a sciencia em vivas côres;
Inda que eu por sciente só conheço
A quem teme os castigos no ameaço,
A quem teme tornar um pae tyranno,

A quem lamenta inuteis suas preces,
Por mais que em giro ao throno elle as espalhe.
Teme o sabio que um Deus irado o fira,
E penitente vai, supplica a venia
Ao dispenseiro seu, nobre e sagrado;
Que ora as graças lhe abre, ora as ferrolha;
As graças, que co′as leis da natureza
Se ligam sempre, eternas, necessarias,
E só quando a vontade as torna em crimes
Cruel desunião n′ellas fomenta;
Por vel-a rebellada lhe fulmina
Prisões suaves no jejum, cilicio.
Que n′um geral concelho só lhe arbitra:
Humilde, pede resarcir-se a benção;
Soberba, porque quer desenfadar-se
No jugo que remata nas delicias,
Recáe n′outro maior, que a morte vende.

II


E inda dizem que Deus é vingativo.
Se com razão sacode o raio ardente?...
Antes te louvarei, porque não déste
O justo premio a muitos, que arrojando
Contra si tremendissima sentença
Julgam pela grandeza propria o crime,
E não querem fazer seu peito escravo
No castigo, que affirmam ser-lhes duro!
Será eterna a pena n′esses peitos,

Que d′um Deus se não movem ao interesse,
E o desaggravo indomito attribuem
Menos ao Sempiterno, do que a todos
Temendo perdurar como a mesma alma,
Verdades proferidas nos altares;
Onde ha satisfação, e não cruezas:
Vemos alli ministro venerando,
Longe de renovar suppostos odios,
Defendendo nos crimes a innocencia,
Primeiro recusando alto dominio,
C'o pezo superior por tempo incita: ′
Eil-o na honra altissima abrazado,
Com sangue apaga innundações de fogo;
Testemunhas do zelo a voz, e a espuma;
Mandado por um Deus, tão bom como elle,
Pede ao Senhor não multiplique exemplos
Com que já se consterna a phantasia!
Victima impura de outra vez no povo,
Livremente seu povo entrega á morte:
Defuncto o servo, que esfriava os raios.
Punia sem limite o Omnipotente;
Inda lembra ao Sinai tremer-lhe a terra,
Quando Adonai lhe intima seus decretos.
Ah! Moysés, que não podes ser astuto,
Contra a publica voz, que assim troveja;
O teu povo confessa os seus furores,
Quando entregue de um Deus á justa raiva
Sua clemencia, succumbia á tua:
Na inteireza, que tens, creio; confio
Que a tocha da verdade te precede,

Para mais deslumbrar aos que te offendem:
Que se o ferro fatal já não se ensopa
No resto d′estas animadas cinzas,
Da lei da graça os divinaes incensos
Por disfarçar a pena tornam surdos
Á voz interna os que não creem no inferno:
Tremenda lei, se a pena lhe retardas!
Mas se lh′a appressa executor propheta
Lhe acalmas as iras, porque vai, diffunde
O pavoroso medo nos sequazes
Do idolatra e espantoso fanatismo.
Convocam-se os levitas, os quaes matam
Aos cumplices de tal atrocidade:
Comprimida gemeu a Natureza;
Por um Deus os consortes, paes e filhos
Com seu sangue as espadas, vestes tingem;
Recobra o pae quem faz o parricidio,
E aos campos que de victimas se alastram
Chovem mil novas graças como em rios.
Acalmada a justiça a teus clamores,
Por honra do teu Deus, servo sedento,
Co′ um só estrago evitas mil estragos,
Ferrando a todos do leão as garras.
E tu, impio, as blasphemias que derramas
Escusas, lendo a historia dos tyrannos.
Os de Israel não foram que este exemplo
Tomaram por fazer pezado o jugo;
Por uma vil paixão, cruel, não manches
Os direitos de um Ser eterno, augusto.
De um Deus real Moysés real valido

Deu culto á verdade, corte ao genio,
E código de leis mais necessario
Deu a todos, que a bem de si o imitam.
Prova fiel de que um Deus senhor existe.

III


O quadro original eis, oh Marilia,
Em que a verdade ha tempos anda envolta,
Sem que pinceis deslustrem d′esses tempos
Os que fieis copiam pinceis nossos.
Tradição verdadeira desarreiga
Toda a suspeita de falaz doutrina.
Quando entre mil e mil preoccupados
Nos podemos suppôr de horridas sombras,
Formando povo, juram que a piedade
Existe em Deus, inda quando te flagella.
Não julga o impio assim, que todo é fogo.
Que o Deus tem nas paixões, e vive d′ellas;
Forma um Nume, que ao seu ditame ajusta,
E por elle regula a infeliz vida.
Simulacro liberrimo é suave,
Dirige a seu exemplo as acções todas,
E em tanto que se escuta a natureza,
Vai fugindo a razão, e cega a muitos.
Ambas, sendo guiadas, não differem.
Dos factos aos reflexos só conduzem;
E a mesma, que soccorre ao indigente,
Que alenta, que consola o triste afflicto,

A mesma em si reflecte consternada
Quando algum seu alumno entrega os pulsos
Voluntario de amor ás vis algemas:
Amor, que uma inspirou, ambas approvam,
E ambas murmuram aliás da insânia
Que os humanos colloca a par dos brutos,
Queda, vicio total, que os desacorda,
Do qual preoccupados, uns aos outros
Invenciveis motivam feros males.
Ah! não sejam Marilia, nossas mentes
Tomadas do dictame em que jaz crime!
Do remorso a lembrança evite a culpa;
Um Deus em nosso bem benigno existe,
Que te pode estudar o pensamento
Ao golpe do que fragil se arrepende.
Não são aos actos intenções oppostas,
Antes estas áquelles dando exemplos
Na contemplação propria culpam a alma.

IV


Supplemento d′acção faz doce encanto
O que antes era objecto de terrores,
E convertido n′um final interesse
Emprega a bem dos crentes a astucia;
Oxalá, doce amada, que no inferno
Não padecesse o pensamento angustias
Do crime o galardão, merecido premio!
Que eu de amor aos fatidicos embustes

Me entregára por ti, se o não houvera!
Além de contemplar-te deusa bella,
Novo altar te formára em minha mente.
Mas ah! que a minha lei, se rigorosa
Mostra um semblante no ext'rior severo.
Seus nobres fins a tornam jugo amante,
Concedendo-me em doce ajuste sacro
A posse eterna do que pinta a idéa!
Em teus dotes mais ricos do que o mundo
Tu bem podes gravar pacto solemne.
Que é desejado mais quando te esquivas:
Porque o pejo innocento foge ao laço
Que inculcando te estou, te estou pedindo.
Sacra alliança pedem teus direitos
Por belieza e traição só extorquidos.
Approva ternamente o jus paterno
A chamma, quando pura se affoguéa.
Então desfructarás da liberdade.
Quando maior sentires este jugo [2]
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Quando quer sustentar que amor com guardas
Influencias não pode ter propicias,
Emmudeça tambem o louco Elmano,
Que ignora do seu Deus os sanctos lares,
E quer solemnisar a união das almas
Dando por testemunhas venerandas
As trevas, a pezar que nada sejam:
Deixado o sacerdote, ampliado o templo,

Celebra o matrimonio em toda a terra;
Quem faz caso porém de seus transportes?
Seu coração ao menos desafogue
Em proclamar, mas por que não incita
O vedado prazer do horrivel nome.
E querendo render nossas vontades
Co′as falsas persuasões, que mal recebem,
Na religião pretende amortecer-te,
Porque possa appetite aviventar-te.
Ah! que não se propõe ser teu amante
Quem quer na confusão de mil suspiros
Tão infeliz fazer-te quanto é elle!
Entretanto, Marilia, não te prives
D′outras estimações de quem te adora;
Da minha lei tu podes ser amada,
E amares, se á razão não fores surda.
Meu coração de ver-te enfeitiçado
Emprega provas mil suas, e minhas,
Porque ames, sem deixar de ser ditosa.
Deve a religião guiar teu gosto,
A lembrança final desterre o crime:
Que apezar do vicioso que pregòa.
Existem céos, existe o negro inferno:
Lauréa-se n′aquelles a virtude,
Arderá n′este para sempre o vicio.

NotasEditar

  1. SILVA, Inocêncio Francisco da (Org.). Poesias eroticas, burlescas e satyricas. Bruxelas: [S. n.], 1900. p. 173-174.
  2. Na copia que temos presente falta o verso seguinte. [Nota de Inocêncio Francisco da Silva]