Girândola de Amores/XIV

Girândola de Amores por Aluísio Azevedo
Capítulo XIV: Os pais de Gregório


Leão Vermelho pouco tempo se demorou pelas Antilhas; percorreu Cuba e Porto Seguro; foi feliz no comércio de tabaco, e tentou alargá-lo, entregando-se a novas especulações.

Os desgostos de família, a ausência de carinhos, a falta absoluta de alguém a quem se dedicasse ele de coração, deram-lhe ao caráter esse espírito ganancioso que se nota principalmente nos judeus desmanados ou nos padres católi­cos, aos quais as leis canônicas proíbem constituir o lar, a dedicação íntima e o amor.

Mas o pai oficial de Gregório tinha inegável queda para fazer família. E a prova disso vai ver o leitor.

Dissemos que de se lembrara de ampliar as suas especula­ções, e acrescentamos agora que Leão Vermelho não poderia encontrar melhor época para pôr em prática semelhante reso­lução. A guerra do Paraguai estava no seu apogeu; os comis­sários de todos os matizes enriqueciam da noite para o dia; chegar ao Paraguai com um carregamento de víveres e objetos de uso vulgar era haver como certo o valor desses objetos dobrado vinte vezes a peso de ouro.

Leão Vermelho fez um grande carregamento com todo o dinheiro que ganhara nas Antilhas, e resolveu seguir para o Rio da Prata.

Teve porém de demorar-se no Rio de Janeiro mais tempo do que supunha, porque fora acometido pela febre amarela. Morava para as bandas de Catumbi, numa casa de pensão, dirigida por uma viúva ainda moça. Foi esta que se encarre­gou de o tratar, e com tanto empenho se dedicou a tão displicente tarefa, que o capitão, ao convalescer da febre, havia adoecido de uma outra enfermidade, cujos lenitivos só a própria enfermeira lhos podia ministrar.

E ministrou-os. Não a medir sovinamente as doses, como fazem os médicos, mas a franqueá-las liberalmente, como se quisesse utilizar as suas drogas, que se iam desvirtuando sem aproveitar a ninguém. De sorte que Leão Vermelho, ao partir para o Rio da Prata, já levava saudades da corte e já se sentia consolado quase das suas primeiras adversidades conjugais.

Os ressentimentos desapareceram afinal, mas as saudades foram avultando de tal forma, que o comissário acabou por acreditar que já lhe não era possível dispensar a consoladora companhia da viúva. Isso mesmo deixava ele provocado no calor das suas cartas e no interesse que punha nas palavras, sempre que falava em voltar para a casa de pensão da Sra. D. Henriqueta dos Santos. Esta, pelo seu lado, não podia deixar de ter na memória o querido hóspede, porque Leão Vermelho se fazia representar na sua ausência por um fenô­meno fisiológico muito conhecido, que ia roubando à viúva uma grande parte da elegância, e dando à sua cintura uma certa dilatação suspeita e respeitável ao mesmo tempo.

Quando, um ano depois, o comissário voltou ao Rio de Janeiro, em vez de ser recebido simplesmente pelos dois belos braços carnudos de D. Henriqueta, foi também recebido por mais outros dois, não tão provocadores, porém talvez mais belos e com certeza mais adoráveis: eram os bracinhos de uma filha.

O leitor não precisará fazer um grande esforço de inteli­gência para adivinhar que essa criança é Clorinda, a formosa criatura que havia de mais tarde cair nas garras do nosso Gregório.

Leão Vermelho continuava a prosperar; as especulações do Paraguai enchiam-lhe fartamente as algibeiras. D. Henri­queta desfez a casa de pensão, e dela conservou somente uma velha amiga de muitos anos: D. Januária; cumprindo deste modo, não só um dever de gratidão para com essa pobre senho­ra que fora por longo tempo o seu braço direito, como também evitando assim ficar só com a filhinha, durante as repetidas viagens do capitão.

O comissário comprou uma confortável casinha no Campo de Santana, preparou-a com o desvelo dos homens dados à família, e dispôs-se a encontrar, nesse modesto refúgio, a paz e a felicidade que não conseguiu gozar nos braços da esposa legítima.

Clorinda foi batizada muito modestamente; convidou-se para padrinho um rapaz da vizinhança, que já em algum tempo fora pensionista de Henriqueta: o Portela, belo moço do comércio, pacífico e apresentando bons costumes. Diziam dele coisas muito lisonjeiras, e entre os da mesma classe passa­va por espírito claro e vantajosamente cultivado.

Foi desse modesto padrinho que brotou aquele preten­sioso comendador, com que travamos conhecimento desde o primeiro capítulo. Trazia já consigo certa pontinha de empáfia; já naquele tempo, se bem que os meios lhe não permitissem ainda ablaquear grande figura, gostava ele de empinar o nariz e de emitir opinião sobre assuntos de sua ignorância. Para madrinha convidou-se quem era de esperar: D. Januária. A boa senhora morria de amores pela filhinha da amiga; ficou satisfeita com a escolha. E tudo correu muito bem.

Leão Vermelho, ainda não saciado, voltou ao campo de suas especulações e, ao que parece, não com menor fortuna do que da primeira vez, porque ao voltar agora tratou de desenvolver a sua casa; cercou-se de opulência, abriu as salas e procurou estender as suas relações com a melhor sociedade.

O diabo era o fato de não ser casado ou, por outra, de ser já casado e não poder, assim, justificar as suas relações com Henriqueta e apresentá-la limpamente nos salões que em torno dele se abriam. Entretanto ninguém no Brasil parecia estar ao fato do seu casamento em Portugal, e ele próprio ia jurar que Cecília havia já morrido no tal convento a que afinal se recolhera, pois nunca mais lhe constou a menor novidade a respeito da pobre louca.

Sob esta impressão recebeu a notícia de que acabava de morrer em Minas Gerais um tio materno de Henriqueta, do qual nem a própria sobrinha se lembrava. Nada menos de uma herança de cem contos de réis! Este fato o decidiu a contrair casamento com a herdeira e partir depois em compa­nhia dela para o lugar onde tinha de receber o legado; mas a fortuna, que até aí não o desamparara, entendeu desta vez virar-lhe as costas. O tio de Henriqueta deixara alguns paren­tes afastados; esses parentes cobiçaram também o dinheiro do defunto e trataram de guerrear a pretensão da sobrinha. Leão Vermelho foi perseguido; os inimigos, no furor de prejudicá-lo, descobriram a sua bigamia, levaram o escândalo para a impren­sa e mais tarde para os tribunais. O comissário, aflito com semelhante perseguição, deixara a província e, sendo acossado igualmente no Rio de Janeiro, fugira para Buenos Aires, ficando a mulher, a filha e D. Januária na Corte.

Definitivamente a estrela do pobre Leão Vermelho prin­cipiava de novo a assombrar-se, porque pouco depois da sua partida, Henriqueta falecia de um terrível aborto.

Contudo as perseguições continuaram, e Leão Vermelho resolveu voltar à pátria e reclamar depois a filha. Constou então que ele havia morrido e os inimigos para sempre se apaziguaram. Clorinda ficara em companhia da madrinha, D. Januária, que desde então principiou a servir-lhe de mãe. Foi nessas condições que a encontramos já mulher no primeiro capítulo, a vestir-se para o malogrado casamento de Gregório. O pai fazia chegar misteriosamente às mãos de Januária uma mesada, que chegava perfeitamente para ela e Clorinda. O leitor sabe já qual o efeito da suspensão dessa mesada com a morte real do comissário. Mas o que ainda não dissemos, e o leitor talvez não desdenhe saber, é o que foi feito de Tubarão, e quais as circunstâncias que o colocaram mais tarde ao lado de Talha-certo, envolvendo-o no crime da casa Paulo Cordeiro. É o que vamos ver.

O marinheiro acompanhou o amo ao Paraguai e, por ordem dele, aí ficou para o secundar nos seus negócios; depois, com a segunda viagem de Leão Vermelho, terminaram as espe­culações deste, e o marujo conseguiu encartar-se a bordo de um navio brasileiro. Só voltou à Corte com o fim da guerra e passou então a trabalhar como calafate no arsenal de mari­nha. Nesse estado é que o encontramos no café da Menina do Bandolim.

Sabe agora o leitor a verdadeira causa do espanto, e talvez da alegria, de Tubarão ao ouvir dizer pelo Talha-certo que Pedro Ruivo estava no Rio de Janeiro. O marinheiro nunca perdoara o mal que o tratante fizera a Cecília e aguardava ainda, com o mesmo empenho, um seguro momento de vingar a sua querida ex-ama. Cumpre também esclarecer um outro ponto: quais as relações que existem entre o comendador Portela e o tal Ruivo; relações estas que implicam com uns certos documentos desfavoráveis ao comendador e que se supunham em poder do Ruivo.

Vamos a isso, mesmo porque é tempo de acentuarmos melhor este tipo, cujo desenho foi até agora apenas esboçado por alguns fatos de sua vida.

Ruivo era uma dessas figuras indefinidas e duvidosas, das quais é muito difícil determinar, só pelas aparências físicas, o caráter, as intenções e a idade. A expressão da sua fisionomia variava conforme a situação; nadavam-lhe às vezes os olhos em um mar de ternura, às vezes cintilavam de esper­teza e ganância, e às vezes amorteciam indiferentes e distraí­dos. E todo o rosto acompanhava essa ginástica dos olhos, fazendo-se, ora compassivo, ora carrancudo, ora imbecil. A tez, tão facilmente aparecia corada e lustrosa, como se tornava pálida e baça. Os lábios mexiam-se de mil modos e davam à boca toda as expressões da dor, da alegria, da maldade e do heroísmo; só um traço se conservava fiel aos seus lábios: era um certo arquear do canto da boca, como se nota em geral nos velhos cômicos, habituados ao falso riso.

Pedro Ruivo talvez tivesse dado de si um bom ator. Ninguém como ele governava tão despoticamente a fisionomia, e ninguém sabia conduzir as inflexões da voz com tanta arte e com tanta felicidade. Quando queria enganar alguém, arrancava da garganta maviosos queixumes doloridos, ou então gritos indignados, agudas exclamações de cólera, de amor e de pasmo.

Tudo isto sem o menor esforço, sem o menor estudo. Conhecia por natureza todos os segredos da ciência de agradar, de abrir os corações e ir penetrando familiarmente por eles, como quem dispõe do que é seu.

Entretanto não tinha amigos e era incapaz de fazer o menor serviço desinteressado, fosse ele o mais simples deste mundo. Quando se mostrava indignado defronte de alguma injustiça ou de qualquer perversidade, ninguém acreditaria que ali estivesse o mais cínico dos homens; da mesma forma, quando tinha de desagravar o suposto brio de qualquer ofensa, ninguém, pelo seu aspecto resoluto e digno, seria capaz de perceber o poltrão que se escondia debaixo dele.

Com semelhantes dotes conseguiu sobreviver ao destroço dos seus bens e conseguiu inspirar simpatia a muita gente. Logo que empobreceu, principiou a tirar partido do jogo; não jogava sem trapacear. Uma noite, justamente no tempo em que perseguia a mulher de Leão Vermelho, foi pilhado em ladroeira, e teve que fugir do Porto. Assim se explica a sua desaparição, quando o marinheiro pretendia lançar-lhe as unhas.

Pedro Ruivo conseguiu passar ao Rio de Janeiro. O Brasil sorria-lhe de longe, como um vasto campo onde podia ele exercer livremente a sua arriscada indústria. Começou logo a correr as províncias, já engajado em uma companhia dramática, como secretário; já à sombra de algum amigo remediado de fortuna; já como fac totum de alguma estrela de brilho suspeito.

E assim se escoaram quinze anos; apareceram-lhe as rugas e os cabelos brancos. O libertino compreendeu então que havia esbanjado todos os bens com que viera ao mundo, e caiu em um grande desânimo. Sentia-se cansado de não haver feito coisa alguma; a idéia da sua maldade e da sua influência perversa sobre aqueles com quem convivera, encheu-lhe o coração de um profundo desgosto envergonhado. Pensou no suicídio. A morte apareceu-lhe como aparece a idéia de deserção ao mau soldado; queria fugir da vida, porque esta se convertera para ele em uma mochila difícil de suportar. Mas não teve ânimo de morrer; não teve coragem de separar-se por uma vez daquela matéria vil, que lhe reclamava dia a dia o necessário para alimentá-la. Que inferno! considerava ele nos seus momentos terríveis. Que inferno! ter eu de sustentar esta besta!

Era o egoísmo na sua suprema expressão. E a existência tornara-se-lhe assim um verdadeiro tormento. Vivia mal cuida­do, mal nutrido, às vezes sem casa, sempre sem esperanças e sem alegrias. A felicidade dos outros o torturava de modo cruel; não podia ver ninguém desfrutar a vida satisfeito.

A mulher, esse ente imperfeito e adorável, que dantes o levava a cometer tamanhos desatinos, convertera-se agora, para ele, no mais feio objeto de desprezo; quanto mais bela fosse, quanto mais terna, mais digna de ser amada, tanto mais Pedro Ruivo a execrava. Agora, a um beijo preferia um par de botas e, de bom grado, trocaria todos os sorrisos feminis do mundo por uma miserável nota de cinco mil réis. A fome, o mau trato, os vícios dele e os do seu sangue, transformaram-lhe completamente o corpo. Já nada existia daquele tipo asseado e simpático que vimos no Porto passear de braço dado à Cecília no domingo da excursão à quinta. Seus olhos tinham perdido o brilho sensual dos outros tempos, e deixavam-se agora engolir sonolentamente pelas pálpebras bambas e amor­tecidas; o nariz, de fino e bem feito que fora, transformara-se em um torpe objeto, informe, gorduroso e vermelho; a boca perdera dentes e descaíra pelo hábito do cachimbo; o velho abuso do álcool principiava também a reclamar os seus direitos e sacudia-lhe já com delirium tremens os membros narcotizados pela aguardente.

Todo ele era inchação, tosse, reumatismo e maus humores. Já não podia beber um trago sem ficar logo embriagado e trêmulo. E, sem roupa, sem dinheiro, sem vontade de viver, escrofuloso e porco, arrastava-se pelas tavernas, dormia pelas calçadas, bebia nos chafarizes e pedinchava pelas casas de pasto.

Neste estado, dormitava uma tarde nos bancos do Passeio Público, quando ouviu perto de si a conversa de dois tipos, que falavam animadamente. Um era o comendador Portela; o outro o leitor reconhecerá depois.

— Mas onde estão os papéis?... perguntou o Portela, chegando a boca ao ouvido do companheiro.

— Estão ainda no hotel do Caboclo, dentro da minha mala. Posso ir buscá-los hoje mesmo e entregá-los ao senhor, contanto que, no ato da entrega, o amigo...

— Caia com o continho de réis!... Está dito, pode ficar descansado! Leve-me os papéis e terá o dinheiro!

— Bem, vou então buscar a mala, prometeu o sujeito ao comendador; e levo-lhe depois os documentos.

— Ou então, olhe! o melhor é seguirmos juntos; vamos lá para casa, e mandamos buscar a mala por uma pessoa de confiança. Lá no hotel saberão entregá-la?

— Isso é o menos. Não tenho outra malinha de ferro em meu quarto, mas, é que certos objetos não devemos confiar a ninguém...

— Bom! bom! volveu o comendador; escusa de desconfiar com a gente! Já cá não está quem falou. Vá você mesmo buscar a sua mala...

E os dois, depois de conversarem ainda por algum tempo, saíram vagarosamente do Passeio Público.

Mas, Pedro Ruivo, que ouvira toda a conversa, havia já disparado com direção ao hotel do Caboclo.