Dona Guidinha do Poço/II/VI

Dona Guidinha do Poço por Manuel de Oliveira Paiva
Livro Segundo, Capítulo III


Guida almoçou por comprazer, para não afrontar. Vestiu-se com vagar, e pichosamente, com o auxílio de duas escravas e de uma vizinha. E olha lá o balão por aqueles mundos, cintura de formiga, vestidão azul vivo, decote, pafos, babados, oirama ao pescoço, ao peito, nos pulsos, nas orelhas, e na tartaruga de pentes, e mais rubis e diamantes. No cabelo, um coque volumoso, e cachos bilaterais adiante, e a risca ao meio.

Chegaram as outras companheiras, para irem juntas. O Quim se aprontou logo, e se pôs à espera. Já dera a última chamada, grunia ele, e o padre já estava na igreja...

Que se arranjasse, ela já ia. Que abodego, meu Deus! A gente não podia nem se vestir direito! Havia de ir toda assanhada como uma doida?

Com alguma demora, saiu, muito vermelha, até porque havia passado rebique nas maçãs do rosto. O Secundino já estava na igreja, do lado de fora, com os outros de gravata limpa, que se iam ajuntando à sombra do edifício a conversar os assuntos do dia. Guida, ao descer os degraus de casa, logo o foi reconhecendo pelo corpo espigaitado.

A praça da matriz, forrada de pasto rasteiro, com os seus pés de cajá, de tamarindo, , alguns sobrados, casas caiadas, sol, dava gosto, alegrada pelos mastros embandeirados das noites da trezena.

Guida caminhou pela vereda, de lenço e rosário na mão. E a seda do seu vestido - fru, fru, fru... Enfrentando ao grupo de homens da terra, que conversavam à porta do lado, todos lhe tiraram o chapéu, fazendo mesura de cabeça. O Quim tomou para o conluio, as pernas abrindo caminho de dentro da roda que fazia o panudo sobrecasaco; a mulher, porém, com as outras, seguiu a entrar pela frente. No patamar os pés-de-poeira, os de camisa e guarda-peito, os de chinelo ou de sapatão de carnal, os de pequena condição abriram passagem à Senhora Dona Guidinha com umas caras satisfeitas de fiéis súditos.

O corpo da igreja estava cheio. A missa ainda custou.

Os homens esperavam na fresca, do lado de fora; alguns, recrutados pelo sacristão, o Mariano Bonfim, entraram a tomar opa.

No coro, a interminável afinação dos instrumentos e alguns prelúdios para prova. Acesas todas as luzes, como gado à rama acudiram os homens, e ficou tudo tomado. Veio a irmandade com os brandões, um menino com o missal, um com turíbulo e naveta, e o padre, de casula vistosa de damasco branco.

A irmandade enchia a capela-mor. Tirado o barrete, colocado o cálice, entrou a missa. Ajoelhou tudo. Guida botou na cabeça um lenço de labirinto, dobrado em triângulo, e entrou a desfiar as continhas de ouro de seu rosário.

Ao evangelho, subiu ao púlpito um padre ainda novo, que viera para coadjutor da freguesia, e contou muitas proezas de Santo Antônio. Os do adro e da capela-mor voltaram as costas ao altar, para ver e ouvir. Lá estavam a cara gorda e lisa do Quim, melhor para abade, a caraça queimada e barbuda do Miguelzinho do Mazapão, o rosto pálido e macambúzio do Tomás do Timbó, o Capitão Chiquinho, o Cosme, O Chico Beleco, de palitó escangotado, o Arão da Passagem, os bigodes do Dr. Montezuma, o pince-nez do doutorzinho Rabelo, promotor da Comarca, as suíças do doutorzão Fernandes, juiz municipal, ventas, orelhas, olhos, beiços de toda moda, e ao fundo, em plano superior, a calva morena do celebrante, o Vigário João Franco, serena e lisa como a tonsura do Senhor Santo Antônio.

O Secundino derrengava-se por cima da grade da comunhão, abanando-se com o seu lenço cheiroso, bem penteadinho, bem escovado.

A Lalinha mirava-o. Que sermão, que nada! Ele mirava para ela, e para a Guida, e para o pregador, sem excluir uma lambidela visual de moça em moça bonita. Guida sentia zelos pelo sobrinho grelas para outra que não fosse ela somente, e lhe punha um olho canino. Arengava dentro de si:

— É melhor, Margarida, que tu deixes de abusões. Aquele rapaz é um peralta, pois tu não estás vendo, mulher, com os teus olhos? Tarde chorarás o teu pecado, Margarida. Vê como aquilo se baba com a tal de Lalinha! Pois uma coisa assim merece lá um coração como o teu? E ele nem tem lá essas belezas que julgas! Repara. Espia. Compara aquele todo com o viço dos teus matutos. É farinha de barco, os outros são farinha da terra...

E levou-se a desfazer assim no querido. Raio da divina graça ou verme do ciúme?

Foi longa a missa e acabou com muito sino e foguete, indo os infiéis uns para suas casas, cansados e com sede, outros para a feira, que era grande naquele dia por mó do adjunto de povo.

Por mais que os padres falassem, o povo continuava a fazer feira nos domingos e santificados, reunindo-se ao mesmo tempo à cata das coisas desta vida e da outra. Era na rua tropel de cavaleiros que partiam e de cargas, e vozeria daquela invasão de tabaréus. Já um tirava os sapatos, outro arrumava o filho no meio da carga, aquele enfiava no cabeçote a aselha dos costais. Retiravam-se grupos de homens e mulheres a cavalo, que levavam as raparigas novas à garupa e os meninos sobre o arção da sela.

Guida pôs-se logo à fresca. O sol estava a pino. O Padre João Franco viera almoçar aí, logo depois da missa, porque gostava muito dos quitutes da Maria Velha, escrava e cozinheira da Guida; e, de batina desabotoada, ficou na sala de visitas jogando gamão com o Quim, ao passo que no compartimento contíguo a dona da casa com a moçaria pagodeavam, balançando-se na rede.

O Vigário, depois de levar um cantado, chamou a atenção do amigo para o que lhe havia dito por ocasião de escrever para os chefes conservadores do Rio Grande a respeito do Secundino. Podia garantir que não vinha precatória, mas não ficava bonito, a ele, padre e chefe de partido, que o rapaz, pronunciado por cumplicidade em um crime de morte, vivesse ostensivamente estabelecido em uma vila tão importante.

O Quim concordava. Já havia tratado disso à Guida - referiu.

Qual Guida! replicava o outro. O negócio era de homens, grave e sério. Levasse o rapaz para a fazenda... Ou se ele não quisesse sujeitar a viver assim em casa de outrem, entrega-se-lhe uma fazenda próxima, a Goiabeirinha, por exemplo, onde ele desenvolvesse livremente a sua atividade de moço.

Ele não tinha gosto pelo campo?

O Major achava que sim, e uma vez sendo necessário... Onde não havia, o rei perdia.

Por esse modo Quim ficou certo do negócio, e sem tratar disso com a mulher, infundido pelo Vigário, foi dali mesmo ajustar as coisas com o sobrinho.