Dona Guidinha do Poço/IV/V

Dona Guidinha do Poço por Manuel de Oliveira Paiva
Livro Quinto, Capítulo V


O vigário ficou aborrecido com o Quim. Tendo alcançado da Guida tão boas disposições, o diabo do homem todavia batia o pé que não voltava para o Poço! E já não era aquele moleirão, que se queixava como uma criança! Nem confidenciava mais com o Padre.

Este arregalou os olhos:

— Na! É assim?... Ora vão bugiar!

O Miguelzinho do Vavaú largou-lhe uma gargalhada maliciosa:

— Ora, Seu vigário, pra que ele há de voltar lá, se não pode entrar na porta?

E discorreu pelo miúdo sobre o assunto. A missa ainda custava bem um quarto de hora. O vigário era mesmo amigo de uma secazinha aos domingos, no consistório e sacristia, antes de celebrar.

O Miguel, com os seus beiços grossos e a sua barba afogueada, contou-lhe que, na qualidade de parente, tinha ido interpor também os seus bons ofícios perante a Guida, em favor do marido.

Havia-lhe falado franco. Ela porém saíra-lhe com quatro pedras na mão, que ele se importasse consigo, que não era pesada a diabo nenhum, que não era conta do seu rosário, etc. Mas ele danou-se foi com a grandíssima da estúpida trazer pra frente a sua defunta mulher, dizendo que ele a matara de desgostos por amor de umas certas coisas... Aquilo sempre fora muito ruim, aquela barbada! Deus lhe perdoasse a ele, mas não queria achar o que o Quim achou... Só mesmo cum bestalhão daquela ordem poderia ela ter casado. Por que nenhum rapaz do lugar se casou com ela?...

Note-se que dos parentes, continuava ele, fora o único que não deixou nunca de freqüentar a casa dela ao depois que todos se foram retirando mó da tal história do Secundino. Diabo da ingrata! E vir com aquela infâmia de ele maltratar sua defunta mulher!... Também ele fora logo lhe atacando que ela podia dizer o que lhe viesse às ventas, porque naquela casa não havia ronco de homem.

— O besouro também ronca.

Vai-se ver não é ninguém...

foi o que ela lhe respondera.

O Padre não gostou deste cavaco do fazendeiro. Ficara calado, deixando-o dar à trela. Fazia muito melhor idéia da Guida com que havia tratado até ali.

As janelas do consistório, verdes, na grossa parede branca, abriam para a sombra do edifício, e para a atmosfera abafada do tempo entrava, com o ar exterior, o sussurro da conversa dos que esperavam a missa a formarem roda na porta do lado.

O vigário que, com os cotovelos para trás, apoiados na comprida cômoda dos paramentos, escutava o Miguel, deu alguns passos até às janelas do fundo, para fazer ablução das mãos.

O outro acompanhou-o. Metia as botas agora no Secundino, a quem chamava barão do Poço, que, além de lhe haver maculado a honra da família, desencaminhara a Guida da boa razão com as suas prosas de pernóstico.

E quem lhe havia dado a mão - dizia o Vigário, voltando-se de súbito - não teriam sido mesmo Suas Mercês?

— É exato, mas... Seu Quim...

— Nada, não senhor! E aí está o nosso mal, replicava o sacerdote. O cearense só acha bom o que é de fora. A freguesia tem aqui muito rapaz bom e trabalhador, que vive sabe Deus como, e nenhum rico se lembra de ajudá-los. Venha, porém, um de fora... venha um de fora, Deus me perdoe, e dão-se-lhe até... as mulheres!

Franziu o sobrolho, a enxugar as mãos, misturando a sua indignação contida com o seu latinório.

O outro embatucava: por seu lado não era tanto assim, dizia... Mas o Seu Quim...

Acertou justamente de entrar na sala a corpulência deste senhor. Falar no mau... Trocaram-se os apertos de mão e bons-dias do costume, e se fez um silêncio. O vigário disse a costumada banalidade:

— Que há de novo?

— Ah, disse o Quim, o Chefe de Polícia e o Padre Brasil escreveram. Vou intentar ação de divórcio, gaste o que gastar!

Abrindo o longo casacão de pano fino, puxou do bolso de dentro umas cartas, e fez menção de apresentá-las ao vigário.

— Deixe pra logo! acudiu este, repelindo brandamente. São horas de paramentar-me.

E seguiu. O Miguel ficou parolando com o contraparente, de ponta que estava com a Guida, atiçando ao coitado. Aquilo era uma esta, uma aquela. Atacasse, que o público era em seu favor. Haviam de ver Deus por quem é. E uma vez divorciada, ela que se arranjasse com o pichote...

O Quim segredou-lhe que contava com duas testemunhas de papoco, o Néu mais o pai; o primeiro presenciara a sua pega com o sobrinho, e o segundo fora o próprio a desarmar o Silveira, quando este puxou pela faca...

— E onde andam eles?

— Estão no Sitiá...

— E que tem o divórcio com aquele seu cortabrocha e com o Silveira?

— Que tem?! E o patrocínio resultante que a Guida dispensa ao cabra? Não, por trás de tudo aquilo só cego não vê a sombra dela...

— Mas não diz que basta o adultério para produzir o divórcio perpétuo? obtemperou o Miguel.

— Sim, porém o adultério... titubeou o marido injuriado, sempre é vergonhoso... Não digo para ela, mas para mim e para vocês. Eu posso provar insídia por parte dela contra a minha vida. As insídias contra a vida, as sevícias graves, as sugestões criminosas de um cônjuge ao outro, são causas do divórcio temporário, como lá dizem...

— Temporário?

— A minha questão é a divisão de bens...

— Homem, atalhou o contraparente, dando no ar um golpe com a mão, eu era logo - pelo tronco!

E discorreram intimamente até entra a missa.