Girândola de Amores/VI

Girândola de Amores por Aluísio Azevedo
Capítulo VI: Primeiro encontro


Enquanto Gregório acompanha em distância a Menina do Bandolim, temos que ver ainda alguma coisa no café donde ela saiu.

Vários sujeitos se ergueram logo, e lá se foram retirando vagarosamente; outros se deixaram ficar ainda a beber e a dar à língua. A mesa do rapaz louro de monóculo não sofreu a menor alteração; continuava o orador a falar, sempre com loquacidade, e os outros continuavam a ouvi-lo com a mesma atenção.

Dois novos consumidores acabavam de entrar, conversando em voz baixa, muito animadamente. Pelo modo que discutiam, adivinhava-se facilmente que o mesmo interesse os prendia a um só assunto.

Eram ambos de meia-idade; um, porém, apresentava ser mais velho e de melhores costumes que o companheiro. Em si nada tinham afinal que pudesse chamar a atenção ao primeiro lance de vista; trajavam vulgarmente roupas baratas e cada qual trazia o seu chapéu de sol, como um símbolo de paz burguesa.

Assentaram-se defronte um do outro, pediram cerveja nacional e prosseguiram na conversa com o mesmo cauteloso empenho.

Deu meia-noite. Os sujeitos que ainda ocupavam as mesinhas do café, foram desaparecendo, até que o dono da casa, dirigindo-se aos dois últimos, lhes participou que desejava fechar as portas.

Então o que parecia menos velho atirou os olhos para o relógio, fez um sinal afirmativo e, sempre a conversar, ganhou com o companheiro a rua.

— É o que lhe digo, segredou-lhe o outro, quando saíam; pode contar comigo! Diga ao comendador que estou pronto para o que der e vier...

— Posso então dizer ao comendador Portela que você quer?!...

— Pode.

— Bem, nesse caso, precisamos amanhã mesmo entender-nos com ele. Onde nos devemos encontrar?...

— Onde quiser. Aqui no café por exemplo.

— Está dito. Então até lá.

— Até! respondeu o companheiro, tomando o largo de S. Francisco.

Mas voltou pouco depois, para perguntar ainda alguma coisa ao ouvido do outro.

— Não! respondeu este; o melhor é levar você uma boa navalha! Deixemo-nos de inovações! Cada um com o que aprendeu!

— Bem...

E separaram-se.

Entretanto, a Menina do Bandolim seguia pela rua do Teatro, com o passo seguro e apressado de quem não deseja demorar-se pelo caminho. Um homem saindo de uma esquina, pretendeu apoderar-se dela: Gregório porém não lhe dera tempo para isso, colocando-se entre os dois e repelindo o agressor a bengaladas.

A mocinha soltou um grito, chegou-se para o irmão, e deitou com este a correr em direção contrária à que levavam.

— Diga ao barão que ainda não foi desta vez! gritou Gregório para o sujeito a quem espancara, e seguiu o rumo que tomara a sua protegida.

Quando se convenceu de que ela estava fora de perigo, retirou-se para casa.

A menina, com o sobressalto em que ficou na ocasião de ser agredida, não pôde agradecer a generosidade de Gregório, mas guardou bem na memória a sua fisionomia e desde então principiou a distingui-lo intimamente com certa estima.

Só dois meses depois do conflito se tornaram a encontrar. Ela, como nessa ocasião estivesse em meio de uma peça que tocava, limitou-se a cumprimentá-lo com a cabeça e a sorrir para ele de modo reconhecido; mas, terminada a música, pousou o bandolim sobre uma cadeira e, depois de receber a espórtula das mesas, foi agradecer-lhe de viva voz o obséquio que havia recebido.

— Nunca mais lhe sucedeu outra? perguntou-lhe Gregório.

— Não, senhor. Depois daquela vez faço-me acompanhar sempre por mais um parente meu, que me vem buscar aqui.

E ficaram um instante a conversar, quando Gregório reparou que uma mulher havia parado à porta do café, a olhar investigadoramente para ele. Reconheceu-a logo e correu ao seu encontro. Era a viúva.

— Muito bonito!... disse esta, quando Gregório conseguiu alcançá-la. Pode voltar para onde estava!...

E como Gregório ficasse a rir com ar de pouco caso:

— O senhor nem precisava levantar-se para vir ter comigo!... era melhor que ficasse lá mesmo!...

— Deixa-te disso!

— Vou deixar-me é de ligar tanta importância a quem não o merece!

Neste ponto foram interrompidos por duas senhoras que pararam para falar com Júlia.

Gregório despediu-se e seguiu a direção contrária ao café da Menina do Bandolim. No fim da rua parou, comprou charutos e, à vista de um anúncio de espetáculo, resolveu ir ao teatro.

Ao entrar na platéia teve de afastar-se para dar passagem a uma família, composta de três senhoras e um cavalheiro.

— Oh! O Gregório! exclamou este ao vê-lo, e escancarou os braços expansivamente.

— Roberto! gritou o rapaz, atirando-se-lhe nos braços. Não sabia que tinhas voltado!

— Vim ontem.

— Mas como foste lá pelo norte? Que fizeste? Que me contas de novo?...

— Nada, isto é, casei-me. Olha, aqui tens minha mulher... E voltando-se para uma das senhoras:

— Sinhazinha, este é o Gregório, um menino que deixei quase do tamanho desta bengala e venho encontrar mais alto do que eu! E acrescentou, cortando uma risada e designando as outras senhoras: — D. Januária, velha amiga de minha mulher, e sua bela filha adotiva, D. Clorinda. Amanhã hás de ir jantar comigo e ficas prevenido de que te não dispenso um só domingo!

E o espetáculo passou-se todo em conversa.

Ao levantar-se no dia seguinte, Gregório notou que sentia no coração um desejo vago, e, nesta dúvida, neste estado vacilante da vontade, passou a manhã inteira e passou também todo o jantar, apesar da alegria ruidosa de Roberto.

Só à noite, com a chegada de D. Januária e da pupila, é que Gregório conseguiu descobrir o que tanto desejava ele esse dia — era ver Clorinda.

Não esperou segundo convite para jantar todos os domingos com o amigo. Duas razões o levaram a isso: a primeira porque aquele costumava reunir em casa algumas pessoas, entre as quais D. Januária e sua adorável filha adotiva; a segunda razão saberá o leitor daqui a pouco. Por enquanto precisamos falar de outra coisa.

As reuniões do Dr. Roberto eram muito limitadas; pouca gente aparecia além da que acabamos de citar.

A mulher, D. Carolina, não dava muito para etiquetas, se bem que fosse de seu natural amiga de agradar e servir. Gostava, porém, que não a tirassem da sua liberdade e do seu cômodo.

Isso mesmo dizia o ar descansado e bondoso da sua figura gorda e linfática; contudo, era muito raro se lhe surpreender nos lábios o menor gesto de contrariedade.

Gregório, quando a visitou pela primeira vez, passou algumas horas assentado ao seu lado, e sentiu-se durante esse tempo ir pouco a pouco penetrando do ar morno, indiferentemente satisfeito, que respirava dela toda, como a própria temperatura do corpo.

Carolina não se levantara sequer para o receber, mas demorara nas suas mãos algum tempo a do rapaz e indagara-lhe da saúde com um riso esparrinhado por todo o rosto. Às vezes parecia que ela se deixava ficar assim a sorrir indeterminadamente, por esquecimento ou por preguiça de suspender o sorriso.

Suas feições estavam sempre abertas, como as gavetas de um desmazelado; mas olhava-se para dentro delas, com o desinteresse com que se olha para o interior de gavetas vazias.

Nada a sobressaltava, nada a afligia. Pela manhã, às dez horas, a criada ia ajudá-la a sair da cama para o banho morno; servia-lhe depois uma papa de leite e farinha de mandioca, e passava a penteá-la, calçá-la e vesti-la. Durante esse tempo as duas, senhora e criada, conversavam, devagar, molemente, assuntos bambos, sem interesse para ninguém e maçadoramente virgulados de grandes pausas.

Carolina gostava em extremo que lhe mexessem na cabeça, estimava que a criada demorasse bem o arranjo de seus cabelos, durante o qual se repoltreava ela na cadeira, toscanejando uma voluptuosidade surda e espessa, de gata saciada.

Às vezes adormecia nessas ocasiões e era preciso que a criada a chamasse depois para o almoço.

Comia muito compassadamente, aos bocadinhos, como uma criança gulosa. Era doida por doces e quitutes. Quando passava pelo açucareiro tirava em geral um pouco de açúcar, com que cobria a língua. Fazia muita questão na escolha dos pratos. Recomendava de véspera, durante o almoço ou o jantar, o que lhe apetecia comer no dia seguinte, e a algumas iguarias mais do seu gosto, como por exemplo a moqueca de peixe, ela só saboreava sem talher, à mão.

O marido por muito tempo procurou reagir contra esses hábitos sedentários; expôs à mulher os inconvenientes de uma existência sem exercício, sem preocupação de espécie alguma, ofereceu-lhe livros, lembrou-lhe a jardinagem, falou de tudo o que podia honestamente prender o espírito de uma senhora ou obrigá-la a qualquer esforço físico; mas nada conseguiu; Carolina não se abalara e, quando o marido insistia muito nas suas costumadas censuras, ela respondia com todo o descanso:

— Ora, seu Roberto, deixe cada um com seu gênio!...

E Carolina ficou no que era.

Esteve grávida, e a gravidez só lhe parecia antipática, porque a obrigava a sair um tanto dos seus hábitos sedentários. O filho tomou a resolução de morrer antes do nascimento. E fez bem.

Contrastava vivamente com o tipo da dona da casa, uma de suas visitas mais constantes e mais da sua intimidade — D. Josefina de Brito; a mesma que no primeiro capítulo, por ocasião do gorado casamento de Gregório, tão indignada se mostrou, na qualidade de madrinha, com o estranho procedimento do noivo.

D. Josefina era a antítese perfeita da amiga. O que tinha esta de flácida e moleirona, tinha a outra de ativa, impaciente, curiosa e ralhadeira. Nunca ficava sossegada num lugar: de manhã à noite vivia a saracotear pela casa, a dar fé de tudo, até que enfiava o vestido, punha a capa e corria às amigas para boquejar sobre os conhecidos.

Falava de tudo e de todos sem o menor escrúpulo, e desconfiava de toda a espécie de homem, passados, presentes e futuros. O longo e rigoroso celibato, a que sempre vivera amarrada e que por muito tempo lhe zurzira os nervos, acabara por torná-la frenética e ruim. Josefina tudo perdoava a qualquer pessoa, menos a felicidade do amor, nem admitia que alguém tomasse a sério isso a que ela chamava "Mal de tolos!"

Nesse ponto extremava perfeitamente com a outra, que se comprazia em acompanhar voluptuosamente o progresso de qualquer namoro, e até a auxiliá-lo; o que muito devia aproveitar a Gregório, como efetivamente teremos ocasião de ver mais adiante.

Mas deixemos tudo isso à margem, para nos ocuparmos da segunda razão que levou Gregório a jantar todos os domingos com o Dr. Roberto.

Essa razão era a circunstância especial de haver se retirado para a Europa a família com quem morava o rapaz.

Tal razão aparecerá pouco óbvia à primeira vista, porém não é. O leitor, se nunca morou em família ou se nunca teve de separar-se daquela com quem convivera indefinidamente, não poderá avaliar o alcance do que avançamos; mas, se ao contrário, o leitor é um desses muito infelizes, que de um momento para outro se vêem privados das pessoas com quem habitava, para seguir um destino de desordem e boêmia, o leitor nesse caso avaliará o peso de nossas considerações e sentirá o valor da opressão em que ficou o nosso pobre herói com a partida da família entre a qual vivia.

É preciso ter experimentado o que isso é, para saber quanto custa. Antes da separação não seríamos capazes de imaginar o estado em que ficamos; então, até se nos afigurava que a coisa não havia de ser objeto de pena e mágoa. Suponhamos que a vida exterior, com seus teatros, as suas palestras de café, os seus almoços ruidosos e cheios de riso, as suas aventuras picantes, as suas peripécias, as suas alegrias efêmeras, compensariam perfeitamente a convivência habitual e burguesmente amiga daqueles com quem morávamos. Ilusão! pura ilusão! A rua, o teatro, as soirées, os passeios, a conversa descuidosa dos amigos, não substituem absolutamente o que nos falta em casa. Todo esse conjunto de impressões, todo esse barulho de gozos, mais ou menos passageiros, não nos enchem o vácuo insondável deixado por aqueles, em cujos corações nos podíamos refugiar confiantemente, quando voltávamos desiludidos e cansados de percorrer toda a escala das falsas sensações exteriores.

Abençoados lares. Quão pouco é necessário para o bom resultado de vosso mister sagrado e consolador! Uma pequena vivenda humilde e pobre, um pouco de sol, um pouco de ar, o produto de algumas horas de trabalho, tudo isto iluminado de amor e boa vontade — e eis aí os elementos de uma felicidade completa.

Comparai os dois sentidos. De um lado o desafeiçoado pândego, que vive au jour le jour, comprando fôlego a fôlego a sua vida inútil e egoísta; de outro lado o trabalhador modesto, que moureja durante o dia para prover a subsistência da mulher que ama e a dos filhinhos que à noite o esperam. Um vai aos teatros, bebe, ri, galanteia as mulheres, mas volta para a cama do hotel em que mora ou da amante que lhe pertence na ocasião, com o corpo cansado e gasto e a alma desconfortada e fria. Tudo lhe causa aborrecimento, tudo o enche de tédio: os amigos, os prazeres e o próprio vício. Acorda sempre de mau humor, não encontra em coisa alguma um lado que o seduza e prenda. Enquanto o outro, o burro de carga, aquele que durante o dia, em vez de gastar, ganhou; aquele que devia ao chegar à noite sentir-se cansado e indisposto, esse entra em casa quase sempre cantarolando e sempre sorrindo; abraça a mulher, beija os filhos, afaga o cão, dá uma vista de olhos pelo jardim e assenta-se ao lado dos seus para cear, feliz, confortado, fortalecido pela dignidade do seu esforço, abençoado por aqueles que vivem da sua atividade e do seu amor, e afinal deita-se a dormir, tranqüilamente, com o coração despreocupado, o sangue fresco e a consciência lisonjeada.

Tais foram as considerações que fez Gregório, quando se sentiu só e desamparado de qualquer afeição doméstica.

Que terrível noite a primeira que ele passou depois que partiu a família com quem morava! Tudo lhe parecia triste e insociável; tudo o encarava com uma fisionomia dura e antipática; os mesmos trastes da casa, dantes tão familiares e amigos nas conversas de depois do jantar, se mostravam agora concentrados e macambúzios, como se tivessem alguma razão de queixa contra ele; parecia que os moradores haviam morrido todos e que andavam seus espíritos a pairar nos ares silenciosamente, como o fumo preso dentro de uma sala.

Foi nestas circunstâncias que viu pela primeira vez Clorinda e que aceitou sem discutir o convite para jantar aos domingos em casa do Dr. Roberto.

Gregório sonhara quanto não seria bom fazer existência ao lado de uma mulher moça, bonita e carinhosa.

— Definitivamente era preciso casar! pensava de; aquela vida miserável de homem solteiro não lhe poderia convir! ganhava o bastante para si e para a mulher; não tinha por conseguinte razões que o forçassem a contrariar as suas aspirações e... diga-se tudo, o seu amor, porque afinal de contas já amava Clorinda e já não podia imaginar a felicidade senão em companhia dessa criatura adorável.

A viúva, sem que ninguém lho dissesse, compreendeu e avaliou tudo o que se passava no espírito do seu amante. Como mulher de experiência, adivinhara, ao primeiro sintoma dos novos amores de Gregório, a tempestade que se armava, e, ainda como mulher de experiência, tratou de disfarçar o seu sobressalto e desviar a nuvem carregada de eletricidade.

Mas tudo foi debalde: pouco depois Gregório pediu Clorinda em casamento e as coisas tomaram o caminho que o leitor já conhece.

Mal sabiam, coitados! o que lhes estava reservado ainda!