Através do Brasil/LXXX

LXXX. UMA ESTÂNCIA

Dona Maria Meneses, septuagenária, era ainda forte e sadia: a sua face corada e os seus olhos azuis tinham ainda um brilho de vida e de energia; a sua cabeça, cheia de mocidade, emoldurava-se de cabelos completamente brancos, de uma alvura de neve. Os dois filhos, Roberto e João, um de vinte e cinco anos, outro de vinte e dois, dirigiam a administração da estância; adoravam a velha mãe, num culto fervoroso, em que se misturavam carinho e veneração.

Carlos e Alfredo enterneceram-se, sentindo-se acariciados, respirando livremente, com confiança, nessa atmosfera de sossego e afeto.

Acalmadas as primeiras expansões, Carlos tratou logo de conduzir a conversa para a morte do pai, na ansiosa curiosidade de ouvir da avó qualquer opinião mais precisa. Ela repetiu-lhe, porém, o que já lhe haviam dito os tios: que não havia certeza; e, enquanto falava, sorria. Refletindo bem, Carlos desconfiou que “não lhe diziam tudo...”

— Mas que sabe a senhora a respeito de papai, vovó?!...

Foi um dos tios que respondeu:

— Sabe o que todos nós sabemos. Conte-nos você, outra vez, como tudo isto se passou, e diga-nos como teve notícia da morte de seu pai.

E Carlos recomeçou mais uma vez a história de todos os transes.

A hora do jantar veio alcançá-lo ainda a relatar tristezas e peripécias, cuja história era entrecortada a todo momento pelas exclamações penalizadas da velha estancieira.

Alfredo, mais criança, e fatigado da última jornada, deitou-se cedo, e adormeceu logo, profundamente. Carlos, depois do serão familiar conciliou dificilmente o sono quando se deitou e velou durante muito tempo, preocupado, numa febril agitação do espírito, entre dúvida e esperança. Ao levantar-se, de manhã, falou de novo aos tios, assediando-os de perguntas. E tanto os importunou que Roberto, o mais velho, procurando aliviá-lo, disse-lhe:

— Bem! Dou-lhe uma promessa formal: se, daqui a oito dias, não recebermos notícias positivas, irei à Bahia e dirigirei pessoalmente um inquérito. E agora vamos ver a estância, porque vocês nunca viram uma estância, não é verdade?

— Nunca vimos.

A casa principal era um vasto e sólido edifício quadrado, de paredes brancas e simples, irradiante de luz. Ficava na eminência de uma colina suave, em meio de uma vasta campina, levemente ondulada. Um horizonte sem fim, onde o manto verde claro das campinas era de longe em longe interrompido pelo verde forte dos capões, estendia-se ante o olhar de Carlos e Alfredo...

— São as pastagens! — disse o tio João, abrangendo com um gesto a extensão do horizonte. — Temos quatro léguas de campo.

Alfredo, encantado já com a vida da estância, queria percorrer os pastos e ver o gado.

— Verás amanhã! Passarás algum tempo na estância, e percorrerás o campo, a cavalo, quando quiseres. Mas é preciso que saibas montar; com algumas lições, ficarás sendo um bravo gaúcho!

— Os pastos estão cheios de bois?

— De bois, de cabras, de carneiros. E temos também muitos cavalos. E verás também a charqueada.

— Que é a charqueada?

— É o estabelecimento em que se prepara a carne salgada e seca. A carne seca chama-se também charque. Produzimos mais de duzentos mil quilos de charque por ano.

— É esta estância, uma das mais ricas do Estado?

— É uma estância de algum valor. Temos alguns milhares de cabeças, incluindo as reses bovinas, ovinas, caprinas — também os porcos.

Continuaram a visitar a fazenda.

Em torno da casa, estendiam-se as residências dos empregados e outras dependências: paióis de forragens, salas de arreios, alpendre para os carros, e depois, os currais e potreiros, as estrebarias, — tudo fechando a vivenda num vasto quadrilátero.

Em frente, debaixo do outro alpendre, estava uma roda de peões, — os empregados da estância, os que lidavam com o gado. Tomavam tranqüilamente o seu chimarrão: é o nome que os gaúchos dão ali ao mate, como usam tomá-lo — sem açúcar; a erva perfumada, reduzida a pó grosso, é trazida na pequena cuia, com a respectiva bombilha, que é um tubo com um crivo na extremidade; despeja-se dentro a água a ferver e a cuia passa de mão em mão, cada um sugando pela mesma bombilha o líquido fumegante.

— É a bebida usual, entre os gaúchos, — disse Roberto. — Os peões riograndenses nunca viajam sem a sua cuia e a sua bombilha...