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Como se Fazia um Deputado por França Júnior
Ato segundo


O teatro representa a Praça da Freguesia de Santo Antônio do Barro Vermelho: ao fundo, a matriz; à direita e à esquerda, casas com portas para a cena. Ao subir o pano, acham-se diversas pessoas na praça: grupos à porta da igreja e ao lado das casas.

Cena IEditar

Coro de capangas

Que o voto é livre
Ninguém duvida!
Por nossos amos
Demos a vida.

Pra todo aquele
Que for canalha,
Cacete em punho,
Boa navalha.

Sejamos fortes
Em cabalar,
Que bom dinheiro
Vamos ganhar.

Pra todo aquele
Que for canalha,
Cacete em punho,
Boa navalha.
(Dispersam-se, entrando uns nas casas, outros na igreja.)

Cena IIEditar

Henrique, Limoeiro e depois Domingos


Limoeiro – Parece-me que o negócio vai correndo às mil maravilhas.

Henrique – Fie-se nessa. Não viu o sarilho que andou lá por dentro ainda há pouco?

Limoeiro – E o sujeito votou ou não votou?

Henrique – Votou; mas eu não queria estar na pele.

Limoeiro – Onde está o Domingos?

Henrique – Na Igreja.

Limoeiro – Vai também para lá, chama-me o Domingos, e dá estas listas (Dando-lhas.) ao Flávio Marinho, para entregar ao João Correa. Não abandones a urna. Olha, coloca-te ao lado do Rasteira-Certa e do Arranca-Queixo, logo que houver rolo. (Henrique sai.) É preciso muito tino e sangue-frio.

Domingos – (Saindo da igreja.) Pronto, meu sinhô.

Limoeiro – (Tirando a lista dos votantes e lendo.) Antônio José da Purificação, Anastácio Antonio da Silva, Felipe dos Reis, José... José Antônio... Cá está. Manoel Maneco Manduba de Mandiroba. (Para Domingos.) Tome sentido neste nome. Quando gritarem por ele, vosmecê apresente-se e entregue esta lista. (Dá-lhe a lista.) Entendeu?

Domingos – Sim, sinhô.

Limoeiro – Repita. Como é seu nome, agora?

Domingos – É Domingos, sim, senhô.

Limoeiro – Ó cabeça de burro, pois eu não acabo de dizer que você é Manoel Maneco Manduba de Mandiroba?

Domingos – Ah! Agora já sei, sim senhô. Eu me chamo seu Mané Maneco.

Limoeiro – Muito bem. Veja lá, quando entregar a lista, se vai dizer, como o negro do Ribeiro: aqui está biete que siô moço seu Zé Ribeiro mandou pra sinhô.

Domingos – Eh! Eh! Domingos não é negro novo. Eu já não tem votado tantas vezes?

Cena IIIEditar

Os mesmos, Chico Bento, Henrique, Gregório, Custódio, Flávio Marinho, 1º votante, acompanhados de povo, saindo da igreja aos empurrões.


Povo – É fósforo! É fósforo!

Chico Bento – É o próprio e idêntico!

Henrique – É muito conhecido na freguesia!

Povo – É fósforo! É fósforo!

Gregório – À ordem, senhores!

Cena IVEditar

Os mesmos, Pé-de-Ferro, Rasteira-Certa e Arranca-Queixo


Pé-de-ferro – (A Henrique.) Pode falar grosso, senhor doutor, que o Pé-de-Ferro cá está com o Arranca-Queixo.

Arranca-Queixo – O cidadão prestante há de votar.

Povo – É fósforo! É fósforo! Não vota!

Rasteira-Certa – Não é fósforo! É o próprio e idêntico; veve e reséde neste município.

Limoeiro – (Baixo a Domingos.) Toma estas listas. (Dá-lhas.) Aproveita o barulho, e ataca tudo na urna.

Henrique – Respeitem as garantias constitucionais!

Limoeiro – Ordem, senhores! Eu conheço o homem, deixem-no votar. Perca-se tudo, mas salve-se a moralidade pública!

Pé-de-Ferro – Apoiado!

1º Votante – Vamos para dentro. (Retiram-se todos, menos Limoeiro e Chico Bento.)

Cena VEditar

Limoeiro e Chico Bento


Chico Bento - Major, o negócio está muito feio!

Limoeiro – Deixe correr o marfim. Trabalhe cada um para seu lado que afinal dá tudo certo.

Chico Bento – É verdade. Uma vez que o rapaz saia...

Limoeiro – Estamos nós dentro.

Cena VIEditar

Os mesmos, Flávio, 2º Votante


Flávio – (Gritando da igreja.) Jerônimo Tabu da Silva.

2º Votante – (Saindo da esquerda.) Pronto!

Chico Bento – Tome lá. (Entrega-lhe uma lista.)

2º Votante – Olhe, compadre, só para lhe servir. É triste ser pobre. Muito custa a ganhar a vida com honra! Com esta fazem quatro vezes que voto hoje. (Entra para a igreja.)

Chico Bento – (Vendo a lista.) Este já se pode riscar.

Limoeiro – E pode riscar também o Tenente Felício.

Chico Bento – Um dos esteios do partido da ordem!

Limoeiro – É verdade, não vota hoje, não, mas é o mesmo; mandei processá-lo, como vagabundo, por andar parado na rua de noite fora de horas.

Chico Bento – Pois fê-la bonita! Perdemos com ele toda a votação da gente da Samambaia e da Grota Funda.

Limoeiro – Grande prejuízo! Perdemos esses votos, mas ganhamos todos do Partido Liberal, sem contar com o recheio que mandei o Domingos meter na urna.

Chico Bento – Major, você é de todos os diabos.

Cena VIIEditar

Chico Bento, Limoeiro e Domingos


Domingos – (Saindo da Igreja.) Estará tudo dentro, sim senhô.

Limoeiro – Fica aí que não tarda a chegar a tua vez de votar.

Chico Bento – Pois o major manda o escravo votar?

Limoeiro – Essa é boa! E por que não? E se o rapaz for eleito, ele já sabe, dou-lhe a carta de liberdade.

Chico Bento – Deus queira! Deus queira!

Cena VIIIEditar

Limoeiro, Chico Bento, Domingos e Flávio


Flávio – (À porta da igreja.) Manoel Maneco Manduba de Mandiroba?

Domingos – Pronto!

Limoeiro – (Baixo a Domingos.) Anda, não te esqueças do nome. (Domingos entra na igreja.)

Chico Bento – Vejamos a trovoada!

Cena IXEditar

Os mesmos, Henrique, Gregório, Custódio, Flávio, 1º Votante, Pé-de-Ferro, Rasteira-Certa, Arranca-Queixo

(Acompanhados pelo povo, no meio de grande desordem.)

Povo – Fora o negro! É fósforo! (Assobiam.)

1º Votante – Eu bem o conheço. É o escravo do major.

Povo – Salta, tição!

Limoeiro – Perca-se tudo, senhores, mas salve-se a moralidade pública! Deixem o cidadão livre e independente votar!

1º Votante – É um desaforo! Homessa!!

Povo – É fósforo! É fósforo!

Custódio – Atenção, senhores!

1º Votante – Não queremos palanfrórios!

Henrique – Deixem falar o orador.

Custódio – Em nome da paz da freguesia, em nome de meus concidadãos, em nome da nossa honra, em nome da tranqüilidade pública, devemos respeitar o direito do cidadão.

Henrique – Apoiado.

1º Votante – Não apoiado.

Arranca-Queixo – O homem há de votar; não turrem. E quem decéde aqui está! (Mostra o cacete.)

Custódio – Eu asseguro-lhes que o suplicante é o mesmo Manoel Maneco Manduba de Mandiroba.

Povo – Não é! Não é!

Arranca-Queixo – Haja rolo!

Pé-de-Ferro – Haja!

(Trava-se um conflito de pedradas e cacetadas; intervém a guarda e retiram-se todos em debandada, entrando alguns na igreja e outros nas casas laterais. Chico Bento entra em uma das casas. Henrique, Domingos e Limoeiro entram na igreja.)

Cena XEditar

Perpétua e Rosinha


(Que entram em cena, na ocasião em que se dispersa o povo.)

Perpétua – Onde estará o meu homem, meu Senhora Bom Jesus?

Rosinha – Eu não disse a mamãe que não viesse se meter neste angu?

Perpétua – Deram-me um murro na cacunda, que quase deitei a alma pela boca fora!

Rosinha – E eu, por um triz que não levei uma pedrada na barriga. Passou ventando, viim! Que nem uma bala.

Perpétua – Onde está aquele homem, meu Deus? Fico com o coração do tamanho de uma pulga, todas as vezes que ele se mete em eleições!

Rosinha – Estou aqui que nem posso.

Perpétua – Parece-me que o vejo a cada momento entrar pela casa adentro com as ventas esmurradas, ou com alguma faca nas tripas.

Rosinha – E eu que sonhei, esta noite, que tinham descadeirado seu Henrique, na igreja, com uma carga de chumbo grosso que lhe arrumaram?

Cena XIEditar

As mesmas, Henrique e depois Limoeiro e Chico Bento


Henrique – (Saindo da igreja.) Oh! Minhas senhoras, o que vieram cá fazer?

Chico Bento – (Espiando da porta.) Está tudo acabado?

Perpétua – Chico, não estás ferido?

Chico Bento – Retire-se, senhora, que isto daqui a pouco está um dilúvio de sangues.

Limoeiro – (Saindo da igreja.) Eu não disse que o Domingos havia de votar? Lá está a cédula na urna, batidinha da silva! (Para Rosinha e Perpétua.) Também vieram cabalar?! Bravo! Gosto disto!

Chico Bento – Major, eu juro-lhe pelas cinzas de minha mulher... não, quero dizer...

Perpétua – Eu é isso lá?

Chico Bento – Erraris humanus és. Quero dizer, Perpétua, que juro, por tudo quanto há de mais caro neste mundo, que não me apanham noutra.

Perpétua – Oxalá que fiques curado.

Limoeiro – Se lhe parece, abandone-me e deixe-me aqui às moscas. Como já lhe dei a minha palavra e já está servido...

Chico Bento – Abandoná-lo? ... Lá isso não, porém...

Limoeiro – Porém o quê? Tenente-coronel, o lugar do soldado é no fogo!

Perpétua – No fogo?! Temos conversado. Chico, lembra-te que tens mulher e filha!

Limoeiro - Dona Perpétua, não me esfrie o homem! tenente-coronel, estamos perdidos e precisamos fabricar votantes, seja como for. (Pensando.) Espere, o Domingos votou uma vez só...

Chico Bento – Major, você ainda perde aquele negro, e olhe que ele é peçazinha que vale bem seus dois contos de réis.

Limoeiro – (Que continua a pensar.) Ah! Achei! (Para Henrique. ) Ó rapaz, pois tu por aqui ainda, quando devias estar lá dentro a tomar conta da urna?!

Henrique – Estou ao lado da urna dos meus afetos.

Limoeiro – Deixa esta, que está segura, e vai tomar conta da outra, que está em perigo. Anda, vai. (Para Rosinha e Perpétua.) Minhas senhora, entrem para esta casa e não tenham receio.

Perpétua – (Entrando com Rosinha.) Chico, toma cuidado, não facilites.

Limoeiro – (A Henrique que se dirige para a igreja.) Manda-me cá o Domingos.

(Henrique entra na igreja.)

Cena XIIEditar

Chico Bento, Limoeiro e Domingos


Chico Bento – Major, quer aceitar um conselho? Res tua agitur.

Limoeiro – O que é, tenente-coronel?

Chico Bento – A capangada está bravia; mande o Domingos para a fazenda e vamos nos arranjar com os votantes que temos. Olhe que naquela refrega o João Correa ficou sem uma orelha, o Flávio perdeu dois dentes da frente, eu levei um cascudo e o major viu-se em papos de aranha.

Limoeiro – Mas ainda não desanimei.

Domingos – (Saindo da igreja.) Estou aqui, sim sinhô.

Limoeiro – Estás machucado?

Domingos – Não, sinhô. Levou só porretada na cabeça; pau quebrou mas cabeça não.

Chico Bento – Imibus!

Limoeiro – Prepare-se, que tem de votar mais uma vez.

Domingos – Domingos está pronto para votar quantas vezes sinhô quiser.

Chico Bento – Isto não é negro; é um precipício!

Limoeiro – Entre ali naquela casa, (Indica a casa da esquerda.) peça uma casaca a seu Zé Franco, calce uma botas, diga a seu Teles que lhe corte esta carapinha, e que lhe empreste umas barbas.

Domingos – Sim, sinhô.

Limoeiro – Amarre um lenço ao pescoço e depois venha falar comigo. (Domingos sai.)

Cena XIIIEditar

Chico Bento, Limoeiro e depois Pascoal Basilicata


Chico Bento – Major! ... Major!

Limoeiro – O seu compadre não pode votar ainda uma vez?

Chico Bento – Olhe que ele já votou quatro vezes!

Limoeiro – E o que tem isto? Quando a lei decretou que houvesse três chamadas, foi para que o cidadão votasse pelo menos três vezes. Vejamos a lista dos votantes. (Limoeiro e Chico Bento consultam, lendo a lista.)

Pascoal – (Entrando com uma tábua ao ombro, na qual se vêem bonecos, cachorros, vasos, papagaios e santos de gesso.)

Io sono mascati
Comprate senhori
Uceli, macachi
E meie vasi de fiori

Com quello que ganho
No ganho niente,
Perche non guadagno,
Ne centro per cento.

I sono mascati, etc., etc.
Nom volete comprare qualche cosa?
Abbiamo cavalli, cani, gati, ogni santi del
Paradizo, vasi di fiori.
Vê-lo dono per pouco danaro.

Limoeiro – (Para Chico.) Oh! Que idéia luminosa! Que famoso achado! Tenente-coronel, este italiano é um diamante que nos caiu do céu.

Chico Bento – Major, eu tremo de adivinhar o que lhe passa pela cabeça.

Limoeiro – (A Pascoal.) Ó Monsiú!

Pascoal – Cosa vuole?

Limoeiro – Como se chama você

Pascoal – Pascoale Bazilicata, humilíssimo servitore di lei.

Limoeiro – Pois, senhor monsiú Basilicata, você está disposto a mudar de nome por cinco minutos?

Pascoal – Cambiare mio nome?

Limoeiro – (A Chico Bento.) Cambiar, não sei o que é. (A Pascoal.) Não se trata de câmbio, de trocar dinheiro...

Chico Bento – Trata-se de trocar de nome, monsiú.

Pascoal – Ma, perchê trocare il mio nome?

Limoeiro – Usted não quer guadanhar la plata?

Pascoal - Si,si,já. Ma chi me dona danaro?

Chico Bento – Aqui este monsiú.

Pascoal – Está bene; cosa devo fare?

Limoeiro – Usted larga el taboleiro aqui com tutas las bugigangas, está entendendo? Toma isto (Mostra a lista.) e, quando o chamarem ali, da aporta da igreja, entra e mete este papel nel buraco del caixone, que está em cima della mesa. Ponha sentido no seu nome.

Pascoal – Si sinhore.

Limoeiro – O seu nome é Albino Catalão Carapuça dos Enjeitados. Repita.

Pascoal – Alano, Catabine, Caranjolle do Singipuça.

Limoeiro – Não, não é isto. Albino Catalão Carapuça dos Enjeitados.

Pascoal – Babibo...

Chico Bento – Não é Babibo; é Albino.

Pascoal – Albino.

Limoeiro – catalão.

Pascoal – Tacalão.

Limoeiro - (A Chico Bento.) O diabo do carcamano tem cabeça de barro, como a dos cachorros que vende.

Chico Bento – O essencial é que ele acuda à chamada.

Pascoal – Sicuro, sinhore; ma quanto guadanho?

Limoeiro – Guadanha vinte mil réis.

Pascoal – O sinhore poteva dare um pouco piu.

Limoeiro – Não tem que piar; com vinte mil réis está muito bem pago.

Pascoal – Vá bene, sinhore.

Cena XIVEditar

Os mesmos e Domingos


Domingos – (De casaca, completamente transformado.) Domingos está ponto, sim sinhô.

Limoeiro – E então, tenente-coronel, veja só como está o negrinho!

Chico Bento – (Vendo Domingos com os braços semiabertos.) Parece que ele quer voar.

Domingos – É casaca, que está muito pretada debaixo do braço, sim sinhô.

Limoeiro – ( A Domingos.) Voc6e há de votar mais tarde; por ora o que tem que fazer é acompanhar este monsiú até a igreja. Não me saia de lá enquanto ele não tiver votado.

Domingos – Sim sinhô. (Para Pascoal.) Vamos, monsiú. (Entram os dois na igreja.)

Cena XVEditar

Limoeiro e Chico Bento


Chico Bento – Está me parecendo que o tal carcamano não dá conta da empreitada.

Limoeiro – Olé se dá! Aquilo é pássaro bisnau!

Chico Bento – Será bom mandar dizer à capangada que esteja alerta.

Limoeiro – Não se incomode; ela está bem industriada. Mas tem-se trabalhado bonito, hein, tenente-coronel?!

Chico Bento – Nem por isso. Nas eleições passadas fizemos mais e não houve tanto barulho. Só o defunto Matias sacristão votou seis vezes.

Limoeiro – Isto lá pelo seu lado; porque pelo de cá foram cinco, batidinhas, dadas por mim. Se ele ainda fosse vivo... Coitado, Deus ponha a sua alma em bom lugar!

Chico Bento – Pobre Matias! Pallidus mortis equyis expulsat pedibus tabernas...

Limoeiro – Foi mesmo a taverna que o levou. Mas deixemos coisas tristes e pensemos nos que estão vivos.

Cena XVIEditar

Os mesmos e Henrique


Henrique – (Saindo apressado da igreja.) Meu tio? Meu tio?

Chico Bento – O que é? Alguma novidade?!

Henrique – Estamos perdidos!

Limoeiro – Perdidos?!

Henrique- Irremediavelmente perdidos!

Limoeiro – Mas o que há? Explica-te, rapaz!

Henrique – Nada mais, nada menos, que uma conspiração dos descontentes, para roubar a urna e levar tudo a ferro e fogo.

Limoeiro – Quem te disse isto?

Henrique – O João Correa.

Limoeiro – E como foi que ele soube?

Henrique – Apanhando na sacristia este bilhete, que caiu do bolso de um votante.

Chico Bento – Deixe-me ver. (Lendo.) Estamos traídos! O chefe do nosso partido está ligado com um membro do partido contrário. Às duas horas em ponto estejam todos no coro, pontos para o que der e vier. É preciso a todo o custo quebrar a urna e mandar ao diabo esta eleição. Os escravos da fazenda de Dona Miquelina estão a postos.

Limoeiro – Mas a quem foi dirigido este bilhete?

Henrique – Não se sabe.

Chico Bento – Que horas são, major?

Henrique – Uma hora e tr6es quartos.

Chico Bento – É tempo de salvar a mulher e a menina que ali estão. (Vai a sair.)

Limoeiro – Não senhor, espere. Agora é que mais precisamos da sua presença.

Cena XVIIEditar

Limoeiro, Chico Bento, Henrique, Povo, 1º Votante, Arranca-Queixo, 3º Votante, Gregório, Custódio, Pé-de-Ferro, Rasteira-Certa, Pascoal, Rosinha e Perpétua


Povo – (Saindo da igreja.) É um desaforo! É um desaforo!

Custódio – Deixem o cidadão votar!

Chico Bento – Estamos perdidos!

Povo – Fora! Fora! Fora!

1º Votante – É estrangeiro!

Arranca -Queixo – É cidadão brasileiro tão bão como tão bão.

Pascoal – Si sinhori, sono brasilêro.

Povo – Morra o engraxate! Morra!

Limoeiro – (Gritando.) Ordem, senhores! Perca-se tudo, mas salve-se a moralidade pública! Deixem o cidadão votar!

1º Votante – Não pode votar! É estrangeiro!

Limoeiro – É nosso compatriota. Foi um dos bravos da Campanha do Rosas, e lá perdeu a língua.

Povo – Haja! Haja! (Trava-se uma luta de cacetadas; alguns seguram nos bonecos e cachorros de gesso e atiram às caras uns dos outros.)

Chico Bento – (Batendo com força na casa onde estão Rosinha e Perpétua.) Abra esta porta, senhora!

Perpétua e Rosinha – (De dentro.) Misericórdia!

Chico Bento – Abram, pelo amor de Deus!

Perpétua e Rosinha – (De dentro.) Aqui d’el-rei!

Limoeiro – Ordem! Ordem! Paz! (O barulho serena.)

Pascoal – ( Com a cara ensangüentada.) Vado a queixar-me a il mio consule.

1º Votante – Vamos para dentro, que este já não vota. (Entram todos na igreja, menos Pascoal.)

Cena XVIIIEditar

Chico Bento, Henrique, Limoeiro, Domingos e Pascoal


Pascoal – E miei figurini sono tutti quebrati. Bisonha pagare tutto.

Limoeiro – Sim, monsiú, deixa estar; tudo se arranja em paz.

Domingos – (Saindo da igreja apressado.) Meu sinhô? O negócio não está bom, não. Povo no coro da igreja está assim. (Batendo na mão, fechada em forma de óculo.) Tudo com pedras e porrete.

Limoeiro – (Para Henrique.) Vai para a igreja. (Henrique entra na igreja.)

Chico Bento – Não se afoite, doutor.

Limoeiro – (A Domingos.) Leva este homem para a botica, e manda-o depois para a fazenda.

Domingos – Ande, monsiú, venha lavar o nariz. (Domingos sai com Pascoal.)

Chico Bento – (Batendo na porta da casa.) Saia, senhora, aproveite a estiada.

Cena XIXEditar

Chico Bento, Limoeiro, Rosinha e Perpétua


(Saindo de casa.)

Perpétua – Já não sinto as pernas.

Rosinha – (Saindo.) Tenho ferretoadas por todo o corpo. Parece que me sentaram em cima de um formigueiro.

Limoeiro – Formigas temos que ver agora.

Cena XXEditar

Os mesmos, Povo, Henrique, Gregório, Custódio, Flávio marinho, 1º, 2º e 3º Votantes, Pé-de-Ferro, Rasteira-Certa, Arranca-Queixo, seis soldados


Povo – (Dentro.) Quebra! Quebra! (Ouvem-se tiros dentro da igreja.)

Perpétua – Misericórdia!

Rosinha – Me segurem, que senão eu caio com um ataque! (Sai a urna, carregada pelo povo. Entram todos em grande desordem.)

1ºVotante – Vamos fazer a eleição em casa do 2º juiz de paz.

3º Votante – Apoiado!

Povo – Vamos! Vamos!

Henrique – Protesto, meus senhores. Deixem-me falar, em nome da lei e das garantias do cidadão, contra este ato iníquo, praticado contra a liberdade do voto.

1º Votante – Fora o doutorzinho!

Limoeiro – Perca-se tudo, senhores, mas salve-se a moralidade pública!

3º Votante – A eleição está viciada!

1º Votante – Levemos a urna para a casa do 2º juiz de paz.

Arranca-Queixo, Pé-de-Ferro e Rasteira Certa – Não vai! Não vai!

Perpétua – Ai! Ai! Ai! (Cai nos braços de Chico Bento.)

Chico Bento – Ainda mais esta.

Rosinha – Ui! Ui! Ui! (Cai nos braços de Henrique.)

Limoeiro – Não derramemos o sangue de irmãos. Faremos outra eleição aqui, e o governo decidirá quem tem razão.

1º Votante – Havemos de ver.

Coro –
Conduzamos esta urna
Bem longe da confusão,
Vamos ver outro juiz,
Que presida esta eleição.

Limoeiro –
Ameaças não me assustam,
Que eu não conto com bravatas;
Façam lá o que quiserem,
Que eu sou forte em duplicatas.

Coro –
Conduzamos esta urna
Bem longe da confusão,
Vamos ver outro juiz
Que presida esta eleição.