Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba;

Verdes mares, que brilhaes como liquida esmeralda aos raios do sol nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros;

Serenai, verdes mares, e alisai docemente a vaga impetuosa para que o barco aventureiro manso resvalle á flor das aguas.

Onde vai a affouta jangada, que deixa rapida a costa cearense, aberta ao fresco terral a grande vella?

Onde vae como branca alcyone buscando o rochedo patrio nas solidões do oceano?

Tres entes respirão sobre o fragil lenho que vai singrando veloce, mar em fora:

Um jovem guerreiro cuja tez branca não cora o sangue americano; uma creança e um rafeiro que virão a luz no berço das florestas, e brincão irmãos, filhos ambos da mesma terra selvagem.

A lufada intermittente traz da praia um echo vibrante, que resoa entre o marulho das vagas:

— Iracema!...

O moço guerreiro, encostado ao mastro, leva os olhos presos na sombra fugitiva da terra: á espaços o olhar empanado por tenue lagrima cahe sobre o giráo, onde folgão as duas innocentes creaturas, companheiras de seu infortunio.

Nesse momento o labio arranca d'alma um agro sorriso

Que deixara elle na terra do exilio?

Uma historia que me contarão nas lindas varzeas onde nasci, á calada da noite, quando a lua passeava no ceo argenteando os campos, e a brisa rugitava nos palmares.

Refresca o vento.

O rullo das vagas precipita. O barco salta sobre as ondas; desaparece no horisonte. Abre-se a immensidade dos mares: e a borrasca enverga, como o condor, as foscas azas sobre o abysmo.

Deus te leve á salvo, brioso e altivo barco, por entre as vagas revoltas, e te poje n'alguma enseada amiga. Soprem para ti as brandas auras; e para ti jaspêe a bonança mares de leite.

Enquanto vogas assim á discrição do vento, airoso barco, volva ás brancas areias a saudade, que te acompanha, mas não se parte da terra onde revôa.

NotasEditar

Pag. 1. — Onde canta a jandaia. - Diz a tradicção que Ceará significa na lingua indigena — canto de jandaia.

Ayres do Casal, Corographia Brasilica, refere essa tradicção. O senador Pompêo em seu excellente diccionario topographico, menciona uma opinião, nova para mim, que pretende vir Siará da palavra suia-caça, em virtude da abundancia de caça que se encontrava nas margens do rio. Essa ethmologia é forçada. Para designar quantidade, usava a lingua tupy da desinencia iba; a desinencia ára junta aos verbos designa o sujeito que exercita a acção actual; junta aos nomes o que tem actualmente o objecto — exp.: Coatyara— o que pinta; Jussara — o que tem espinho.

Ceará é o nome composto de cemo — cantar forte, clamar, e ará, pequena arara ou periquito. Essa é a ethmologia verdadeira; e não só conforme com a tradicção, mas com as regras da lingua.


Pag. 2. — I. Giraó - Na jangada é uma especie de estrado onde acommodão os passageiros: e as vezes o cobrem de palha. Em geral é qualquer estiva elevada do solo e suspensa em forquilhas.

II. Rugitar — é um verbo de minha composição para o qual peço venia. Felinto Elisio creou ruidar de ruido.