Dona Guidinha do Poço/I/XI

Dona Guidinha do Poço por Manuel de Oliveira Paiva
Livro Primeiro, Capítulo X


No dia seguinte já o Secundino se fazia de dentro. E dizia-lhe mesmo a mulata Luísa:

— Nhô Moço, vá-se fazendo de casa... Vosmicê non é sobrinho do Sinhô? E apois então?!

O rapaz nem se lembrava de abrir os livros de histórias e novelas que trazia, para matar o tempo. Divertia-se presenciando o traquejo da fazenda. A Guida mandara pôr às ordens dele o seu Marreca, um excelente alazão. O tio Joaquim, como pelo prazer de mostrar os seus possuídos, levava-o para ali e para acolá, a tal fazenda, a tais campos, já a assistir àquele serviço, já a visitar aquele sítio notável por algum episódio sanguinolento. Caçar é o que ele fazia pouco, o tempo não sendo ainda o apropriado. Pelo verão, sim, ele havia de levar o peito em boas pontarias. Os banhos, cada vez a melhor. Ia senhoriando-se da topografia complicada daquelas paragens eriçadas de penedos, penugentas de capinzais, cabeludas de catingas e carrascos, encalombadas, mas onde por toda parte opulentava-se o milagroso fiat do inverno.

No domingo o Quim não foi à missa, mesmo porque no sábado seguinte pôr-se-ia a caminho para a vila, acompanhando ao sobrinho, que ia inaugurar o seu estabelecimento.

Com a notícia, que correra, de que o Major hospedava um moço de Pernambuco, um cavalariano, diziam, o Poço da Moita teve nesse domingo muitas visitas, dos principais criadores daquele círculos, que eram gente de posses medíocres em sua maior parte, não tocando nos parentes de Dona Guida, pessoas de vulgar abastança.

O almoço foi tarde como passara a ser com a vinda do Secundino, e à roda da mesa não ficou um lugar vazio. Na véspera haviam feito matotagem de uma vaca liso-vermelha, descansada, cuja carne, chilramente cozida, sabia como se lhe houvessem aplicado mil habilidades culinárias. A panelada foi lua - não chegou para quem quis. A vivenda, tudo escancarado, estava cheia da algazarra daqueles matutos agigantados, alegres, gente ainda séria, mal encarados como novilho e dóceis como ovelha. Guida e o marido, guardando segredo sobre o verdadeiro porquê da viagem do sobrinho, faziam cuidar mesmo os fazendeiros que estava ali um cavalariano, isto é, um negociador de cavalos (que os vinham então de Pernambuco adquirir nos sertões suculentos deste Ceará de meu Deus). Logo fizeram ao pernambucano ofertas de animais, e quantas! para barganha.

Antes de ir para o almoço, passaram toda a manhã, no pátio da fazenda, em escaramuças de picaria. Cada um floreava melhor no seu ginete. E eram prosápias a eito. Aquele ruço fizera quarenta léguas de marcha em dia e meio, e não se dera por achado. Um cardão marchava alto, meio e baixo, sem ter estado na escola. Um certo castanho, o cavaleiro podia levar um copo d'água na palma da mão, cheinho, que nem o copo virava nem da água se derramava um pingo.

— Ai daí! esgoelava o Seu Antônio. Ca'alo cuma o Marreca da Seá Dona Guidinha, que chega aquilo macha sereno que mó de coisa que non bota os pés no chão, e chega mó que vai avoando pelos ares!

Ao meio-dia fez um sol quente e branco. Os cúmulos de inverno, impertinentes, monstruosos, apresentavam alvuras que doíam na vista, e negrumes, sem transição. A verde frescura do horizonte atenuava a aspereza do firmamento. E as visitas foram arribando; só ficaram as mais íntimas.

No alpendre, entretinham animada convivência, em grupos, conforme à posição das redes. Secundino mais o Miguelzinho e o Tomás, dois volumosos fazendeiros, parentes de casa, sentavam em mochos. Guida forçou o mancebo a tomar uma cadeira de palhinha, e aventou jogarem a bisca.

— Apois vamos lá. Mande ver o baraio! - grasnou o Tomás, na sua fala de asmático.

— Você é a minha parecera! - roncou o Miguelzinho, o cabeludão, que era torto (uma ponta de pau quase o cegara em rapaz, quando botava o cavalo a um barbatão).

Margarida lanço-lhes um olhar, que eles não entendiam.

O parceiro dela foi o Secundino.

O parentão cabeludo, sempre com aquela voz atroante e amiga, chalaçou para o jovem:

— Você foi quem mereceu a honra, hem, meu cabeça de côco?

Servia de mesa um mocho coberto com um chale vermelho. A Guida puxava conversa com o mancebo. De quando em vez, como uma lufada, vinha por ali uma gargalhada coletiva dos que cercavam ao Quim, que estava sentado no batente, à mangalaça, com seus chinelões de couro de maracujá, seu camisolão de chita encarnada e amarela, amostrando o peitaço que parecia uma chã de rês descansada. Guida voltava então a cabeça para a troça, e ao tornar punha um olhar na esbelteza do parceiro, no seu todo bem espanadinho de gato de casa de boa gente, que sabe lamber-se, ou de ave solta, que se cata à sesta e não tem sujo de gaiola.

Mas sim, é verdade, conhecera de lá o Silveira, dizia ela para o moço. O Silveira tinha contado, quando veio para ir ver o jumento em casa do Tomás...

— Ah! Ele chegou-me ao Timbó pedindo alvíssaras - entrou o parente - dizendo que o patrão estava c'üa jóia, um sobrinho assim, assim, que era camarada antigo dele...

— É verdade, somos conhecidos velhos. Ele foi arrieiro de meu pai.

Houve uma pausa.

— É meu! - brada o Miguel, puxando uma vaza.

— Qual seu, homem! Quem botou o rei foi a dóia.

— É meu, mulher! - repisou o turra, desmanivando a vaza. Está aqui o rei de espada...

— Pois, Miguelzinho, você quererá sustentar que o rei de espada era seu?

— Era sim! Largue o cabresto que a besta é alheia.

A Guida sacudiu as cartas na mesa:

— Vamos de novo! Tomás, embralhe.

Subira-lhe o sangue. Daí, como estivesse em presença do praciano, impôs-se a calma. Aquele Silveira era boa pessoa, não? Assim parecia.

Era, sim, Senhora, afirmava o parceiro. Era muito fiel. Tinha uma coisa: não podia tocar em bebida.

Perdia o senso?

Xi! ficava doido de pedra.

Ah! era muito raro ele beber. Ele se conhecia bastante...

E a Guida a repisar que era muito serviçal e pacato. O retirante melhor que ela vira. Trabalhador... Mas meio topetudo. Ninguém lhe botasse a mão, que havia de ver uma fera. Estava no seu direito. Em 25, ela era ainda pequenota... A princípio, confessava, teve certo sobrosso quando se falou em seca. Amedrontava-se com a idéia de que a sua habitação fosse acometida por bandos de celerados famintos, como onças, ou por dolorosa turba de cadáveres semoventes. Todavia, não foi como ela pensava. Os que ali tinham vindo não eram uns sentimentais, nem lamurientos, nem assaltantes.

— Ah! para mim é coisa líquida. Só a falsa miséria faz o crime, ou a lamúria como a dos ciganos - dogmatizou o jovem parceiro. Eu fico indignado com os tais ciganos!

A Guida continuava. Naturais, resignados, mansos, os retirantes. Não se entristecia tratando com eles. O que ela sentia era vontade de ajudá-los, como cristão a cristão...

— Sim, de homem a homem, pelo instinto de salvaguardar a espécie - disse o da praça. Não revelavam angústia pelas feições. Tinham era umas caras de tísicos, olhos brancos e grandes, dentes de fora, maçãs pontudas, pele de velho, cor encardida...

— Você não avalia - falou o Tomás, na sua voz rouca - você não avalia os benefícios que esta mulher fez àquelas pobres criaturas.

— Hão de ser teu talismã, minha Senhora Prima! - bateu-lhe o Miguel no ombro com seus afagos de canguçu. Mas peço-te já o sete! Passe onze jogos.

— Tome lá, engorde.

— Espere! eu neguei trunfo. Com licença...

— Assim é que eu gosto de ver.

A Guida estava de frente para o campo. O sol já entrava no alpendre pelo lado do rio. Lá embaixo, a palhoça do Silveira, novinha, exposta ao meio de um terreiro limpo, com os meninos do lado de fora, vadiando o jangalamarte; perto a fímbria do bosque, limitando-lhe o terreiro uma barra de mato seco. O gado malhava ao sol. Debaixo dos tamarindos cochilavam os burros do serviço...

Era um animal que valia a pena, o burro, aventava o Tomás. Lá por Pernambuco haviam de ser bem reputados, hem?

— Muito! respondeu o praieiro.

— O Silveira tem muito feito para lidar com eles - aproveitou a Guida.

— Podera não? É arrieiro velho. Para animais de carga é mestre, para o gado bovino é um bobo. E ele até sabe ensinar, entende lá o seu bocadinho de rédeas.

— Quero dar-lhe o meu castanho para ver. Mais essa gente de baixo não costuma sê lá muito boa prá mestre de cavalo, não, Senhor.

A conversa parou por um pouco. Num tom de velha familiaridade, volve a Guida, depois de momento de concentração:

— É verdade, ele quando vai para Goianinha?

O Secundino mirou-a com surpresa:

— Ele vai para Goianinha?

— Sim, menino. E por que não há de ir? Ele tem de voltar com os seus cargueiros.

Ah! então ela já sabia de tudo? - murmurou o mancebo consigo mesmo. Mas que indiscrição! Pois não era tão bom que ele fosse passando como cavalariano como estava, como simples especulador?

O caso é que a outra notou-lhe o embaraço:

— Eu quero que ele vá... Deve fazer muito boa venda de um lote de burros que eu tenho no Vavaú...

— E que peças que são aqueles bichos! - brada o Miguel com entusiasmo. São cinqüenta bagos a oio fechado!

— Alto e malo?

— Sim, Senhor. É de uma raça de jumentos da Bahia, que eu tenho lá. Ca figuras! Bem encascados que faz gosto, possantes... Tem até um que bralha.

Guida repetiu:

— Eu quero que ele vá, impreterivelmente.

Secundino fazia silêncio, meio confuso. Então ela queria que o homem fosse, isto é, que o Silveira se largasse para Goianinha a fim de jurar no seu processo, aliviando-o de semelhante pesadelo? Queria, estava dizendo de sua boca. Era pois certo o que se espalhava a respeito dessa mulher generosa e valente. Feliz quem lhe caísse nas graças. E notava agora na parceira uma harmonia de traços, que não lhe tinha visto ainda, que venciam a rudeza dos modos da matuta, espalhando, como a frutificação do croatá, dentre os espinhos, um aroma denunciador.

Começou o rapaz a sentir-se muito grato àquela senhora.