Dona Guidinha do Poço/I/X

Dona Guidinha do Poço por Manuel de Oliveira Paiva
Livro Primeiro, Capítulo IX


Ao fim do dia, a velha Dona Anginha trocava os seus bilros, e a Guida ponteava o seu labirinto no tear. Desde que o Secundino viera almoçar a velha se metera com ele numa prosa interminável. A Guida intervinha:

— Mãe Anginha, deixe o moço. Ora, já se viu...

E para o hóspede:

— O Senhor não repare estas coisas, não: é costume velho de Mãe Anginha. Quando agarra uma pessoa, quer fazer logo um rol de tudo quanto há. E se é gente que vem de baixo, então...

— Mas, pelo contrário, tenho até muito me aprazido com a conversa da Senhora Dona Ângela. Eu sempre gostei de conversar com os velhos.

— Quem, o Senhor? Não lhe gabo o gosto. É porque não os tem em casa.

— Se tenho! Por lá não se morre. Há um ror de cabeças de algodão.

Guida riu, e largou esta:

— Por lá só se morre de faca...

— E fica-se por cá mesmo, Senhor Secundino? - voltou a velha, no seu compassado falar, como se a Guida não houvera dito nada.

— Pois já não disse? Vou para a vila. O tio Joaquim vai mandar limpar a armação da casa que ele tem lá, que está fechada desde que acabou com o negócio, e eu vou-me estabelecer com as fazendas e miudezas que trouxe.

A Guida, querendo furtá-lo à maçada da velha:

— Já reparou bem nisto por aqui, Senhor Secundino? Já foi ver a cacimba? É aberta na piçarra. Deu um trabalhão a meu avô...

— Então é ainda obra...

— Do princípio do século passado. Hoje o sertanejo não faz nada mais daquilo, vive desanimado. Naquele tempo, sim.

E olharam o campo.

— Este terraço é a melhor sala de trabalho. Ouve-se daqui o que se passa lá fora, vê-se a labutação da cozinha, está-se ao pé da sala de jantar e da dispensa...

— Mas o calor?

— O calor? Agora não faz calor aqui. Mesmo pela seca tem o quintal e estas árvores, que refrescam o ar...

— E quando vai, Senhor Secundino? - tornava a velha novamente.

— Nestes quinze dias, Senhora Dona Ângela, se Deus não mandar o contrário.

— Já viu como é bem feita a renda dela? Não há por aqui rapariga rendeira que se pegue com ela! - proferiu a Guida.

Com ar modesto, a velha, levantando os óculos:

— Esta nem está boa, menina.

E tabaqueou.

Secundino acertara efetivamente as coisas com o tio, que por sua parte se havia entendido com a mulher.

O Silveira partiria para as praias com os cargueiros do Secundino, que voltavam escoteiros.